Você conhece a frota de petroleiros escura?
De acordo com o Lloyd’s Register, em 2022 a frota mundial de petroleiros chegava a 87 mil navios. E a dark fleet, ou frota escura, você conhece?
O site especializado Splash247 investigou o assunto e encontrou 421 navios desse tipo. São petroleiros que cruzam os oceanos tentando escapar de sanções internacionais. Para isso, muitos desligam seus equipamentos de rastreamento.
A frota escura atende principalmente países submetidos a sanções, como Irã, Venezuela e, mais recentemente, Rússia. Muitos desses navios são antigos e mal conservados. Em outras palavras, verdadeiras latas velhas transportando petróleo de um lado para outro e aumentando ainda mais os riscos para os oceanos.
Não à toa, em agosto de 2026 uma destas embarcações explodiu na costa de Omã e passou a derramar petróleo numa área marinha protegida, Al Hallaniyat Islands Nature Reserve.
Mais lidos
Narvais ajudam cientistas a estudar o aquecimento do ÁrticoRota do Ártico ganha serviço regular entre China e EuropaIlha dos Gatos: abandono ameaça fauna e litoral fluminensePetroleiro gigante é detido na China
Outro site especializado, o gcaptain, informou em maio de 2023 que ‘um petroleiro gigante detido na China falhou em sua inspeção de segurança em mais de 20 acusações, destacando os perigos representados por uma frota em rápida expansão de embarcações antigas navegando nos oceanos.’
‘O navio, de nome Titan, trocou de nome sete vezes e tem a administração a cargo uma empresa cujo endereço é uma caixa postal nas Seychelles.’
‘Documentação insuficiente, lapsos de segurança e antecedentes obscuros. Assim são os navios-tanque da frota escura que proliferaram desde a invasão da Ucrânia pela Rússia. As sanções do Grupo dos Sete sobre o petróleo russo, bem como as existentes sobre as cargas iranianas e venezuelanas, criaram um comércio em expansão para esses navios antigos que operam fora da supervisão ocidental.’
As autoridades pararam o Titan — um navio de 20 anos — no porto de Qingdao, no nordeste da China. A medida não ocorreu por causa dos cerca de 2 milhões de barris de petróleo iraniano que transportava, mas pelo risco que a embarcação poderia representar.
Leia também
Navios autônomos: a nova guerra naval já começouCruzeiro Hondius, a nau dos rejeitados está em Tenerife, CanáriasFragata Tamandaré marca a volta da construção naval militarOs riscos da frota de petroleiros para oceanos e portos
Além do combustível podre que utilizam, ainda há a água de lastro, um dos motivos do aumento da bioinvasão; a água cinza, responsável pela poluição; e os acidentes por desleixo da indústria marítima mundial que, para economizar, muitas vezes contrata tripulações irresponsáveis e despreparadas.
Esta é uma das causas de acidentes desastrosos para a vida marinha. Basta lembrar o Exxon Valdez, que poluiu as águas ainda prístinas do Alasca, ou, mais recentemente o caso do graneleiro japonês MV Wakashio, com bandeira do Panamá, que ‘escalou’ corais nas Ilhas Maurício. E sabe por quê? Porque havia uma festinha a bordo e a tripulação queria sinal de celular!
Assim, saíram da rota recomendada, aproximaram-se demais sem perceber, e atingiram os recifes. Em seguida o navio partiu-se provocando imensos prejuízos ambientais.
Navios da frota escura não têm seguro
Como se não bastasse, temos agora um aumento sensível da frota de latas velhas que se arrastam pelos mares, e sem seguro, obviamente. O gcaptain destacou o caso do navio Pablo: ‘A China e outros estados marítimos tiveram um vislumbre desses riscos no início deste mês. Cerca de 10 dias depois de deixar a costa do país, outro navio da frota escura, o Pablo, explodiu na costa da Malásia. Embora a causa do acidente não seja clara, acredita-se que os vapores dos restos da carga de petróleo possam ter contribuído.’
Ainda assim, uma destes navios, o Titan, o tal que mudou de nome sete vezes, foi liberado como informou o gcaptain: ‘Entre as 23 deficiências do Titan estavam o acúmulo de óleo em sua sala de máquinas e problemas de segurança contra incêndio em seu sistema de gás inerte – o mesmo equipamento que ajuda a evitar a explosão de vapores. Após sua detenção em 29 de abril, o navio foi liberado em 2 de maio e visto pela última vez navegando perto de Taiwan.’
É este o tipo de navio usado pela Rússia no nova rota do Ártico, recém-aberta. Imagine o custo ambiental de um desastre numa região já tão castigada pelos efeitos do aquecimento global.
A propósito, a pesca industrial também foi acusada recentemente de ter uma ‘frota escura’ 75% maior do que mostram os registros. Assim, apesar de todas as informações disponíveis, o problema continua. Fiscalizar cerca de 70% da superfície da Terra não é tarefa simples. A imensidão dos oceanos favorece as frotas ilegais e outras que também burlam regras e seguem navegando. pirataria na costa da Somália, outro.
New York Times revela incidentes da frota clandestina
O New York Times também abordou o tema. O jornal revela que em fevereiro um petroleiro transmitiu sinal mostrando que navegava a oeste do Japão.
Contudo, o trajeto era altamente incomum. Ao longo de um dia, seus sinais mostraram um comportamento errático conforme mudava rapidamente de posição.
Uma imagem de satélite aprofundou o mistério, diz o Times. Não havia nenhum navio ali. O Cathay Phoenix estava enviando um sinal falso de localização. Isso é conhecido como “spoofing”.
Na verdade, ele estava 250 milhas ao norte carregando petróleo no porto russo de Kozmino, parte de uma viagem para a China que provavelmente causou uma violação das sanções dos EUA.
O Cathay Phoenix, diz o NYT, não é um navio desonesto solitário, mas um dos pelo menos três petroleiros identificados pelo New York Times tomando medidas extraordinárias para esconder sua verdadeira atividade, uma prática que os ajuda a iludir a supervisão do governo dos EUA e coloca sua seguradora americana em risco, violando as recentes sanções ao petróleo bruto russo.
Como a frota de petroleiros some ao desligar transponders
Durante anos, os navios que desejam ocultar seu paradeiro recorreram ao desligamento dos transponders que todas as grandes embarcações usam para sinalizar sua localização. Mas os petroleiros rastreados pelo Times vão além disso, usando tecnologia de falsificação de ponta para fazer parecer que estão em um local quando na verdade estão em outro lugar.
“O tipo de falsificação que estamos vendo é incomum e sofisticado”, disse David Tannenbaum, ex-responsável pelo cumprimento de sanções do Tesouro dos EUA, referindo-se aos navios-tanque identificados pelo jornal. “Definitivamente parece evasão em todas as partes.”
Antes de mais nada, os petroleiros ainda têm um motivo para falsificar: manter sua cobertura de seguro, sem a qual não podem operar na maioria dos grandes portos. As únicas seguradoras financeiramente capazes de cobrir navios-tanque são baseadas principalmente no Ocidente e sujeitas às sanções.
De acordo com as listagens no site do American Club, as apólices dos seis petroleiros foram renovadas em fevereiro, depois que três deles já haviam começado a falsificar enquanto transportavam petróleo russo.
Definitivamente, o mar não está para peixes, ou está?
A Organização Meteorológica Mundial alerta para o El Niño em 2023