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Narvais ajudam cientistas a estudar o aquecimento do Ártico

Narvais ajudam cientistas a estudar o aquecimento do Ártico

Narvais (Monodon monoceros) ajudam cientistas a estudar o aquecimento do Ártico e seus possíveis efeitos sobre o nível do mar. Mais uma vez, pesquisadores recorrem a animais para ajudá-los em suas pesquisas, sobretudo em regiões onde navios e equipamentos científicos têm dificuldade de chegar.

Narvais ajudam pesquisadores no Ártico
Imagem, Phys.org.

Neste caso, o trabalho aconteceu na Groenlândia Oriental. Ali, geleiras encontram o oceano Ártico, numa região de grande interesse para os cientistas que estudam a chamada Atlantificação.

Nesse processo, águas mais quentes e salgadas do Atlântico avançam e se misturam às águas frias do Ártico. Isso pode aumentar o derretimento do gelo. Para entender melhor o fenômeno, Mads Peter Heide-Jørgensen, do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia, e seus colegas equiparam narvais com pequenos sensores.

Por que estudar a Atlantificação na Groenlândia Oriental

A Groenlândia Oriental abriga Scoresby Sound, o maior e mais profundo sistema de fjords do mundo, na costa leste da Groenlândia. Ele se estende por mais de 350 quilômetros inland a partir do Mar da Groenlândia e cobre uma área total gigantesca de aproximadamente 38.000 km².

No entanto, apesar de sua importância, existem poucas medições oceanográficas na região. O gelo, os icebergs e as grandes distâncias tornam as pesquisas caras e difíceis.

A área preocupa  por causa da Atlantificação. O fenômeno acontece quando águas mais quentes e salgadas do Atlântico avançam sobre o Ártico e se misturam às águas frias da região. Esse calor adicional pode chegar aos fiordes e aumentar o derretimento das geleiras.

Ilustração, Science Advances.

O estudo, publicado na revista Science Advances, mostrou que a Atlantificação já alcança bacias profundas diante de geleiras localizadas até 300 quilômetros no interior da Groenlândia Oriental. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores combinaram os dados coletados pelos narvais com informações do World Ocean Database.

Na Bacia de Blosseville, a Água Intermediária do Atlântico domina abaixo de cerca de 250 metros. Além disso, entre 1960 e 2021, a temperatura das águas acima de 500 metros aumentou, em média, 0,047°C por ano. Os dados indicam que esse calor chega diretamente às frentes das geleiras, favorece o derretimento submarino e acelera a perda de massa de gelo.

Como os narvais coletaram dados no Ártico

A escolha dos narvais aconteceu porque estes animais apresentam forte fidelidade aos locais onde vivem e costumam retornar às mesmas áreas ano após ano. Além disso,  realizam mergulhos profundos sob o gelo. Para os pesquisadores, isso significa a possibilidade de obter medições repetidas justamente em regiões onde navios científicos dificilmente conseguem operar.

Pesquisadora entra no mar para colocar dispositivos de localização nos narvais. Imagem, Carsten Egevang.

Entre agosto de 2017 e julho de 2020, os seis narvais forneceram dados de 2.060 mergulhos. Alguns chegaram a grandes profundidades e percorreram áreas cobertas por gelo durante meses, justamente onde navios de pesquisa enfrentam enormes dificuldades para operar.

O sensor colocado no narval. Imagem, Heide Jorgensen.

Entre agosto de 2017 e julho de 2020, os seis narvais forneceram dados de 2.060 mergulhos.  Os narvais já haviam ajudado outras pesquisas oceanográficas. No entanto, este estudo marcou a primeira vez em que instrumentos instalados nesses animais mediram também a salinidade da água. Para Mads Peter Heide-Jørgensen, essa capacidade transforma os narvais em excelentes plataformas de observação de regiões remotas do Ártico.

Águas quentes chegam até as geleiras

Os dados mostraram que a Atlantificação não afeta toda a região da mesma forma. Geleiras diante de bacias profundas ficam mais expostas às águas quentes do Atlântico, sobretudo entre 200 e 500 metros. Já as áreas costeiras mais rasas recebem menos influência.

O resultado surpreendeu os pesquisadores. Eles já conheciam a presença de águas atlânticas na Groenlândia Oriental, mas não esperavam encontrá-las avançando mais de 300 quilômetros para dentro dos fiordes.

Quando os animais ajudam a ciência a conhecer os oceanos

Mesmo no século 21, em plena era da alta tecnologia, estudar o mar profundo ainda exige criatividade. Navios, satélites e robôs não chegam a todos os lugares. Por isso, cientistas recorrem cada vez mais aos próprios animais marinhos.

Foi assim com os narvais deste estudo. Também aconteceu com peixes e tubarões que ajudam a prever furacões, com leões-marinhos usados para mapear o fundo dos oceanos e até com tubarões-tigre que ajudaram a revelar um novo ecossistema de gramas marinhas nas Bahamas.

Em comum, esses trabalhos mostram algo simples: para conhecer melhor os oceanos, às vezes a tecnologia mais eficiente precisa viajar nas costas de quem já conhece esse ambiente como ninguém.

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