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Banco de Abrolhos perde até 50% dos corais em 20 anos

Banco de Abrolhos perde até 50% dos corais em 20 anos

O Banco dos Abrolhos se estende por 46 mil km² na costa brasileira, e está localizado entre os litorais da Bahia e Espírito Santo. Trata-se da maior e mais rica formação recifal do Atlântico Sul, por isso em 1983 foi criado o primeiro Parque Nacional Marinho do País, o Parna de Abrolhos. Contudo, seus 882 km² de extensão protegem apenas cerca de 2% do Banco dos Abrolhos o que, convenhamos, é muito pouco. Assim, uma força-tarefa científica busca concluir uma proposta que poderia ampliar os limites geográficos do parque nacional especialmente porque dados mais recentes mostram um cenário preocupante: o banco perdeu uma parcela expressiva de seus corais nos últimos 20 anos. O alerta vem de um estudo publicado pela Royal Society, que analisou mudanças ecológicas profundas na região.

Banco de Abrolhos, sul da Bahia
Banco de Abrolhos, sul da Bahia. Imagem, bahiadiaadia.

Ao longo do período analisado, a cobertura coralínea do Banco dos Abrolhos caiu cerca de 15%. A perda se acelerou após 2017, no rastro da onda de calor marinha iniciada em 2016. Esse evento provocou o terceiro grande episódio global de branqueamento de corais. E, de lá para cá, a situação só piorou, os oceanos estão esquentando a uma taxa mortal para os corais de águas rasas de todo o mundo.

Saiba onde fica Abrolhos

O Banco de Abrolhos se estende pelo sul da Bahia. Ele abriga o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e forma o maior banco recifal do Atlântico Sul.

Há muitos anos, a comunidade científica e ambientalistas pedem, sem sucesso, a ampliação do parque para incluir o Banco Royal Charlotte, que integra o mesmo complexo marinho.

A região concentra espécies endêmicas. Também sustenta a pesca artesanal, o turismo e a biodiversidade marinha brasileira. Por outro lado, sofre ameaças da pesca, da extração de petróleo, e até mesmo da especulação imobiliária.

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Mudanças climáticas e poluição aceleram a degradação

O estudo associa a perda de corais no Banco de Abrolhos a múltiplos fatores.

As mudanças climáticas elevam a temperatura do mar. O aquecimento provoca eventos de branqueamento. O oceano também absorve mais CO₂, o que reduz o pH da água e enfraquece os esqueletos calcários, em outras palavras, o aquecimento global está provocando a acidificação da água dos oceanos numa velocidade que impressiona os cientistas.

Segundo o Relatório Global de Pontos de Inflexão 2025 os recifes de corais de águas quentes atingirão um ponto de inflexão quando as temperaturas globais atingirem entre 1 °C e 1,5 °C acima do que eram na segunda metade do século XIX. Atualmente, com os efeitos do aquecimento global saindo do controle, enfrentamos um aumento da temperatura de cerca de 1,4 °C, ou seja, estamos muito próximos do ponto de inflexão.

E, além disso, poluição costeira agrava o problema em Abrolhos devido a pequena distância da costa. O aumento de sedimentos e nutrientes favorece algas oportunistas. Elas competem com os corais por espaço e luz.

A população do coral cérebro, endêmico, diminuiu em 45%.

O resultado aparece nos dados. O ecossistema já não funciona como antes.

Coral-de-fogo, espécie que só existe no Brasil

O caso mais grave envolve o coral-de-fogo, espécie que só existe no Brasil. No Banco dos Abrolhos, ele já está em  colapso. Sua cobertura, que era inferior a 2% no início do estudo, encolheu ainda mais depois da onda de calor.

Por falar no coral-de-fogo, recentemente foram descobertos as maiores concentrações destes recifes nos montes submarinos da cadeia Fernando de Noronha e cadeia Norte do Brasil. Estas áreas possivelmente serão transformadas numa nova e imensa área marinha protegida conforme comentamos.

Pesquisador analisa exemplar saudável de coral-de-fogo (Millepora alcicornis) no Banco dos Abrolhos, no extremo sul da Bahia. Foto: Rodrigo Moura/UFRJ.

Contudo, com a morte das espécies maiores e estruturalmente mais complexas em Abrolhos, o recife mudou de perfil. O espaço deixado por esses corais passou a ser ocupado por espécies menores e oportunistas.

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Conhecidos como corais “ervas daninhas”, esses organismos crescem rápido e vivem pouco. Não constroem recifes robustos. Em 2006, eram o grupo menos abundante no Banco dos Abrolhos. Contudo, até 2023 sua presença aumentou mais de 150%.

O resultado é um ecossistema mais simples, mais frágil e menos capaz de sustentar a biodiversidade que sempre caracterizou o Banco dos Abrolhos.

Lista do Patrimônio Natural da Unesco

O biólogo Rodrigo Moura, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos autores do estudo, declarou à Folha de S. Paulo: “Quando a gente olha para a métrica de cobertura coralínea total, parece que é um declínio pequeno [de 15%]. Mas o ecossistema recifal se simplificou nas últimas décadas, perdendo funções e complexidade. Em longo prazo, ele tende a fornecer menos benefícios para a sociedade.”

“Há uma perspectiva sombria da transformação do porto de celulose do sul da Bahia, que já é problemático, em porto multimodal, recebendo uma ferrovia que transportaria, entre outras coisas, minérios de terras raras.”

Rodrigo Moura lembrou que o governo brasileiro lançou a candidatura de Abrolhos para a Lista do Patrimônio Natural da Unesco, e concluiu:

“Não adianta só um selo internacional. Se essa é uma região importante para o mundo, o licenciamento ambiental precisa ser mais rigoroso, adequado a essa característica única.”

O que mudou na estrutura do recife

O estudo mostra que Abrolhos não perdeu apenas corais. Ele perdeu complexidade.

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Corais construtores criam abrigo para peixes, crustáceos e invertebrados. Quando eles desaparecem, o recife fica mais simples. Espécies resistentes, porém menos estruturais, ocupam o espaço.

Essa substituição altera toda a cadeia ecológica. Menos abrigo significa menos biodiversidade. Menos biodiversidade enfraquece o ecossistema.

No Banco de Abrolhos, os pesquisadores registraram queda na cobertura coralínea e avanço de algas. Esse padrão já apareceu em outras regiões tropicais. Agora ele se confirma no maior banco recifal do Atlântico Sul.

Mudanças climáticas aceleram o processo

Abrolhos sofre com ondas de calor marinhas cada vez mais frequentes. A temperatura da água sobe além do limite tolerado pelos corais. Eles expulsam as algas zooxantelas e branqueiam.

Eventos repetidos reduzem a capacidade de recuperação.

O oceano também absorve mais dióxido de carbono. Isso provoca acidificação. A água mais ácida dificulta a formação dos esqueletos calcários.

Poluição e pressão costeira

Abrolhos também recebe influência do continente.

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O aumento de sedimentos, nutrientes e poluentes compromete a transparência da água. Corais dependem de luz. Sem luz suficiente, perdem eficiência metabólica.

Atividades costeiras mal planejadas agravam o problema. Desmatamento, ocupação irregular e escoamento agrícola ampliam a carga de nutrientes no mar.

O resultado aparece nos dados. O Banco de Abrolhos muda lentamente de estado ecológico.

O estudo indica que essas pressões atuam juntas. O impacto não ocorre de forma isolada. Ele se acumula ao longo dos anos.

Um alerta estratégico para o Brasil

O Banco de Abrolhos não representa apenas biodiversidade. Ele sustenta pesca, turismo e proteção costeira.

Recifes funcionam como barreiras naturais. Eles dissipam energia das ondas. Reduzem erosão. Protegem comunidades litorâneas.

Se o Banco de Abrolhos continuar a perder corais, o impacto ultrapassa o campo ambiental. Ele atinge a economia regional.

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Por isso, cientistas defendem a ampliação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e maior controle das pressões externas.

O estudo deixa claro: a transformação já está em curso. A janela para evitar perdas maiores diminui.

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