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Poluição farmacêutica de rios ameaça a saúde humana

Poluição farmacêutica de rios ameaça a saúde humana

Pesquisadores da Universidade de York publicaram o estudo sobre a poluição farmacêutica de rios, a mais abrangente até o momento, na revista  Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Na apresentação do trabalho, os cientistas disseram que ‘apesar das crescentes evidências dos efeitos deletérios sobre a saúde humana e ecológica, pouco se sabe sobre a ocorrência global de fármacos em rios… Aqui, apresentamos os resultados de um reconhecimento global da poluição farmacêutica em rios. O estudo monitorou 1.052 locais de amostragem ao longo de 258 rios em 104 países de todos os continentes, representando assim a impressão digital farmacêutica de 471,4 milhões de pessoas. Mostramos que a presença desses contaminantes em águas superficiais representa uma ameaça à saúde ambiental e/ou humana em mais de um quarto dos locais estudados globalmente’.

rio Araranguá
Poluídos e maltratado mundo afora. Imagem, acervo MSF.

Poluição via fármacos

Para os leitores deste site o tema não é novidade. Ainda em 2019 publicamos o post Antibióticos em rios e no mar, de onde vêm?, quando repercutimos outro estudo que analisou 72 rios importantes do planeta. A ponta do Iceberg já aparecia. Neste post relembramos mais uma vez a superpopulação mundial e seus problemas entre os quais, a poluição pelos fármacos.

Chamamos a atenção para o fato de que  o planeta não está preparado para tanta gente. É preciso mais discussão sobre temas tabus como o controle de natalidade.

Também comentamos que esta poluição chegou até mesmo na Antártica. Comentávamos no post as descobertas do professor Adauto Bianchini, Ciências biológicas, da FURG, que  estudava os elefantes marinhos da Antártica, atrás de soluções para o obesidade humana.

Ao analisar o sangue dos animais, Bianchini descobriu compostos sintéticos, remédios que são usados mundo afora, descartados pelo ser humano, e que chegaram até o Continente Branco interferindo na fauna local!

No mesmo post, comentamos que em um bate-papo com Frederico Brandini, oceanógrafo, ex-diretor do Instituto Oceanográfico da USP, ele falou da quantidade absurda de restos de remédios, como o Prozac, e outros, descartados pela urina humana nas praias brasileiras.

O rio Jequitinhonha, assoreado como a maioria dos rios que deságuam no mar do Brasil. Imagem, acervo MSF.

Um ano antes deste post, em 2018 o Mar Sem Fim publicou outro, alarmante: Cocaína nos mares de Santos. Poluição afeta vida marinha. neste post comentamos  um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Santa Cecília (Unisanta) que apontou altas concentrações de produtos farmacêuticos e de cocaína na Baía de Santos, no litoral de São Paulo.

O relatório dos pesquisadores da Universidade de York

O relatório teve grande repercussão mundo afora. A BBC destacou que ‘Paracetamol, nicotina, cafeína e medicamentos para epilepsia e diabetes foram amplamente detectados em um estudo da Universidade de York’.

‘Os rios do Paquistão, Bolívia e Etiópia estavam entre os mais poluídos. Já os da Islândia, Noruega e da floresta amazônica se saíram melhor’.

Contraceptivos humanos dissolvidos

Segundo a BBC, ‘já está bem estabelecido que os contraceptivos humanos dissolvidos podem afetar o desenvolvimento e a reprodução dos peixes, e os cientistas temem que o aumento da presença de antibióticos nos rios possa limitar sua eficácia como medicamentos’.

O estudo coletou amostras de água de mais de 1.000 locais de teste em mais de 104 países. No geral, mais de um quarto dos 258 rios amostrados tinham o que é conhecido como “ingredientes farmacêuticos ativos” presentes em um nível considerado inseguro para organismos aquáticos.

O jornal inglês Guardian explica como ingredientes farmacêuticos ativos foram parar em rios: ‘os fármacos acabam nos rios depois de serem levados por pessoas e gado e depois excretados no sistema de esgoto ou diretamente no meio ambiente, embora alguns também possam vazar de fábricas farmacêuticas’.

A BBC News ouviu John Wilkinson, líder  da pesquisa, que explicou: “Normalmente, o que acontece é que pegamos esses produtos químicos, eles têm alguns efeitos desejados em nós e depois deixam nossos corpos. O que sabemos agora é que mesmo as estações de tratamento de águas residuais mais modernas e eficientes não são completamente capazes de degradar esses compostos antes que eles acabem em rios ou lagos”.

Sem poluição só a Islândia e um rio da Venezuela

Já o Guardian informou que ‘os cientistas mediram a concentração de 61 ingredientes farmacêuticos ativos em mais de 1.000 locais ao longo de 258 rios e em 104 países, cobrindo todos os continentes. Apenas dois lugares não estavam poluídos – Islândia e uma aldeia venezuelana onde os indígenas não usam remédios modernos’.

Imagem acervo MSF.

Como se vê, este é mais um problema para os rios brasileiros, poluídos e maltratados há séculos, especialmente pela falta de saneamento básico da maior parte da população. Como mantê-los limpos e saudáveis sem este serviço básico?

Poluição farmacêutica de rios e os remédios para tratar a epilepsia e diabetes

Os pesquisadores detectaram principalmente dois medicamentos: carbamazepina e metformina. A carbamazepina trata epilepsia e dores nos nervos. Já a metformina trata diabetes tipo 2. Além disso, encontraram altas concentrações de cafeína, nicotina e do analgésico paracetamol.

Na África, os pesquisadores também encontraram altas concentrações de artemisinina, um medicamento contra a malária. O relatório alerta ainda que a crescente presença de antibióticos nos rios pode favorecer bactérias resistentes. Isso reduz a eficácia dos medicamentos e ameaça o meio ambiente e a saúde em todo o mundo.

Os locais mais poluídos se concentravam em países de baixa e média renda. Nessas áreas, o despejo de esgoto, o tratamento precário de águas residuais e a fabricação de medicamentos contribuíam para a contaminação.

O professor Mohamed Abdallah, da Universidade de Birmingham, também comentou o problema. Segundo ele, pesquisadores encontraram concentrações muito altas de medicamentos em rios da Nigéria e da África do Sul. A principal causa, explicou, é a falta de infraestrutura para tratar as águas residuais.

Cinco milhões de mortes em 2019 por infecções bacterianas resistentes a antibióticos

O Guardian cita uma pesquisa que estimou quase 5 milhões de mortes associadas a infecções bacterianas resistentes a antibióticos em 2019. As regiões com maior impacto coincidem com aquelas onde os pesquisadores encontraram a pior contaminação por medicamentos. Essa relação sugere que a poluição dos rios pode contribuir para o aumento da resistência.

Em Bangladesh, por exemplo, um ponto apresentou níveis do antibiótico metronidazol mais de 300 vezes acima do limite seguro. Vazamentos na fabricação de medicamentos podem explicar essa concentração.

John Wilkinson, da Universidade de York, também alertou para o problema ao Guardian. Segundo ele, a Organização Mundial da Saúde, a ONU e outras entidades consideram a resistência antimicrobiana uma das maiores ameaças à humanidade. “É uma próxima pandemia”, afirmou.

Além disso, Wilkinson destacou que 19% dos locais monitorados apresentaram concentrações de antibióticos acima dos níveis que podem estimular bactérias a desenvolver resistência.

Para os pesquisadores não há muito o que fazer agora, se não ‘dificultar a obtenção de medicamentos como antibióticos e restrições mais rígidas nas doses’.
Imagem de abertura: Acervo MSF.
Fontes: https://www.bbc.com/news/science-environment-60380298; https://www.theguardian.com/environment/2022/feb/14/drugs-have-dangerously-polluted-the-worlds-rivers-scientists-warn.

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