Colapso dos rios brasileiros: poluídos e maltratados
O Brasil tem mais água doce que qualquer outro país – 12% do volume total do Planeta. Isso cria uma falsa premissa de que o suprimento de água de boa qualidade estará sempre disponível. Embora haja abundância de água, em comparação com outros países, existe grande variedade de riscos relacionados a água, o que representa grande incerteza na disponibilidade de água para a população. Contudo, grande parte dos rios brasileiros que deságuam no mar estão em colapso por mau uso, podemos dizer que estão na UTI. Este post não tem a pretensão de tratar de todos, mas dos mais importantes na visão do autor deste texto. Na maioria são rios que poderiam ser demandados por embarcações se não tivessem suas barras assoreadas.
Os dados da vergonha que justificam a poluição
Segundo o SINISA 2024, do Ministério das Cidades, 59,7% da população brasileira tem atendimento por rede de esgotamento sanitário. Isso significa que cerca de 40% ainda vive fora da rede. Quando se olha para os domicílios, o quadro também envergonha: apenas 53,5% dos domicílios brasileiros contam com rede coletora de esgoto. No meio rural, o índice despenca para 2,2%.
O tratamento também está longe do necessário. O SINISA informa que 62,3% do volume de esgoto é coletado por redes, mas só 49% do volume gerado recebe tratamento. Em outras palavras, mais da metade do esgoto produzido no país ainda volta ao ambiente sem tratamento adequado. Como manter rios limpos com uma situação como esta?
Poluição dos rios brasileiros é um grave problema ambiental
Ainda segundo a ANA, “A poluição dos rios é o problema ambiental de que o brasileiro mais se ressente”. Foi o que disse o diretor do órgão, Oscar Cordeiro, no seminário A despoluição dos rios, que aconteceu em São Paulo em 2019. De acordo com Cordeiro, “esses trechos de rio, não por acaso, estão nas cidades. Existe uma relação fortíssima entre a poluição e as ocupações urbanas, por causa da falta de coleta de esgoto e tratamento inadequado.”
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O Rio Grande do Sul não tem grandes rios, apenas arroios.
O grande corpo d’água do estado é o lago Guaíba. E o Guaíba deságua na Laguna dos Patos que, por sua vez, despeja suas águas no mar, portanto, entra na lista. Com bons e maus exemplos.
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Formadores do Lago Guaíba
Ele é formado pelo Jacuí (o maior dos formadores), além dos rios Sinos, Caí e Gravataí. De onde começa e até onde termina, ao se encontrar com a Laguna dos Patos, não tem mais que 25 milhas. E sofre o “efeito seiche” que, segundo o professor Luiz Fernando Cybis, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “poucos corpos d’água no planeta apresentam”.
Maus exemplos do Guaíba
Mais uma vez, o problema passa pela poluição, sobretudo urbana, mas não apenas. A Bacia Hidrográfica do Lago Guaíba tem 2.919 km² e população estimada em 1.344.982 habitantes, dos quais 98,5% vivem em áreas urbanas. Porto Alegre, sozinha, mostra a dimensão do problema: o DMLU maneja cerca de 515 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mais de 1.400 toneladas por dia.
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Praias de SC tornam-se paraíso das engordas e da diarreiaDanos aos oceanos duplicam custo do carbonoOceano supera recorde de calor e amplia riscos globaisA isso se somam esgoto doméstico, drenagem urbana contaminada, resíduos arrastados pelas chuvas e poluição difusa. Depois das enchentes de 2024, o alerta ficou ainda mais evidente: até abril de 2025, a capital já havia recolhido mais de 216 mil toneladas de resíduos pós-enchente. O Guaíba paga a conta.
Estudos mostram que o mexilhão-dourado foi introduzido no Brasil em 1998 no Lago Guaíba, através da água de lastro de navios mercantes vindos da Ásia.
Segundo a bióloga Maria Cristina Mansur, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),
em pouco mais de dois anos o mexilhão alterou a paisagem no lago Guaíba diminuindo a flora ripária (plantas das margens), sufocando a fauna bentônica (organismos dos corpos aquáticos) e transformando nossas praias arenosas e as margens vegetadas por juncos, em amontoados de conchas enegrecidas…
Ao longo da bacia calcula-se que cerca de duas mil empresas se instalaram, 350 com potencial poluidor, e 15 apontadas pelo Comitê do Lago Guaíba como responsáveis por 23% de todos os poluentes lançados. Mesmo sendo minoria a agricultura é a principal atividade econômica para vários municípios do entorno. É o caso do cultivo de fumo em inúmeros deles, reflorestamentos para a celulose em outros e, finalmente, o cultivo de arroz nos municípios da margem direita. E eles usam herbicidas…
O exemplo quase bom do Guaíba
A demanda da população levou o Estado a agir, disse Vera Callegari, então secretária de Meio Ambiente, em entrevista ao Mar Sem Fim em 2007. O movimento Pró-Guaíba, criado oficialmente em 1995 depois do sucesso da campanha do Tietê em São Paulo, e o Comitê da Bacia Hidrográfica do Lago Guaíba, instituído em 1998, nasceram desse processo. O governo gaúcho firmou acordo com o BID e investiu US$ 220,5 milhões no Módulo 1 do Pró-Guaíba, com 60% financiados pelo banco e 40% de contrapartida local.
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O programa implantou três estações de tratamento de esgoto e outras ações ambientais, mas perdeu fôlego. Dos três módulos previstos, apenas o primeiro saiu do papel. A situação melhorou em Porto Alegre, mas não se resolveu: hoje, 72,3% da população tem acesso ao esgotamento sanitário, e o município trata 60% do esgoto gerado. Ainda assim, milhões de metros cúbicos seguem para a natureza sem tratamento.
Santa Catarina e o colapso dos rios brasileiros
Um dos maiores, se não o maior rio do estado, é o Araranguá. Pesquisando sobre ações do Comitê de Bacias, encontram-se platitudes como esta…
Vamos desenvolver capacitações, recuperação de vegetação, buscar técnicas de solução para as fontes de poluição existentes, a identificação de contaminantes nos rios...
O rio Tubarão
Além do Araranguá, outro rio importante de Santa Catarina segue como mau exemplo: o Tubarão. Na primeira viagem do Mar Sem Fim, registramos que, no passado, ele era estreito e sinuoso. No fim dos anos 1970, por causa das enchentes, seu curso mudou. O rio ficou largo, reto, quase um canal, e sofreu sucessivas dragagens.
A bacia continua entre as mais afetadas do estado pela mineração de carvão, pelos rejeitos do beneficiamento, pela drenagem ácida e pela poluição industrial. Há ações de recuperação e monitoramento em curso, inclusive no âmbito da antiga Ação Civil Pública do Carvão, proposta em 1993. Mesmo assim, o passivo ambiental permanece. Em muitos trechos, a mata ciliar segue rarefeita, substituída por pastos, lavouras, ocupações e atividades econômicas que pressionam ainda mais o rio.
Paraná e os rios brasileiros
A Baía de Paranaguá é o acidente geográfico mais notável da costa paranaense. Também é um dos ambientes mais pressionados do estado. Durante a primeira expedição do Mar Sem Fim, Fabian Sá, então doutorando em Geoquímica Ambiental na UFPR, alertou para a contaminação dos sedimentos por metais pesados, entre eles arsênio e níquel, em níveis superiores aos parâmetros da Resolução Conama usada na avaliação. O problema não desapareceu.
Estudos posteriores continuaram a tratar a baía como área sensível à presença de metais e arsênio nos sedimentos, sobretudo no canal de acesso aos portos e em áreas sujeitas a dragagens, despejos urbanos, efluentes industriais e atividade portuária.
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O segundo ponto notável da costa do estado é a baía de Guaratuba, também contaminada…
O segundo ponto notável da costa paranaense é a Baía de Guaratuba. Menor que a Baía de Paranaguá, ela tem cerca de 52 km² de estuário e sofre pressões típicas do litoral brasileiro: crescimento urbano, turismo sazonal, ocupação desordenada e saneamento ainda insuficiente. Na primeira expedição do Mar Sem Fim, Rangel Angelotti, da Universidade Federal do Paraná, já alertava que o maior conflito vinha do aumento populacional nas cidades do entorno.
O problema não desapareceu. A Sanepar informou, em 2025, que 26% dos imóveis dos municípios do litoral paranaense ainda não tinham cobertura de rede coletora de esgoto. E, com a nova Ponte de Guaratuba, a tendência é de aumento da circulação, da valorização imobiliária e da pressão sobre a baía. Como sempre, o Estado chega tarde: corre atrás do prejuízo que poderia ter evitado com planejamento.
São Paulo e o Ribeira de Iguape
Em São Paulo, o caso mais importante é o Ribeira de Iguape. A bacia ainda guarda uma das maiores áreas contínuas de Mata Atlântica do país e se liga diretamente ao Lagamar, um dos berçários mais importantes do Atlântico Sul, porém, hoje ameaçado por um projeto de turismo náutico do governo do Paraná.
Mas não é só. O Ribeira de Iguape carrega um passivo histórico da mineração de chumbo, com sedimentos contaminados por metais pesados, e ainda sofre com saneamento insuficiente, ocupação desordenada, estradas, agricultura, silvicultura e projetos que pressionam o complexo estuarino-lagunar. É uma exceção preciosa no litoral paulista. Justamente por isso, exige cuidado redobrado.
O grande vilão é o Canal do Valo Grande, espécie de “atalho” feito pelo homem no rio Ribeira de Iguape em 1852. Desde então a cidade de Iguape literalmente naufragou. O canal, que deveria ter no máximo 40 metros, sofreu os efeitos da erosão provocada pela vazão do rio. Hoje tem mais de 300 metros de largura. Grande parte da cidade foi tragada. Junto com a enorme vazão vieram toneladas de sedimentos e muita água doce. Os sedimentos assorearam o Mar Pequeno e a barra de Icapara, inviabilizando o porto. E a água doce, que continua a fluir livremente até hoje, está matando o manguezal e provocando o fechamento de bocas de rios com capim.
Rio de Janeiro, baía de Guanabara
Ela é a segunda maior baía do litoral brasileiro, com 412 quilômetros quadrados de espelho d’água, recebendo o deságue de cinquenta e cinco rios. Com 42 ilhas e 53 praias, conforme o estudo Características Físicas de Guanabara e Sua Bacia Hidrográfica, sua profundidade varia de alguns metros em suas margens até mais de 40 metros no canal principal, sendo a maioria rasa, com menos de 10 metros de profundidade.
Problemas da baía de Guanabara
A Baía de Guanabara segue como um dos maiores exemplos de descaso ambiental do país, mas há sinais recentes de melhora. Sua região hidrográfica envolve total ou parcialmente 17 municípios e cerca de 10 milhões de habitantes. No entorno estão portos, terminais, estaleiros, indústrias, refinarias, oficinas, rios transformados em valas de esgoto e bairros sem saneamento suficiente.
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O problema central continua o mesmo: esgoto doméstico sem tratamento, resíduos sólidos, drenagem urbana contaminada, chorume e poluição industrial chegam à baía todos os dias. Ainda assim, menos de três anos depois da concessão do saneamento no Rio de Janeiro, relatórios do Inea passaram a registrar melhora na balneabilidade de praias historicamente poluídas, como Paquetá, Flamengo e Urca. É avanço, mas não absolvição. A Guanabara melhorou em alguns pontos; ainda está longe de estar recuperada.
Rios brasileiros e a foz do Paraíba do Sul
Em nossa primeira viagem pela costa brasileira, entre 2005 e 2007, a situação do Paraíba do Sul já era catastrófica. O rio nasce em São Paulo, atravessa Minas Gerais e o Rio de Janeiro, e sua bacia tem papel estratégico para o abastecimento, a indústria e a agricultura. Segundo a ANA, a bacia se estende por 61,5 mil km² nos três estados e, em 2010, abrigava 8,5 milhões de habitantes. Quando se considera a água transferida para outras bacias, ela abastece mais de 15 milhões de pessoas.
O problema do esgoto melhorou em relação ao quadro de 2005, mas continua longe do aceitável. Segundo dados do PIRH-PS, o Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia do Paraíba do Sul, cerca de 87% do esgoto produzido na bacia é coletado, mas só 41,3% recebe tratamento. Outros 5% seguem para soluções individuais, como fossas sépticas, e 7,85% da população permanece sem qualquer atendimento. Ou seja: ainda há muito esgoto chegando ao rio e a seus afluentes.
Na foz, em Atafona, o drama continua. O avanço do mar destrói casas, ruas e memórias há décadas. Entre as causas apontadas estão a redução da vazão do Paraíba do Sul, o assoreamento, a retenção de sedimentos por barragens, a ocupação costeira mal planejada e a erosão marinha.
Espírito Santo: colapso dos rios brasileiros
Havia o Rio Doce. Em 2015, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, controlada por Vale e BHP, despejou dezenas de milhões de metros cúbicos de rejeitos na bacia, matou 19 pessoas, destruiu comunidades e levou a lama até o mar do Espírito Santo. Na época, Luciano Magalhães, então diretor do Saae de Baixo Guandu, resumiu o desastre ao Mar Sem Fim: “O rio está morto, o cenário é o pior possível”. A frase traduzia o choque de quem viu a água desaparecer sob rejeitos de mineração.
Quase dez anos depois, o crime ambiental ainda cobra sua conta. Em outubro de 2024, União, Minas Gerais, Espírito Santo, Ministérios Públicos, Defensorias e as empresas Samarco, Vale e BHP assinaram o Novo Acordo do Rio Doce, homologado pelo STF em novembro. O acordo prevê cerca de R$ 170 bilhões em reparação, indenizações e compensações ao longo de 20 anos. É muito dinheiro, mas não apaga o essencial: o desastre nasceu de mineração mal controlada, fiscalização falha e poder público incapaz de impedir o previsível. A reparação é obrigação; prevenção teria sido dever.
Bahia
A maioria dos rios que chega à costa baiana é de pequeno porte. A exceção mais notável é o Jequitinhonha, com cerca de 920 quilômetros de extensão. O rio nasce na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, cruza uma das regiões mais pobres e castigadas do país e deságua no Atlântico, em Belmonte, no sul da Bahia. Como tantos grandes rios brasileiros, também sofreu com barragens.
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A mais conhecida é a UHE Irapé, inaugurada em 2006, entre Berilo e Grão Mogol, no alto Jequitinhonha. Mais abaixo, a UHE Itapebi, na divisa entre Bahia e Minas Gerais, também alterou o regime do rio e gerou conflitos com comunidades ribeirinhas, indígenas e atingidos por barragens.
O vale do Jequitinhonha
A bacia do rio Jequitinhonha abrange cerca de 70,3 mil km², entre Minas Gerais e Bahia, e atravessa uma das regiões mais pobres do país. O saneamento ainda é precário: muitas cidades têm coleta e tratamento de esgoto insuficientes, e parte dos rejeitos domésticos segue para córregos, afluentes e para o próprio rio. A mineração é outra ameaça antiga.
A corrida do ouro começou no período colonial, mas seus efeitos nunca desapareceram por completo. Ainda hoje, garimpos ilegais pressionam a bacia, degradam margens, revolvem sedimentos e aumentam o risco de contaminação.
Sergipe: colapso dos rios brasileiros
Sergipe tem cinco rios que deságuam no Atlântico: São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris e Real. Entre eles, o Vaza-Barris e o Sergipe merecem destaque. O Vaza-Barris nasce na Bahia, percorre cerca de 450 quilômetros e carrega forte valor histórico: o açude Cocorobó, construído no município de Canudos, cobriu parte da antiga área ligada à Guerra de Canudos, imortalizada por Euclides da Cunha.
Já o rio Sergipe tem cerca de 210 quilômetros, nasce na Bahia, atravessa Sergipe de oeste para leste e deságua no Atlântico entre Aracaju e Barra dos Coqueiros. O problema, como em quase todo o litoral brasileiro, está no uso do rio como receptor de esgoto, resíduos e ocupação urbana mal planejada. A Assembleia Legislativa de Sergipe reconhece que o rio Sergipe percorre 210 km até sua foz entre Aracaju e Barra dos Coqueiros. E estudos sobre seus afluentes, como o Poxim, apontam despejo de efluentes domésticos sem tratamento e resíduos sólidos no leito do rio.
Sergipe/Alagoas
A foz do São Francisco é a divisa dos dois estados. Infelizmente, o “rio da integração nacional”, tão importante na história do Brasil, é um eloquente exemplo do que não se deve fazer em rios.
212 expedições ao longo e no entorno do São Francisco
Entre 2008 e 2012 uma equipe de pesquisadores liderada pelo professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, promoveu 212 expedições ao longo e no entorno do São Francisco. Era o tempo da divulgação da transposição do rio… Em seguida o estudo foi reunido no livro “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação” (Andrea Jakobsson Estúdio). O trabalho é considerado o mais profundo estudo sobre a Caatinga, único bioma exclusivo do Brasil. O título do primeiro capítulo é emblemático:
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A extinção inexorável do rio São Francisco
A lista de problema do São Francisco
A lista de problemas do São Francisco é extensa. Entre os mais graves estão as grandes barragens que alteraram o pulso natural do rio, reduziram a chegada de sedimentos à foz e mudaram a vida no Baixo São Francisco: Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso e Xingó.
A elas se soma a transposição, oficialmente Projeto de Integração do Rio São Francisco. A obra começou em 2008, foi apresentada como solução de segurança hídrica para o semiárido e hoje soma 477 quilômetros de canais, com promessa de beneficiar cerca de 12 milhões de pessoas em 390 municípios de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O custo também mudou: a previsão inicial era de R$ 4,5 bilhões; em 2012 já havia subido para R$ 8,2 bilhões; e, em 2023, a Câmara dos Deputados registrava que a obra já havia custado mais de R$ 13 bilhões.
Segundo o livro “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação, restou apenas 4% da vegetação original das margens do São Francisco. Sem mata ciliar a erosão toma conta das margens contribuindo para o assoreamento do leito. Mas, talvez o pior seja a última novidade descoberta no Velho Chico: o rio está infestado pelo mexilhão- dourado.
Pernambuco
Pernambuco não se destaca por grandes rios costeiros, mas seus rios urbanos mostram bem o colapso hídrico brasileiro. No litoral sul aparecem o Formoso, o Sirinhaém e o Jaboatão. Em Recife, os mais conhecidos são o Capibaribe e o Beberibe.
No litoral norte, há o Jaguaribe. O Capibaribe ainda carrega o peso da atividade têxtil de Toritama, no Agreste, onde lavanderias de jeans já despejaram grande volume de resíduos químicos no rio e motivaram ações da CPRH e do Ministério Público desde os anos 2000. O problema não desapareceu: em 2023, a CPRH voltou a interditar lavanderias em Toritama por operação irregular de sistemas de tratamento de efluentes.
O saneamento também segue muito aquém do aceitável. Dados do SINISA 2024, reunidos pelo Instituto Água e Saneamento, indicam que apenas 40,3% da população de Recife tem acesso ao esgotamento sanitário.
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A média de Pernambuco é ainda pior: 29,4%, contra 62,3% no Brasil. Ou seja, os números antigos mudaram, mas a conclusão permanece: rios como Capibaribe, Beberibe e Jaboatão continuam recebendo a conta da urbanização precária, da indústria mal fiscalizada e da falta de saneamento.
O rio Jaguaribe não foge à sina dos outros
O rio Jaguaribe não foge à sina dos outros. No litoral norte de Pernambuco, ele atravessa uma região pressionada por desmatamento, ocupação desordenada, falta de saneamento, resíduos sólidos e assoreamento.
A APA Estuarina do Rio Jaguaribe, em Itamaracá, protege apenas 212 hectares, área pequena diante da importância do manguezal e da pressão urbana no entorno. Estudos recentes ainda apontam falta de saneamento nas cidades ribeirinhas, poluição, contaminação da água, erosão e perda de vegetação nas margens. O resultado é conhecido: menos mata ciliar, mais sedimentos no leito, rio mais raso, água pior e comunidades vulneráveis instaladas onde nunca deveria haver ocupação sem infraestrutura.
Paraíba
O rio Paraíba é o mais importante do estado, tanto por sua extensão quanto por sua relevância econômica e hídrica. Sua bacia ocupa cerca de 38% do território paraibano, atravessa dezenas de municípios, do semiárido ao litoral, e abastece a região mais urbanizada e industrializada da Paraíba, incluindo João Pessoa e Campina Grande. Mas a situação se repete: efluentes domésticos sem tratamento adequado, erosão, ocupações nas margens e obras mal planejadas comprometem o rio.
O estudo citado pela UFPB, na área urbana de Caraúbas, já apontava elevada carga orgânica nas águas, contaminação de águas superficiais e subterrâneas, processos erosivos e empreendimentos nas margens. O tempo passou, mas o roteiro brasileiro permanece: o rio sustenta cidades, agricultura e economia; em troca, recebe esgoto, sedimentos e descaso.
Rio Mamanguape
Finalmente, no litoral norte da Paraíba está o rio Mamanguape, o segundo mais importante do estado por sua extensão. O Mamanguape tem 170 quilômetros de extensão. Como quase todos os rios brasileiros, perdeu boa parte de sua mata ciliar e, em seguida, entrou no ciclo do assoreamento.
Um estudo publicado em 2011 aponta a origem do problema: uma sociedade que usa os recursos naturais de forma indiscriminada, aceita um modelo de desenvolvimento devastador e prioriza a produção em escala industrial, sem se preocupar com os impactos ambientais provocados pelo descarte inadequado de poluentes.
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Rio Grande do Norte
Grandes rios não são o forte do Nordeste brasileiro. Ao contrário, muitos são intermitentes: aparecem e desaparecem conforme o regime de chuvas. No Rio Grande do Norte, o mais importante é o Piranhas-Açu, que deságua no mar na altura de Macau. O Potengi também tem grande relevância, sobretudo porque banha Natal e abriga o Porto da capital. O estado ainda conta com outros rios, como Cunhaú, Ceará-Mirim, Jacu, Trairi, Seridó e Curimataú.
Por sua importância, vamos destacar o Potengi. Em 2009, o jornal Tribuna do Norte publicou uma reportagem com um subtítulo alarmante: “Especialistas temem pela morte do rio”.
Segundo a matéria, uma bióloga da ONG Navima analisou a água do Potengi e encontrou 20 mil coliformes fecais em 100 mililitros de amostra, valor muito acima do permitido pelo Conama. A mesma análise foi feita em ostras, grandes filtradoras naturais, e apontou 2 mil coliformes na mesma quantidade de água.
Ao final, o jornal resumiu o impasse de sempre: “Diante de todos os problemas característicos do rio Potengi, o poder público troca acusações e tenta se desviar da responsabilidade que lhe é devida”.
Como se vê, nada de novo no front.
Ceará
Jaguaribe: detonado em sua foz pela famigerada carcinicultura
O Jaguaribe foi detonado em sua foz pela famigerada carcinicultura. Além de poluir, a atividade extirpou o manguezal que protegia a desembocadura do rio. Foi um massacre impiedoso. Custa acreditar que as autoridades do Ceará tenham deixado o rio entregue a aventureiros, ainda mais porque se trata do mais importante e mais extenso do estado, com 633 quilômetros, além de abastecer a Região Metropolitana de Fortaleza.
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O caso é ainda mais grave porque o Jaguaribe não sofre apenas na foz. Como já mostramos, ele atravessa 81 municípios cearenses e sua bacia acumula problemas antigos: perda de mata ciliar, assoreamento, poluição, mineração de areia e saneamento precário. Em Iguatu, levantamento do IFCE apontou que apenas 4% da área do rio mantinha mata nativa preservada. Além disso, o Castanhão, alimentado pelos rios Salgado e Jaguaribe, abastece Fortaleza e sua região metropolitana. Ou seja, o Ceará permite a degradação justamente do sistema que sustenta parte essencial de sua segurança hídrica.
Piauí
O Piauí tem vários rios menores, mas o maior e mais importante é o Parnaíba. Ele nasce como um riacho na Chapada das Mangabeiras, banha 22 municípios, serve como divisa entre Piauí e Maranhão e percorre 1.485 quilômetros até chegar ao mar.
O Parnaíba é um dos rios mais importantes do Nordeste. No entanto, assim como tantos outros, está na UTI. Esgotos sem tratamento, assoreamento e perda de mata ciliar tornam seu leito cada vez mais raso e ameaçam um sistema vital para o Piauí, o Maranhão e todo o Delta do Parnaíba.
De acordo com o G1 o motivo principal é que a capital, Teresina, tem uma baixa cobertura sanitária, “são apenas 17% de todo o esgoto da capital que é coletado para tratamento, o restante vai parar nos fundos dos rios Parnaíba e Poti”.
Como se vê, o Parnaíba é mais um rio condenado, impróprio para a navegação, impróprio para a vida marinha, que despeja esgotos da capital, Teresina, e dos 22 municípios que atravessa, diretamente no mar.
Maranhão
Rio Gurupi
O Gurupi faz a divisa entre Maranhão e Pará. Ao contrário de tantos outros rios citados nesta matéria, ele ainda parece relativamente saudável. Mas vive sob ameaça constante. O garimpo ilegal volta sempre que a fiscalização afrouxa, trazendo junto a contaminação por mercúrio, a destruição das margens e a pressão sobre comunidades ribeirinhas.
Estive ali durante as gravações da série de unidades de conservação, naveguei pelo rio e conversei com moradores locais. A impressão foi clara: o Gurupi ainda resiste, mas depende de vigilância permanente para não seguir o mesmo caminho de tantos rios brasileiros.
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Pará
Todo o esgoto doméstico de Macapá vai direto para o rio
Segundo o Instituto Água e Saneamento, com dados recentes do SNIS, apenas 14,9% da população de Macapá é atendida com esgotamento sanitário. Isso significa que o esgoto de mais de 414 mil habitantes não é coletado. A capital tinha 442.933 moradores no Censo de 2022, segundo o IBGE.
A CSA, do Grupo Equatorial, afirma que, desde o início da concessão, em julho de 2022, ampliou a cobertura de esgoto no estado de 5% para 10% até junho de 2025. Mesmo assim, o quadro segue dramático: no Ranking do Saneamento 2025, do Instituto Trata Brasil, Macapá aparece na 98ª posição entre os 100 maiores municípios brasileiros.
Como se vê, a foz do maior rio do mundo continua recebendo a conta da omissão brasileira. Não é mais correto dizer que “todo” o esgoto doméstico de Macapá vai direto para o rio. Mas a conclusão pouco muda: a imensa maioria ainda não é coletada. Em uma capital amazônica à beira do Amazonas, isso é mais que atraso. É uma afronta ao rio.
Amapá
O Amapá tem quatro rios que deságuam no mar: Oiapoque, Cassiporé, Calçoene e Araguari. Todos sofrem, em maior ou menor grau, com a pressão do garimpo e a contaminação por metais pesados, especialmente o mercúrio. A maioria ainda conserva parte significativa da mata ciliar, mas o desmatamento avança. Assim, mesmo num dos estados mais preservados do País, a poluição dos rios aparece como um dos problemas ambientais mais graves.
Resultado: colapso dos rios brasileiros
De todos os rios que deságuam na costa só o Amazonas é navegável para qualquer tipo de embarcação. Todos os outros sofreram tamanho assoreamento que alguns só são navegáveis por canoas.
Colapso dos rios brasileiros: quer prova maior das pegadas que estamos deixando?
Até 50 ou 60 anos atrás, quase todos os rios citados nesta matéria eram limpos e navegáveis. Em menos de meio século, detonamos boa parte deles e deixamos uma dura herança para as próximas gerações.
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Elas talvez tenham dificuldade para reconhecer a beleza e a biodiversidade brasileiras. E enfrentarão um desafio ainda mais grave: garantir água para abastecer grandes cidades e populações cada vez mais vulneráveis.
Colapso dos rios brasileiros: nada se compara ao rio Salgadinho, Maceió, que desaguava no mar
Por que deixei o Salgadinho por último? E por que usei o verbo no passado, “desaguava”? Porque nada se compara a ele. O que um dia foi rio virou um canal de esgoto a céu aberto, uma ferida exposta no coração de Maceió. Se não abrirmos os olhos e não pressionarmos o poder público, muitos dos rios citados nesta matéria são candidatos a seguir o mesmo caminho. O Salgadinho já não parece rio. Parece um filme de horror.
Fontes: ftp://geoftp.ibge.gov.br/documentos/recursos_naturais/diagnosticos/jequitinhonha.pdf; ftp://geoftp.ibge.gov.br/documentos/recursos_naturais/diagnosticos/jequitinhonha.pdf; http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2011/10/estudo-da-fgv-mostra-retrocesso-do-saneamento-basico-no-grande-recife.html; http://www.prac.ufpb.br/anais/Icbeu_anais/anais/meioambiente/riojaguaribe.pdf; http://www.scielo.br/pdf/abb/v20n4/13.pdf; http://www.webartigos.com/artigos/a-revitalizacao-do-alto-curso-do-rio-mamanguape-pb-uma-analise-socioambiental-a-partir-da-recuperacao-da-mata-ciliar/77216/; http://tribunadonorte.com.br/noticia/potengi-ameaca-de-todos-os-lados/125782; http://www.piaui.com.br/internas.asp?ID=207; http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2015/05/nivel-de-poluicao-e-assoreamento-do-rio-parnaiba-e-critico-e-preocupante.html; https://institutoamigosemacao.wordpress.com/ ; http://www.suapesquisa.com/geografia/amapa.htm; https://emanoelreis.wordpress.com/2012/07/23/poluicao-do-rio-amazonas-mcp/; http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2014/03/12/103450-tartaruga-da-amazonia-corre-risco-de-desaparecer-em-rio-do-amapa.html; https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2019/03/20/um-bilhao-de-litros-de-chorume-sao-despejados-na-baia-de-guanabara.htm?utm_source=facebook&utm_medium=social-media&utm_content=geral&utm_campaign=noticias; https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-mais-de-83-mil-km-de-rios-poluidos-aponta-agencia-nacional,70003042816?utm_source=estadao%3Afacebook&utm_medium=link&fbclid=IwAR1sswY-pziMeGm_7-SgbHZpP-Zo6qZFbnvZB-ty5Z8u-PRuM6cYVnfI_Mw.