Mar ignora engorda e avança na Praia Brava de Matinhos (PR)
O ano mal começou e a primeira ressaca de 2026 já deixou um rastro de destruição nas praias castigadas da região Sul. No Sudeste, Nordeste e Norte, as praias ainda lidam com outro impacto: o lixo e os danos causados por milhões de pessoas que as superlotaram na virada do ano. Dois “ataques” desse porte atingem um ecossistema importante mais frágil e sensível. O litoral é uma zona de transição entre o mar e o continente, constantemente submetida a ventos, ondas, marés, ressacas e outras forças naturais. O cenário antecipa um ano de severo estresse para a costa brasileira. Há, contudo, um efeito positivo. As ressacas expõem a irresponsabilidade de prefeitos do litoral. Elas ignoram obras inúteis e caríssimas, como as engordas de praia. Mais uma vez, isso acontece agora na Praia Brava de Matinhos, no Paraná.

Revitalização da Orla de Matinhos: de R$ 22 milhões para R$ 483 milhões
Em novembro de 2021 o jornal Gazeta do Povo, em reportagem de Elvira Fantin, mostra o salto no custo do projeto de revitalização da orla de Matinhos. Antes, em 2009, o governo do Paraná estimou a obra em R$ 22 milhões. Entretanto em junho de 2021, ao lançar o projeto, o governador Carlos Massa Ratinho Junior anunciou o valor de R$ 483,1 milhões. Desse total, R$ 378 milhões ficaram reservados para a primeira fase.

O aumento expressivo chamou atenção e levou o Ministério Público do Paraná a apresentar uma denúncia. Segundo Elvira Fantin, a diferença entre o valor inicial e o atual motivou a ação civil pública do MPPR.
O governo estadual, porém, contestou a comparação. Afirmou que não faz sentido confrontar os dois números, já que as projeções iniciais datam da fase de elaboração do EIA/RIMA e serviam apenas como estimativa.
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O Instituto Água e Terra (IAT), responsável pelo projeto, acrescenta que o aprofundamento dos estudos apontou a necessidade de uma intervenção maior, o que explicaria a escalada dos custos.
O Instituto Água e Terra (IAT) também qualificou a denúncia do MP de ‘leviandade’. ‘Segundo o MPPR, há falta de anuências legais prévias de órgãos federais e municipais; falta de análises, vistorias e estudos e a desconsideração de pareceres técnicos’.
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Projeto seguiu adiante mesmo contestado
Mesmo contestado pelo Ministério Público do Paraná, o projeto seguiu adiante. A Gazeta do Povo informou na matéria publicada em 2021 que, como não há decisão judicial sobre a ação civil pública, o governo manteve a tramitação normal.
Na última quinta-feira (4), o Diário Oficial publicou o resultado da licitação. O Consórcio Sambaqui venceu ao oferecer desconto de 17,5% e fechou o contrato em R$ 314,9 milhões. O grupo reúne as empresas Castilho, Tucumann, Jan de Nul, Codrasa, Dang, Serra da Prata e Soebe.
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O que aconteceu em Matinhos repete o padrão das inúteis engordas feitas no litoral de Santa Catarina. Todas nasceram com vícios de origem. Vieram acompanhadas de muito blá-blá-blá técnico, mas sem sustentação na realidade. Ignoraram, desde o início, os alertas de especialistas da UFSC, que já apontavam a piora em todas as praias engordadas.

Mesmo assim, o poder público e parte significativa da população catarinense parecem imunes ao bom senso, à ética no uso do dinheiro público e às evidências científicas. A prova está na Praia Central de Balneário Camboriú. A cidade já sofreu sucessivas intervenções, todas contestadas por especialistas desde a primeira, em 2006. Ainda assim, prepara uma terceira obra para 2026, sempre a custos milionários. E, a cada nova intervenção, a erosão se agrava.
O naufrágio de Matinhos, como fica?
Bastou uma única ressaca, a primeira de 2026, para as obras defendidas com empenho pelo governador Carlos Massa e pelo Instituto Água e Terra (IAT) naufragarem de forma ruidosa. O mesmo roteiro já havia se imposto em Ponta Negra, em Natal.

Lá, o poder público escolheu a mesma empresa que mutilou a Praia Central de Balneário Camboriú. A DAT Engenharia cobrou R$ 108 milhões para intervir no cartão-postal da capital potiguar. Três meses depois, o mar ignorou a obra e alagou Ponta Negra.

Cinicamente, o Governo do Paraná emitiu uma nota afirmando que a programação de shows será mantida. “Nenhuma estrutura foi danificada e equipes do Verão Maior Paraná estão trabalhando para conter a erosão na área afetada. A situação está sob controle e os shows devem acontecer conforme planejado”, afirma a comunicação.
A situação está sob controle de quem? Só se for do mar…
‘Especialistas contestam projeto de engorda da praia de Matinhos’
A frase acima está entre aspas por ser título da matéria do site Plural, publicada em março de 2025, ou seja, um ano atrás. A matéria alertava que ‘o impacto ambiental, social e paisagístico da proposta será imenso e não há licenciamento ambiental para as intervenções propostas. O que existe é um licenciamento para outro projeto, de 2009, totalmente diferente e com impactos bem menores do que o desenho atual’.
O Plural explicou que mais uma vez a opinião de especialistas chamados pelo Ministério Público não foi ouvida…

‘A pedido do Ministério Público do Paraná, um grupo formado por 17 pesquisadores da UFPR, com ampla experiência em pesquisa e atuação no litoral do Paraná, elaborou uma segunda nota técnica sobre a proposta de revitalização e engordamento da orla de Matinhos. Entre eles, há quatro geólogos, três oceanógrafos, dois geógrafos, quatro biólogos, além de um engenheiro cartógrafo, um advogado, um químico e uma socióloga, todos referências em suas áreas de pesquisa.
Depois de muito discorrer sobre os problemas da obra de quase 500 milhões de reais, a matéria revela que ‘o grupo de trabalho da UFPR propõe soluções baseadas na natureza mais baratas e eficientes. O ponto de partida é a desocupação das áreas em ambiente que deveria ser de restinga e recuperação dessa vegetação para conter as ressacas’.
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A questão é que as soluções baseadas na natureza são eficientes e, especialmente, mais baratas, por isso não interessam aos desvairados do poder público. Pobre de nosso litoral.
Assista ao vídeo para saber mais
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