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SOS Mata Atlântica: ONG eficiente ajuda a salvar o bioma

SOS Mata Atlântica: ONG eficiente ajuda a salvar o bioma

A imagem que o grande público tem de ONGs e ambientalistas hoje é altamente polarizada. Oscila entre a admiração e a desconfiança ideológica ou econômica. Para alguns, ONGs e ambientalistas substituem, com legitimidade, um Estado muitas vezes inoperante na fiscalização ambiental. Mas discursos políticos, interesses econômicos e tensões no campo criaram, também, uma imagem de incerteza. Isso se agravou nos últimos anos, com as redes antissociais. De certo modo, ocorre em todas as atividades: há gente boa, e há outra parte nem tanto. Já comentamos aqui a diferença entre “ambientalistas”, com aspas, e ambientalistas sem elas. Hoje, porém, temos prazer em falar de uma das ONGs mais notáveis do Brasil: a SOS Mata Atlântica. Seu Atlas acaba de mostrar a melhor prova da eficiência desse trabalho. O desmatamento da Mata Atlântica chegou muito perto de zero.

O desmatamento caiu, mas ainda resiste em três estados

O dado mais importante acaba de sair do Atlas da Mata Atlântica, feito pela SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE. Em 2025, o bioma registrou o menor desmatamento em 40 anos de monitoramento. Foram 8.658 hectares derrubados, queda de 40% em relação a 2024.

Mas o problema não acabou. Pelo Sistema de Alertas de Desmatamento da Mata Atlântica, os três estados que mais desmataram em 2025 foram Bahia, com 17,6 mil hectares; Minas Gerais, com 10,2 mil hectares; e Piauí, com 4.389 hectares. A agricultura respondeu por 96% da área derrubada.

Ou seja: a vitória merece aplauso. Mas ela ainda exige vigilância. Na Mata Atlântica, cada fragmento perdido faz falta.

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O Atlas que tirou a Mata Atlântica da invisibilidade

O grande mérito da SOS Mata Atlântica foi transformar indignação em método. Desde 1989 a ONG faz com o INPE o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. Ele monitora a vegetação nativa do bioma e revela, ano após ano, onde a floresta resiste, onde desaparece e quais regiões exigem ação urgente. Depois, a SOS encaminha os dados ao poder público, para que tome providências. Como conquistou grande credibilidade —  figura entre as 100 melhores do Brasil —, o Estado fica diante de uma escolha: age, ou se expõe à cobrança pública.

Samambaia-açu.

Foram anos de trabalho. O Atlas acompanhou a evolução tecnológica passando por inúmeros aprimoramentos. Desde 2010, mantém uma base fixa de mapeamento para acompanhar os fragmentos florestais. Hoje, monitora os trechos mais preservados da Mata Atlântica, maiores que 3 hectares, com dossel fechado e sem sinais de degradação.

Em quatro estados, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina, vai além. Identifica fragmentos florestais e desmatamentos maiores que 1 hectare. Não é pouca coisa. A Mata Atlântica foi o primeiro bioma brasileiro monitorado por imagens de satélite desde o lançamento do Atlas dos Remanescentes Florestais.

Este é o exemplo em que muitas ONGs deveriam se mirar. A SOS Mata Atlântica criou método, construiu uma série histórica, aperfeiçoou o monitoramento e entregou resultado. Também mostra aos eternos sabe-tudos das redes antissociais que o Estado pode, e deve, trabalhar em parceria com a sociedade civil. Se a escolha for bem feita, os resultados aparecem. A isto se chama praticar cidadania.

Do Tietê ao Observando os Rios: quando mobilização vira método

O mesmo espírito aparece no Observando os Rios. O programa nasceu da maior mobilização ambiental já realizada em São Paulo: a campanha pela despoluição do rio Tietê, liderada pela Rádio Eldorado. Foram 1,2 milhão de assinaturas, num tempo em que não havia redes sociais.

Daquela mobilização surgiu o Núcleo União Pró-Tietê. E a SOS Mata Atlântica, mais uma vez, fez o que sabe: transformou pressão pública em ação permanente. O Observando os Rios passou a reunir voluntários, monitorar a qualidade da água e manter a sociedade atenta ao estado dos rios.

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Antes do Observando os Rios, a SOS Mata Atlântica criou o Observando o Tietê, fruto da campanha pela despoluição. Malu Ribeiro, atual Diretora de Políticas Públicas da ONG, e sua equipe ganharam reputação com o programa. Depois, passaram a atuar em outras regiões do País.

A campanha pelo Tietê teve repercussão internacional. Lembro-me o dia em que recebi em minha sala um embasbacado repórter da BBC. Ao entrevistar-me, ele mesmo comparou nossa campanha à do Tâmisa. Pouco depois, a ONU publicou um relatório destacando os avanços na despoluição.

Arquivo do Estadão e a cronologia do sonho de dona Angelina Basílio, presidente da escola de samba Rosas de Ouro, que deu certo.

A dimensão da campanha aparece também nos números demonstrando a eficiência extraordinária da SOS. Mais de US$ 4 bilhões foram investidos na maior obra de saneamento já feita no Brasil, com mais de 20 milhões de pessoas beneficiadas. Para Malu Ribeiro, a campanha do Tietê foi “a melhor campanha ambiental que o Brasil já teve” e também precursora da Política Nacional de Recursos Hídricos.

Exemplo de eficiência da SOS Mata Atlântica

Este, portanto, é outro exemplo de eficiência da ONG. A campanha poderia ter terminado com a entrega das assinaturas. Mas não, tornou-se  método, acompanhamento e cobrança. A SOS entendeu que cidadania ambiental não vive apenas de protesto. Vive de continuidade.

Agora, o Atlas mostra o melhor resultado em décadas: a Mata Atlântica chegou perto do desmatamento zero. A vitória não pertence apenas à ONG. Pertence também à sociedade que cobrou, aos técnicos que mediram, à imprensa que divulgou e ao poder público que, pressionado, teve de agir. Mas a SOS Mata Atlântica merece o aplauso principal. Sem método, persistência e credibilidade, essa história dificilmente teria chegado até aqui.

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