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Observação de baleias: o desafio de organizar o turismo

Observação de baleias: o desafio de organizar o turismo

A observação de baleias cresce no Brasil graças a uma das maiores vitórias da conservação marinha das últimas décadas: a recuperação de populações que chegaram muito perto do colapso depois de séculos de caça. O renascimento das baleias no mundo é uma prova cabal dos resultados da conservação que nos enche de esperança.

Observação de baleias
Imagem, Projeto Baleia Jubarte.

Entre as espécies que mais visitam nossa costa, duas simbolizam essa virada. A baleia-jubarte e a baleia-franca-austral quase desapareceram dos oceanos e hoje voltam em números que pareciam improváveis poucas décadas atrás.

Esse retorno mudou também a relação das pessoas com os cetáceos. Onde antes havia caça, hoje há turismo, pesquisa, educação ambiental e uma economia baseada na presença do animal vivo. No litoral brasileiro, a volta das jubartes e das francas criou novos destinos de observação e ampliou enormemente o contato do público com esses gigantes do mar.

É uma transformação que merece ser celebrada. Mas o sucesso trouxe um desafio. À medida que cresce o número de baleias, cresce o número de barcos interessados em chegar perto delas.  Vídeos que circulam nas redes sociais mostram encontros nem sempre, digamos, civilizados entre embarcações de turismo e cetáceos.

Estariam estes excessos provocando consequências nefastas para as baleias? Decidimos investigar.

Jubartes e francas: da quase extinção à recuperação

Durante séculos, a caça comercial perseguiu baleias em praticamente todos os oceanos. No Atlântico Sul, jubartes e francas sofreram perdas brutais. A situação só começou a mudar de forma consistente com a proibição da caça no Brasil, em 1987, consequência direta da moratória internacional da caça comercial adotada pela Comissão Baleeira Internacional, que entrou em vigor pouco antes na temporada 1985/1986. Hoje, Japão, Noruega e Islândia ainda praticam caça comercial de baleias. Nas Ilhas Faroe, território autônomo dinamarquês, persiste também a tradicional caça de baleias-piloto.”

A recuperação das jubartes impressiona. Segundo o Projeto Baleia Jubarte, a população brasileira passou de cerca de mil animais em 1988 para mais de 30 mil atualmente. Abrolhos continua como principal área de reprodução, mas elas voltaram a ocupar grande parte da costa brasileira.

A ilustração do Projeto Baleia Jubarte mostra a rota de migração das baleias.

As francas também retornaram ao litoral Sul, sobretudo a Santa Catarina, onde mães procuram águas rasas e protegidas para parir e amamentar. A recuperação das duas espécies transformou animais antes perseguidos pela caça em protagonistas de uma atividade turística crescente.

O fenômeno não se limita ao Brasil. Na Espanha, baleias-azuis voltaram a aparecer na costa da Galícia depois de décadas de ausência, outro sinal de como populações duramente atingidas pela caça começam a recuperar antigas áreas de ocorrência.

O sucesso das baleias atraiu barcos demais

Ilhabela tornou-se um dos principais polos do turismo de observação de baleias no litoral brasileiro. Em apenas um ano, o número de empresas credenciadas para a atividade saltou de 29, em 2025, para 48, em 2026. O crescimento chama atenção numa região que já convive, em terra e no mar, com forte pressão turística durante boa parte do ano.

A imagem que provocou polêmica. Vídeo do VIVA Instituto Verde Azul.

Os excessos existem e aparecem com frequência nas redes sociais. Segundo matéria da Nova Imprensa, em junho de 2026 uma jubarte juvenil foi cercada, no sul da ilha, por mais de 40 embarcações ao longo do dia. As imagens mostram barcos se aproximando repetidamente do animal e uma moto aquática passando muito perto da baleia.

Imagem publicada pela Nova Imprensa com a legenda, “Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma baleia jubarte cercada por embarcações e motos aquáticas, situação que culminou em um quase atropelamento do animal durante um salto”.

Cautela antes de condenar turismo de observação de baleias

Mas Julio Cardoso, criador do Projeto Baleia à Vista em Ilhabela, com quem falamos, pede cautela antes de transformar esses episódios em condenação ao turismo de observação. Segundo ele, as operadoras trabalham há anos com orientação sobre as regras e, na maior parte das situações, cumprem as normas. Os casos mais problemáticos costumam envolver embarcações particulares e jet skis, especialmente quando uma baleia aparece perto da costa e desperta uma corrida para vê-la de perto.

Material do Projeto Baleia À Vista orientando embarcações envolvidas na avistagem de baleias.

Cardoso lembra ainda que as jubartes continuam voltando em número crescente e algumas permanecem meses na região para se alimentar. Para ele, isso não combina com a ideia de que o turismo esteja afastando os animais. “A atividade veio para ficar”, resume. O desafio, portanto, é conter os excessos com educação e, sobretudo, fiscalização.

Neste folder os barcos são orientados a não encurralarem os cetáceos próximos à costa para evitar encalhes.

E há sinais de que os órgãos públicos perceberam essa necessidade. Dias depois do episódio registrado em junho, Polícia Ambiental, Marinha, ICMBio e pesquisadores fizeram uma operação conjunta e orientaram cerca de 50 embarcações na região. É justamente esse tipo de presença na água que, segundo Cardoso, precisa continuar e aumentar durante a temporada das baleias.

Julio Cardoso lembra que o retorno das jubartes ao litoral norte é recente e extraordinário: entre 2004 e 2016 ele não registrou nenhuma durante seus monitoramentos; hoje são centenas, e algumas permanecem meses na região. Para ele, o turismo veio para ficar e deve ser ordenado, não combatido. Os excessos pedem educação e fiscalização, sobretudo sobre barcos particulares e jet skis, enquanto as ameaças mais graves aos cetáceos continuam ligadas à pesca e às colisões com embarcações.

O que diz o Projeto Baleia Jubarte

Sergio Cipolotti, biólogo que há duas décadas coordena o programa de fomento ao turismo embarcado do Instituto Baleia Jubarte, declarou ao Mar Sem Fim, entre outras coisas, que a observação de baleias começou a ganhar força no Brasil no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Naquele momento, as jubartes já se recuperavam e começavam a ocupar novamente trechos da costa além de Abrolhos.

Segundo Cipolotti, a Praia do Forte, na Bahia, foi o primeiro lugar onde a observação de baleias se estruturou no Brasil. Ele participou do processo desde o início, instruindo e capacitando profissionais marítimos, orientando operadoras sobre as regras de aproximação e ajudando a organizar a atividade. Além disso, pesquisadores passaram a embarcar para fazer monitoramento científico e informar os turistas. Com a recuperação das jubartes e sua expansão pela costa, esse modelo chegou a outras regiões do país.

Em Ilhabela, porém, existe uma particularidade. A região já concentra cerca de 17 mil embarcações. Por isso, quando uma baleia entra no Canal de São Sebastião, muitos proprietários de barcos particulares e usuários de jet skis se aproximam por curiosidade. Para Cipolotti, cenas como a das dezenas de embarcações em torno de uma jubarte refletem muitas vezes essa “observação oportunística”, e não necessariamente a prática das operadoras de observação de baleias.

Além disso, Cipolotti destaca o valor da ciência cidadã na observação de baleias. Como a parte inferior da cauda funciona como uma espécie de impressão digital, as fotografias feitas por turistas ajudam na identificação individual dos animais. Muitas dessas imagens chegam aos pesquisadores, que cruzam os registros com bancos de dados nacionais e internacionais. Assim, além de aproximar o público das baleias, o turismo também pode ampliar enormemente a capacidade de monitoramento científico.

As principais ameaças às baleias continuam no mar

A observação de baleias precisa de regras e fiscalização, mas não convém perder de vista as ameaças que efetivamente matam esses animais durante a migração. Enredamento em artes de pesca, colisões com embarcações e ingestão de plástico estão entre algumas das causas. Em 2021, por exemplo, 87 jubartes já haviam morrido em encalhes até julho, como registrou o Mar Sem Fim.

Segundo Sergio Cipolotti, cerca de 40 baleias morreram até agora na temporada de 2026. Muitas são juvenis, embora as mortes não se restrinjam a essa faixa etária. Por isso, enquanto o turismo de observação exige ordenamento, fiscalização e educação, é importante não inverter as prioridades. Por isso, reduzir os impactos da pesca, diminuir as colisões com embarcações e combater a poluição continua sendo fundamental para proteger as baleias que voltaram à costa brasileira. sendo fundamental para proteger as baleias que voltaram a frequentar a costa brasileira.

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