Belém – llha de Marajó

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    Nem bem nosso avião pousou , próximo do meio dia , e já começamos a trabalhar . Foi só o tempo de deixar nossas coisas no barco , e em seguida já estávamos em campo . Para esta etapa separamos dois dias para gravações em Belém , já que a cidade tem inúmeros prédios antigos bem interessantes , e algumas instituições de pesquisa que são obrigatórias para quem quer conhecer um pouco mais sobre a história e realidade da Amazônia . O primeiro que escolhemos foi o Teatro da Paz , inaugurado em 1874 , filho da época áurea da borracha . Valeu a pena . Faz dois anos que foi restaurado e hoje está tinindo em toda sua imponência . Entre platéia , frisas, e galerias , cabem 904 pessoas . As cadeiras são de madeira com palhinha , o teto e as laterais pintados a mão , e elegantes lustres providenciam a iluminação . De 1850 , mais ou menos , até os primeiros anos do século 20 , a renda per capita do Pará e Amazonas era maior que a da região Sul, em função do extraordinário lucro produzido pela exportação da borracha , e a sociedade local não abria mão das temporadas de ópera, e outros espetáculos artísticos que mandava trazer diretamente da Europa .

    Para se ter uma idéia saiba que Manaus e Belém foram as duas primeiras cidades brasileiras a receberem serviços de luz elétrica , bondes, e água encanada . De 1850, até 1910 , época de ouro do ciclo da borracha , a população destas cidades pulou de duzentas mil pessoas para um milhão e duzentas mil !

    Em seguida fomos ao Imazon , ONG que tem por finalidade , entre outras , estudar a ocupação do solo , o avanço das fronteiras agrícolas , o desmatamento , etc . Tivemos uma aula com os pesquisadores nos mostrando os problemas causados pela falta de políticas públicas coerentes , o estrago produzido por estradas nem sempre importantes , como Transamazônica , por exemplo , ou o avanço da cultura da soja nas fronteiras , que empurra mata adentro a criação do gado , e o desmatamento que ambas produzem .

    Uma pesquisa feita pelo Imazon , mostra que , para cada árvore que chega numa serraria , outras 27 caem inutilmente , e acabam ficando na mata , esquecidas , ou apodrecem antes de serem retiradas . Mas tem mais : as serrarias , por usarem técnicas rudimentares , desperdiçam um terço de cada tora beneficiada . O pior é que a indústria madeireira é a terceira em geração de empregos na Amazônia. Em toda a região são 600 mil pessoas . Portanto , se conseguirem acabar com a devastação, vai sobrar um problema social grave: onde e como empregar toda esta gente ? Mas atenção, paulistas , este dado diz respeito a todos nós : um relatório da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República , estima que 80% da madeira extraída seja ilegal , e a maior parte dela é vendida em São Paulo . Então , você que mora nesta cidade , ao comprar móveis , ou quaisquer outros objetos de madeira , exija que seja madeira certificada , dando assim sua contribuição para a diminuição do processo destrutivo . Outro problema gravíssimo diz respeito à falta de fiscalização . É difícil acreditar, ou aceitar , mas o Ibama tem pouco mais de 600 fiscais para tomar conta de uma região que representa 61% do território brasileiro ! É mole ? Enquanto isto não for resolvido não há a menor possibilidade da destruição parar . A situação é muito grave , e muito triste . Seiscentos e poucos fiscais para vigiar 5,1 milhões de quilômetros quadrados beira ao ridículo ou ao humor negro . E a resposta é sempre a mesma : falta dinheiro . Pois é , mas para aumentar os salários de deputados e senadores , ou a verba de seus gabinetes , nunca falta grana . Compare como o Governo gasta mal sua verba: Em 2004 o Executivo torrou , entre viagens , diárias no exterior , e pagamento do uso de cartões de crédito corporativos , a assombrosa quantia de HUM BILHÃO E CEM MILHÕES DE REAIS ! No mesmo período o Programa de Prevenção e Combate ao Desmatamento e Incêndios, gastou 37 milhões de reais . Enfim , este é apenas mais um exemplo da falência da máquina pública brasileira . Apesar da carga de impostos que pagamos, típica de países de primeiro mundo , temos em troca serviços dignos de Uganda . No Brasil o setor público é caro e ineficiente . Onde é preciso poucos funcionários, há muitos. E onde é preciso muitos, há poucos. Alguém já disse que os brasileiros não merecem a elite política que temos. Seja lá quem for está coberto de razão . Agora preste atenção : a Mata Atlântica , mais próxima da fronteira marítima , por onde os portugueses chegaram , precisou de 500 anos de descaso para ser reduzida a cinco ou 7% de sua cobertura original . Mas a Amazônia EM APENAS 40 anos de exploração já perdeu 15% do tamanho original . Faça as contas e veja quantos anos de vida ainda resta para a mais rica floresta úmida do planeta. Como se vê não temos motivos para comemorar .

    Estávamos satisfeitos com o rendimento de nosso primeiro dia de viagem , gravamos boas entrevistas , mas acabrunhados com o conteúdo das conversas que tivemos . Incomodados com tudo o que ouvimos , saímos de lá e seguimos para o barco, parado na Base Naval , da Marinha do Brasil , em Belém .

    22- 03- 05- Terça feira.

    Logo cedo fomos com o veleiro até o Porto do Pará , e o mercado Ver- o- Peso , para gravações . O dia ainda não tinha clareado quando partimos . Quando estávamos em frente ao mercado , com toda a algazarra dos barcos de pesca que iam chegando , assisti uma cena de arrepiar. Tripulantes de um pesqueiro , adolescentes , vendo que estávamos filmando , resolveram chamar nossa atenção praticando uma espécie de roleta russa náutica . Dois deles , com o barco em movimento , não acharam nada melhor para fazer , que descer pela proa do barco para dentro d’água , e ali ficarem ” brincando ” , com apenas uma mão agarrada ao costado , enquanto o barco continuava andando . Não acreditei quando vi , dava frio na barriga . Qualquer bobeada e eles seriam esquartejados pela hélice do barco , já que o timoneiro nem conseguia vê-los.

    Antes de seguir para a Ilha de Marajó , nosso objetivo nesta etapa , queríamos ainda ter mais informações da comunidade científica a respeito da região que visitávamos , e por isto marcamos várias entrevistas com os pesquisadores do Museu Emílio Goeld i , uma das glórias, não só daqui , a região Norte , mas de todo o Brasil . O Museu é a quarta instituição científica fundada no Brasil , a data precisa é 1866 , e é notório por suas pesquisas sobre a diversidade biológica e social da Amazônia , além de atuar em projetos de educação ambiental e patrimonial da região . Antes de sua fundação o Brasil tinha apenas o Museu Nacional , o Observatório Naciona l , e a Biblioteca Nacional , todos no Rio de Janeiro.

    O Emílio Goeldi conta com cerca de 300 funcionários, e 80 pesquisadores , e sua sede principal fica no centro da cidade , em meio a um estupendo parque , com cinco hectares , cercado por árvores centenárias , e contendo um pouco de toda a diversidade animal e vegetal da Amazônia : cerca de 600 animais , e duas mil plantas . Lagos com peixes- bo i , guarás, e garças soltas pelo bosque , jaulas com onças pintadas , orquídeas nativas em troncos de árvores com mais de 50 metros de altura , aquários com as espécies mais raras e exóticas da região , uma espécie de Jardim do Éden , são o pano de fundo que circunda os prédios onde trabalham os funcionários.

    Fomos recebidos por Joice Santos , da assessoria de comunicação , que nos explicou algumas das ações do Museu , sem esconder a imensa satisfação e orgulho por fazer parte da instituição exemplar .

    Foi muito bonito perceber o modo feliz , com o ” peito inchado “, com que ela ia nos contando sua história e as várias vertentes atuais .

    O cientista Suíço , Emílio Goeldi , foi convidado a vir para cá pelo Governador Lauro Sodré , em 1894 , e, um ano depois , a sede que agora visitamos foi inaugurada .

    Hoje o Museu tem diversas atividades , que vão da pesquisa ao incentivo aos estudantes , através , por exemplo , de um Prêmio voltado ao ensino médio e fundamental para jovens naturalistas .

    Pergunto a respeito do envolvimento do cidadão comum , e da sociedade local , com o Museu . Ela se mostra exultante , e conta que em Belém há quinze Museus , ” mas se você entrar num táxi e disser vamos ao Museu , ele toca direto para cá ” .

    Em seguida falou dos projetos atuais, mais importantes , como o ” Rede Genoma ” , de modelagem ambiental , juntando dados da sócio- economia com dados ambientais , sensoriamento remoto e modelagem matemática , coordenado pelo diretor Peter Mann de Toledo , com o foco de estabelecer a tecnologia para fazer o sensoriamento ambiental amazônico. Foi através deste trabalho , nos diz Joice , que pela primeira vez se percebeu a articulação entre as atividades ilícitas com a linha de desmatamento , especialmente em Marabá, e São Feliz do Xingu .

    Outro funcionário com quem conversamos , Antonio Messias , mostrava o mesmo orgulho e satisfação ao dar suas explicações , e diz ” ser um privilégio trabalhar aqui” . Ele está envolvido em criar viveiros que mostrem a interação do homem com a natureza , e os problemas que isto acarreta . E nos diz : ” imagine que bacana se pudermos colocar próximo ao tanque do peixe- boi, que se alimenta de certos tipos de gramíneas , uma roça como a que os caboclos fazem nas margens dos rios . Eles não se dão conta , mas estas roças avançam e acabam com a gramínea. Por isto o peixe- boi vai embora , uma vez que não tem mais o que comer . ” Com estes viveiros nosso parque pretende mostrar toda a cadeia , com o elemento humano inserido no contexto “.

    Messias adora mostrar exemplos . Ele aponta para uma gigantesca Sumaumeira, no meio do parque, uma das maiores árvores da floresta , e diz : ” você deveria vir aqui na época da floração daquela árvore , João , quando os periquitos vêm comer suas flores e bagas . Em seguida eles cospem os caroços no chão , que são imediatamente comidos pelas cotias que passeiam livremente pelo jardim ” .

    Continuando nossas entrevistas fomos conversar com o pesquisador Amílcar Mendes , que estuda a ocupação da costa . Ele está envolvido no projeto Piatam , que conta com auxílio das Universidades Federais do Pará, e do Maranhão , e do Instituto de Pesquisas do Amapá . Amílcar nos fala dos problemas de poluição da baía do Guajará , que fica defronte a cidade de Belém. Como é comum no país , os esgotos da cidade não são tratados , e vão direto para o rio . Ele também comenta sobre o imenso potencial de problemas com derramamento de petróleo , não por extração , que não acontece aqui , mas pelo transporte . Há inúmeros portos, próximos a Belém , e barcaças cruzam suas águas de um lado para outro transportando óleo. Basta um acidente na época das cheias para que os reservatórios de água da cidade sejam contaminados. Há, ainda, o problema de contaminação por água de lastro dos navios , e não são poucos os que utilizam todos os portos daqui . Como se vê o equilíbrio é muito precário…

    Para encerrar nosso dia fomos ainda conversar com mais uma pesquisadora do Emílio Goeldi, Denise Schaan , geóloga , conhecedora da cultura marajoara.

    Ela contou que o apogeu desta cultura aconteceu entre 500 d C e 1300 d C , tendo sido a primeira sociedade complexa da Amazônia brasileira , e começou em Marajó , depois se espalhou pela várzea do Amazonas . O vetor da economia , que possibilitou seu surgimento , foi a exploração de peixes . Ela nos disse que , no lado Leste da ilha , mais seco , os peixes na época da piracema subiam os rios e entravam nas lagoas que haviam sido escavadas , dando origem aos aterros onde moravam aqueles povos . Eles, então, manejavam os cardumes que ficavam presos na época das secas. A fartura de alimentos possibilitou o crescimento da população que chegou a ter cidades com cinco, até dez mil indivíduos. Sua principal herança foi a famosa cerâmica marajoara , feita de argila , muito abundante na área . Estudando seus desenhos a pesquisadora pode decifrar que a maioria conta histórias mitológicas. Em sua opinião a derrocada deste povo aconteceu muito provavelmente por mudanças climáticas.

    Depois das aulas recebidas no Emílio Goeldi , estávamos prontos para tocar para Marajó . Antes, ainda, resolvi alugar um avião para poder sobrevoar a foz do rio Pará, mostrando Marajó-uma ilha formada por sedimentos- bem no meio do Delta do Amazonas, de quebra ainda poderia fotografar o Mar Sem Fim com todas a velas em cima .

    De avião iríamos eu e o cinegrafista Rodrigo Cortegiano , enquanto o resto da tripulação , formada pelo Alonso , Paulina , e o convidado desta etapa , o velejador Fernando Cerdeira , iriam de barco.

    23- 03- 05- Quarta feira.

    Às cinco da manhã o veleiro partiu . Havíamos marcado um ponto no mapa para o encontro, que deveria acontecer às dez horas. Assim, às 8h30 decolamos de Belém, em direção a Soure, uma das principais cidades de Marajó . No aeroporto da ilha, tiramos a porta do avião, para poder filmar livremente, e decolamos novamente. Pouco tempo depois estávamos sobrevoando o Mar Sem Fim. Gravamos e fotografamos a vontade. Foi maravilhoso ver também as lagoas de Marajó, de que nos havia falado a pesquisadora Denise. Só mesmo de avião para ver em detalhes como são formadas, ao longo do curso dos rios. Este programa da série de TV vai ganhar muito em qualidade graças ao vôo que fizemos.

    Assim que pousamos não perdemos tempo: eu e o Rodrigo fomos visitar o curtume local, que aproveita o couro dos búfalos para fazer de sapatos a bolsas. Como se sabe, Marajó tem o maior rebanho bubalino do Brasil . Foi bem interessante, e ainda descobrimos um estaleiro, atrás do curtume, na beira do rio, em plena atividade. O mestre carpinteiro trabalhava num bote infestado pelo caruncho. De enxó em punho ele descascava o fundo da embarcação para trocar por taboas novas.

    No pequeno galpão de madeira, ao lado, cheio de ferramentas rudimentares, ficava toda a linha de produção : além do carpinteiro , o calafate , e o pintor . Fizemos uma boa entrevista com ele.

    Quando estávamos indo embora, olhei para a foz do rio, e lá adiante pude ver o vulto do Mar Sem Fim entrando pela barra do Paracauari . Considerando que são 45 milhas, de Belém até Soure, na ponta Leste da ilha de Marajó , até que não demorou muito esta travessia .

    Mais alguns minutos e estávamos todos juntos, a bordo, novamente. Então eles nos contaram que vieram rápido por que tiveram ajuda da correnteza do rio Pará , durante a vazante , quando chegaram a navegar numa velocidade de até nove milhas por hora .

    Nosso barco fundeou bem próximo ao trapiche de Soure , tendo do outro lado do rio , a vila de Salvaterra .

    Soure é interessante, tem prédios art- déco, apesar de um tanto mal tratados . Assim como Belém, a área urbana é sombreada pela copa de centenárias mangueiras. Para todo o lado que se olha pode-se ver a copa imensa destas árvores. Ainda bem, porque o calor é de arrasar , mesmo agora , no ” inverno ” da região Norte , quando chove todo dia . A população é de 20 mil habitantes, mas a infraestrutura pede socorro. Para cada metro de rua asfaltada, há dezenas de buracos. Os táxis andam em ziguezague numa velocidade não superior a 8 , 10 km por hora , sob pena de desmancharem seus veículos se ousarem acelerar mais . A grita contra o poder público é geral . Andei xeretando , perguntando para motoristas e pessoas comuns , e eles me contaram que os dois últimos prefeitos foram cassados por corrupção . O atual, que já se elegeu no passado, também já respondeu na Justiça por crime de corrupção. Acontece que a Justiça teria sido muito lenta , sempre de acordo com estas pessoas com quem bati papo , e as ações acabaram prescrevendo . Assim, mais uma vez, a mesma criatura acabou no Executivo. Como pôde ganhar a eleição se pesa sobre ele acusações de corrupção? Perguntei. Então veio a tona uma das mazelas nacionais , nem a única , nem a mais importante , mas uma dentre tantas : parte significativa da imprensa em poder dos políticos . No caso do meio Rádio, descobri quando lancei a campanha pelo fim da obrigatoriedade da Voz do Brasi l, das três mil emissoras então instaladas, 40% está nas mãos de políticos . No caso das TVs a porcentagem é parecida ou maior. Marajó , não é , portanto , uma exceção . ” Aqui em Soure há três emissoras de rádio. A AM pertence ao Presidente da Assembléia , senhor Mário Couto , do grupo do prefeito eleito . A Sol FM é de Jader Barbalho , (aquele mesmo que foi preso e , algemado, andou passeando no chiqueirinho da polícia , lembram ? ) do PMDB , mesmo partido do prefeito , e também de seu grupo político , sobra apenas a Tropical FM . E as duas primeiras se engajaram na campanha. ” Mas tem mais, me contam : ” O atual prefeito, Carlos Augusto Nunes Gouveia, mais conhecido como Tonga , está tendo o resultado das últimas eleições contestado , entre outras , por que as urnas teriam ficado guardadas na casa do irmão dele , antes da eleição ” . Minhas fontes sugerem que teria havido manipulação. Difícil acreditar, mas passo adiante a história, tal qual me foi contada.

    Ah , bom , agora entendi…

    É incrível que depois da mixórdia que foi o período Collor, ainda existam episódios que lembrem aquela era de lama, nefasta, que envergonha todo brasileiro de bem.

    Outro problema que pudemos constatar é a falta de hotéis de bom nível . Em Soure vimos apenas dois, bem fraquinhos, e muito pequenos. O melhorzinho da região fica do outro lado do rio, em Salvaterra. E uma vez ali o turista que se vire. Não há nenhuma programação prevista. Nem aluguel de barcos, trilhas ecológicas, passeios, pesca esportiva, seja o que for. O cara que fique lá, deitado na areia, de papo pro ar.

    É uma pena este descaso, tanto do empresariado, como do Estado. Para se ter uma idéia, no ano de 2004, o turismo ecológico movimentou no mundo 260 bilhões de dólares. Enquanto isto, na Amazônia, que tem tudo a ver com ecoturismo, uma imensa região que engloba nove Estados brasileiros, e 61% de nosso território, existem apenas 17 hotéis dedicados ao ecoturismo, de acordo com dados antigos ( década de 90 ) da Embratur . Os dados atuais, de 2003, nem mencionam a região. Em todo o caso aqui vão eles : entraram no Brasil, em 2003, quatro milhões de turistas. Os principais portões de entrada foram : São Paulo com 48,7% , Rio de Janeiro com 15,4% , Rio Grande do Sul com 15,8% , Paraná com 10,5% , e Santa Catarina com 1,8% . Depois destes Estados surge na pesquisa a palavra ” outros ” , seguida da cifra 9,8% . Pode ?

    Ainda na pesquisa da Embratur, fuçando mais, descobri que no Pará entraram em 2003, 14.330 mil turistas, por via aérea, e 2.198 por via fluvial. E só. Nada mais.

    Dá pena ver tanto potencial desperdiçado.

    24- 03- 05- Quinta feira.

    Mais uma vez levantamos cedo para descer em terra e conversar com as pessoas que fazem a diferença. Aqui, em Soure, descobrimos pelo menos duas delas que nos foram recomendadas pelos pesquisadores com quem falamos em Belém. Uma é o Vazinho, personagem inteligente e curiosa, que preside uma reserva extrativista marinha que está dando certo . São cerca de 1.300 famílias que vivem em função da reserva. Nela, além da pesca artesanal , da caça ao caranguejo , ( eles respeitam o defeso em ambos os casos ) , existe a extração de plantas para fins medicinais , além beneficiamento do açaí . Vazinho, no entanto, vive tendo problemas com os fazendeiros locais, porque a reserva, apesar de oficializada pelo Ibama , ainda não teve sua área delimitada. Então é aquele pega pra capar, com cada parte dizendo que a área lhe pertence. A coisa foi tão longe que até cercas elétricas foram colocadas em partes do mangue, para evitar que os extrativistas entrem na área. Outro problema que ele enfrenta, e descreve com precisão, é a pesca profissional de arrasto, feita por barcos que vêm de Belém . Vazinho sabe exatamente qual o malefício causado pela pesca de arrasto. Ele fala da quantidade de peixes pequenos que são capturados e atirados ao mar, mortos, além do fato que a pesca profissional nem sempre respeita a época do defeso. Segundo ele, ” o problema é que a pesca profissional paga taxas e impostos ao governo, e a artesanal não ” . Daí a vista grossa das autoridades para o caso. Batemos um longo papo, e marcamos para depois de amanhã uma visita à reserva, já que amanhã é sexta feira da Paixão.

    Em seguida fomos conhecer Zeneida Lima, figura fantástica, que se auto intitula ” pajé- cabocla”. Dona Zeneida , aos 70 anos de idade , mostra disposição e vigor físico digno de uma adolescente . Filha de fazendeiros de Marajó , ela conta um ” causo ” fabuloso que lhe aconteceu ainda menina , quando, enlouquecida, e sem motivo aparente, fugiu para o mato e por lá ficou, perdida durante dias seguidos . Quando sua família a encontrou ela já havia sido, não lembro qual termo usou, mas era algo que remetia a ” eleita ” , ou ” escolhida “, pelos índios Caruanas, e com eles aprendeu a arte da ” Encantaria “. Pajelança, explica dona Zeneida, é um culto à encantaria que herdamos dos índios , no caso dela , a tribo dos Caruanas. E além de oferecer cura às pessoas, dona Zeneida desenvolve uma obra social , em Soure , digna dos maiores beneméritos. Mística, profunda conhecedora das lendas da região, dos costumes dos índios, de cantigas tradicionais, é ainda compositora, e escritora de vários livros, alguns, como ” O mundo místico dos Caruanas da Ilha de Marajó” já em sua sexta edição.

    Mas o que mais me impressionou foi a escola que ela construiu para crianças carentes. Aquelas que são recusadas pelo sistema oficial de ensino da Ilha, encontram em sua escola um refúgio seguro. É impressionante, veja as fotos, e repare na arquitetura redonda, com várias casas, cada uma delas sendo uma sala de aula, toda equipada. Lá as crianças não só estudam, mas tomam café e almoçam , aprendem conceitos de preservação ambiental, e talvez uma primeira profissão, já que aquelas que demonstram aptidão têm aulas de cerâmica, aprendem a fazer doces com as frutas típicas , etc.

    Fiquei com o queixo caído por encontrar aqui, nestas paragens, com toda a dificuldade imposta pela distância e pobreza, alguém com tamanho senso de solidariedade e cidadania. Parabéns dona Zeneida.

    Depois da excursão para a escola, das andanças todas que fizemos debaixo de muito sol e calor, comecei a me sentir mal . Alguns sintomas apontavam para insolação. Felizmente já era hora de voltar para o barco. Estávamos todos exaustos.

    25- 03- 05- Sexta feira Santa.

    A noite passada foi um terror. Vomitei, tive desarranjo intestinal, febre e sudorese. Acho que tive mesmo um pouco de insolação. Não dormi a noite toda, por isto , quando meus companheiros saíram para as gravações do dia , fiquei aqui no barco, estirado no cockpit, debaixo de um belo toldo, descansando. Meu corpo pedia repouso, e resolvi obedecer rigorosamente os sinais que recebera. A única novidade de hoje foi a chegada de um veleiro, de uns 37 pés, com bandeira da Turquia, que chegou de tarde trazendo um casal a bordo. Estes sim, estão muito longe de casa.

    26- 03- 05- Sábado.

    Estava já completamente refeito. Pela manhã fomos assistir uma apresentação de Carimbó, dança e música típicas, feita pela turma da reserva extrativista presidida pelo Vazinho. Foi emocionante. Uma música alegre, contagiante, com pulsação forte, acompanhada pela dança correspondente, cheia de coreografias alegres, no caso da que assistimos, praticada pelas filhas das pessoas que vivem da reserva. E tudo embalado por uma banda com atabaques , flauta , chocalhos e cavaquinho . Terminada a apresentação, embarcamos no veleiro, levantamos a âncora, e saímos pela barra do rio Paracauari, deixando Soure e Salvaterra para trás.

    Queríamos chegar na pequena vila de Cachoeira, que fica às margens do rio Arari, cerca de 20 milhas abaixo, na direção de Belém, ainda na ilha de Marajó . Levantamos a genoa ( vela da proa), e a mezena ( pequena vela de ré ), e seguimos rapidamente ajudados pela correnteza do rio Pará . Pelo caminho cruzamos com várias canoas à vela, típicas, que levavam pescadores artesanais. Uma beleza ver a destreza desta gente, em barquinhos tão simples, mas sempre eficazes. E eles também se encantavam ao ver o Mar Sem Fim. Acenavam para nós e muitas vezes mostravam enormes peixes que haviam acabado de fisgar.

    No final do dia fundeamos na foz do rio. De noite, antes do jantar, tomamos um belo banho nas águas mornas do Arari, debaixo de um céu estrelado, curtindo um silêncio quase absoluto. Este é um dos melhores momentos do dia. Depois de muito trabalho, cansados, e suados pelo calor excessivo, tomar um banho de rio olhando as estrelas. É um privilégio para poucos.

    Em seguida jantar e cama.

    27- 03- 05- Domingo.

    Logo depois do café da manhã, Fernando Cerdeira, tripulante desta etapa, saiu de bote na frente do veleiro, com uma sonda portátil. Ele verificava a profundidade do rio e mostrava o caminho certo para o Mar Sem Fim. Mas não fomos muito longe. Umas seis milhas adiante, e mesmo com a maré cheia, já não havia mais profundidade suficiente para o veleiro passar com sua quilha de 1 metro e 90 cm.

    Fundeamos ali mesmo, tendo uma linda mata nas margens como companhia , enquanto escutávamos ao longe o canto de vários tipos diferentes de pássaros .

    Resolvi subir o rio de bote, junto com o cinegrafista Rodrigo Cortegiano , para saber com os caboclos que moram nas margens qual a distância até Cachoeira. Estávamos com pouca gasolina, e sem dinheiro em papel moeda para comprar alguma extra. Mas se por sorte a cidade estivesse próxima, talvez pudéssemos chegar. Infelizmente não foi o caso. Segundo os moradores ainda demoraríamos uma meia hora de bote, e não havia combustível suficiente… Ainda assim resolvi subir um pouco mais, na expectativa de encontrar bons locais para gravações. Navegamos um pouco mais, até vermos um pequeno braço de rio, e por ele entramos. Uma beleza ! Nas margens uma mata impressionante, intocada, com árvores imensas, umas sobre as outras. Plantas de todos os tipos, várias tonalidades de verde, do mais claro ao mais escuro, e muitos casais de uma ave típica, a Aninga. Fotografamos e gravamos dezenas delas. E não resisti em ir adiante, até quase o bote ficar preso pelas margens estreitas. Então desliguei o motor e ficamos ali uns quinze minutos, curtindo os barulhos da mata. Não trocamos palavra. Apenas ficamos observando as copas das árvores, enquanto ouvíamos o canto dos passarinhos, extasiados pela beleza.

    Por fim começou a chuva, tradicional nesta época do ano, então resolvemos voltar.

    Ao chegar ao barco nova surpresa : um grupo de botos cor-de-rosa se alimentava ao lado do veleiro, e assim permaneceram até que fomos embora algumas horas depois . Também recebemos a visita de um peixe- boi , tão raro hoje em dia . Que espetáculo !

    Restava voltar para Belém, atravessando o rio Pará quase em linha reta. Para esta etapa nossa missão estava cumprida.

    No caminho a nota triste foi um pedido de socorro emitido pela estação Belém-Rádio, que informava às embarcações sobre o afundamento do barco ” Oliveira Lima ” . Respondi na hora ao chamado, pedindo mais informações, mas nem eles sabiam em qual parte da imensa baía estava acontecendo o naufrágio. Em nosso horizonte ele não estava, e assim, depois de ouvir pelo rádio várias embarcações querendo mais informações, seguimos nosso caminho.

    Às seis da tarde atracamos novamente no trapiche da ” Patromotoria ” , na Base Naval de Belém. Graças à Marinha do Brasil, que tem apoiado a expedição do Mar Sem Fim, nosso barco tem atracado nos portos da Marinha. Ao menos enquanto as etapas não acontecem, nosso barquinho fica em lugares absolutamente seguros, ao abrigo dos ” ratos dágua ” .

    A próxima etapa vai ser dureza. Vamos navegar de Belém para São Luis, no Maranhão. Até breve.

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