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Energia eólica no Nordeste: exemplo de expansão mal planejada

Energia eólica no Nordeste: exemplo de expansão mal planejada

A energia eólica no Nordeste cresceu de forma acelerada nas últimas duas décadas e transformou a região na principal fronteira dos ventos no Brasil. A expansão ajudou a aumentar a participação das fontes renováveis na matriz elétrica, mas também ocupou áreas da Caatinga, dunas e trechos do litoral, provocou conflitos com comunidades tradicionais e alterou paisagens que sustentam o turismo, um dos carros-chefe da economia regional.

Energia eólica no Nordeste
Precisava ser tão próximos do mar? Imagem, ABEEólica/Divulgação.

Agora surgiu outro problema. Depois de instalar milhares de aerogeradores, o sistema elétrico não consegue aproveitar toda a energia que eles poderiam produzir. Em vários momentos, o Operador Nacional do Sistema Elétrico determina cortes na geração por excesso de oferta ou por limitações na capacidade de transmissão.

O resultado é um paradoxo: o Nordeste recebeu parques, estradas, linhas internas e torres nem sempre bem-vindas, mas parte da capacidade fica ociosa porque a rede não acompanhou o ritmo da expansão. A questão, portanto, não é apenas produzir energia limpa. É planejar onde, quanto e como produzi-la.

O descompasso da expansão eólica

Além de alterar uma paisagem excepcional, ‘protegida’ pela Constituição, e gerar conflitos nas comunidades onde a Fiocruz agora estuda a “síndrome da turbina”, essa expansão também expôs o improviso do Estado regulador. A energia eólica no Nordeste cresceu mais depressa que a capacidade do sistema de transportar e aproveitar a produção. Durante anos, novos parques entraram em operação enquanto a rede de transmissão, o armazenamento de energia e o consumo regional avançaram em ritmo bem menor.

De uma hora para outra moradores de comunidades do Ceará ficam impedidos de ir e vir. Imagem, Carlos Madeiro, colunista do UOL.

A consequência desse descompasso aparece nos cortes de geração. O nome técnico é curtailment: o Operador Nacional do Sistema Elétrico determina a redução da produção quando há limitações na transmissão ou quando a oferta de eletricidade supera o que o sistema consegue absorver naquele momento.

Em agosto de 2026, os cortes atingiram 26,6% da geração eólica de referência no Brasil, o maior percentual do ano. Foram 5.381,9 MW médios que poderiam ter sido produzidos, mas ficaram de fora do sistema. No Rio Grande do Norte, os cortes chegaram a 45% da geração eólica de referência naquele mês.

Limitações elétricas para transportar a energia

O problema não decorre apenas da falta de linhas de transmissão. Segundo o ONS, parte dos cortes ocorre por limitações elétricas para transportar a energia eólica do Nordeste para outras regiões. Outra parte acontece simplesmente porque, em determinadas horas, há mais eletricidade disponível do que consumo capaz de absorvê-la.

Precisava mesmo sacrificar as dunas? Imagem, , Carlos Madeiro, colunista do UOL.

Seja qual for o problema, ele pode ser chamado de “patacoada”. Escangalha-se a paisagem nordestina, provoca-se até mesmo doenças nervosas entre moradores de pequenas vilas cercadas pelos imensos “espetos”, sacrificam-se dunas importantes e, depois, o poder público percebe que, por falta de planejamento, não há como aproveitar a energia gerada. Só pode ser piada ou… patacoada.

O caso do Rio Grande do Norte

O Rio Grande do Norte mostra bem o tamanho do problema. Entre janeiro e 20 de julho de 2026, 23,9% da geração eólica potencial do estado sofreu cortes, o equivalente a 843 MW médios. Considerando eólica e solar, quase um quarto da geração renovável disponível deixou de ser aproveitada.

O que fizeram com Enxu Queimado, Rio Grade do Norte, para não aproveitar a energia, é inaceitável. Imagem, Joelma Antues.

E o gargalo já interfere em novos projetos. Em maio de 2026, a Aneel aprovou, a pedido das empresas do setor, a revogação de autorizações de projetos eólicos e solares que somavam 3,37 GW. Entre as justificativas estavam a falta de margem para escoar a energia, o risco de curtailment e a inviabilidade econômica.

Bilhões em investimentos suspensos

O setor de energia eólica e solar estimou para 2026 uma redução de cerca de R$ 40 bilhões em investimentos, em meio à saturação do sistema, aos cortes de geração e a outros fatores econômicos e regulatórios.

O que você acharia se sua casa fosse cercada por turbinas barulhentas como estas de Enxu Queimado? Imagem, Arnaldo Sete/MZ Conteúdo publicada pelo Mongabay.

É uma inversão notável. O Nordeste passou anos atraindo parques porque reúne alguns dos melhores ventos do planeta. Agora, justamente onde a expansão foi mais intensa, parte dos investimentos começa a perder sentido porque não há garantia de que toda a energia produzida chegará ao consumidor.

Mais linhas resolvem?

Em julho de 2026, a EPE incluiu novas linhas e reforços no planejamento da transmissão para os próximos anos. O objetivo é aumentar a capacidade de levar a energia produzida no Nordeste para outras regiões do País.

Mas o governo ainda precisa autorizar as obras, os órgãos ambientais precisam licenciá-las e as empresas precisam construí-las. Mesmo depois disso, elas não resolverão tudo. O próprio planejamento do setor aponta a necessidade de ampliar o armazenamento de energia e criar novas formas de absorver os excedentes de geração.

O Nordeste produz muita energia renovável, mas a rede ainda é insuficiente tanto para escoar toda essa geração quanto para conectar rapidamente grandes consumidores, como data centers e projetos de hidrogênio verde.

Baterias entram tarde no jogo

Outra saída é armazenar a energia que hoje sobra em determinados horários. Para isso, o governo prepara leilões específicos de baterias.

A ideia é guardar parte da eletricidade quando há excesso de geração e devolvê-la ao sistema quando a demanda aumenta.

Mas, novamente, a solução chega depois da expansão. O Brasil instalou milhares de megawatts em eólicas e solares antes de criar uma política consistente de armazenamento.

Por isso, o problema atual não é falta de energia. É falta de planejamento para aproveitar toda a energia que já conseguimos produzir.

Retrospectiva de um contrassenso

A expansão da energia eólica no Nordeste  atravessou vários governos. Ganhou escala no fim do governo Fernando Henrique Cardoso, com a criação do Proinfa em 2002, e avançou decisivamente a partir de 2004, no primeiro governo Lula, quando o governo regulamentou o programa e passou a contratar os projetos.

Depois, sucessivos governos fizeram demais numa ponta e de menos na outra. Deu no que deu: geração sobrando, transmissão insuficiente e energia sendo cortada.

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