Ushuaia

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    Só por chegar aqui, a viagem valeu a pena. Era tarde quando atracamos no Iate Clube. Não deu pra fazer muita coisa.

    Jantamos e fomos dormir.

    No dia seguinte rodamos bastante. A cidade é charmosa. Bonita, cercada por mostanhas com picos nevados, cheia de vida neste verão. Cosmopolita. Andando na rua ouve-se francês, alemão, inglês, italiano, além do castelhano. Ushuaia se tornou uma esquina do mundo para o turismo de aventura.

    Ushuaia 'vista da minha janela'''
    Ushuaia ‘vista da minha janela”’

    Do ponto de vista náutico não tem o que se compare. Estamos atracados no emblemático Iate Clube de Ushuaia, ao lado do famoso L’esprit d’équipe, veleiro vencedor de uma Witbread sensacional (regata de volta ao mundo que precedeu a Volvo Ocean Race).

    O vencedor da Witbread
    O vencedor da Witbread

    Do outro lado está o Saudades III, de um dos maiores experts na região dos canais da patagonia, autor do guia Patagonia & Tierra del Fuego- Nautical Guide, Giorogio Ardrizzi.

    O Saudade III
    O Saudade III

    Também por aqui o Pelagic, do veterano Skip Novak, e até um clássico, o Nordwind, um veleiro construído em 1939, com dois mastros de madeira. Uma beleza.

    O Nordwind e o Mar Sem Fim
    O Nordwind e o Mar Sem Fim

    Na terça, dia 15, chegou o Kotic, de Oleg Bely. Barco e capitão mitológicos. O clima não poderia ser mais inspirador. E sabe do melhor? O Mar Sem Fim faz bonito, é único barco brasileiro nesta temporada.

    Cardozo grava enquanto conversamos com Oleg Bely
    Cardozo grava enquanto conversamos com Oleg Bely

    No dia seguinte Oleg veio a bordo. É incrível, faz 20 anos que eu e ele nos falamos, sem conseguir nos encontrar. Nos anos 80 comprei um lugar, a bordo do Kotic, para conhecer a Antártica. Estava tudo certo para a partida quando a primeira Guerra do Golfo atrapalhou meus planos. Fiquei em São Paulo para acompanhar a cobertura da Eldorado. No meu lugar embarcou uma reporter do Estadão. Este foi o primeiro desencontro com Oleg.

    Desde então, de tempos em tempos trocamos e mails, ou nos falamos, tentando afinar as agendas.

    No ano passado quase conseguimos nos ver. O Mar Sem Fim estava em Salvador, na mesma época que o Kotic. Oleg aproveitava o fim da temporada austral para fazer uns reparos em seu veleiro. Mas houve novo desencontro.

    Tinha mesmo que ser aqui, em Ushuaia…

    O velho Lobo do Mar, ele merece o título, é muito simpático. Relembramos todos estes casos. Depois sentamos na mesa, com as cartas abertas, e começamos a estudar o roteiro antártico. Ele nos deu diversas dicas sobre lugares especiais. Passamos a manhã batendo-papo.

    Eu, Oleg e Pedrão
    Eu, Oleg e Pedrão

    Fiquei feliz ao autografar meus dois livros, O Brasil Visto do Mar Sem Fim, e Embarcacões Típicas da Costa Brasileira. Os franceses amam os barcos típicos…

    Quando a reunião acabou, senti um grande cansaço. Pedrão e Cardozo, que está com a mulher, Cris, que veio visitá-lo, saíram para passear e me convidaram. Ma recusei. Não aguentava ficar de pé. Deitei na sala e dormi profundamente.

    Acho que foi a adrenalina de finalmente estar aqui, e começar a preparação para o ponto crítico da viagem: a travessia do Drake. O papo com o Oleg desencadeou minha reação, não tenho dúvidas.

    Esta parada em Ushuaia, depois de um mes embarcados, fez bem à toda tripulação. Arejou o ambiente.

    Os dias foram aproveitados para acertar pequenos detalhes a bordo, rever equipamentos, e fazer a manutenção de motores e geradores.

    Enquanto isto, o editor, Adriano, enfurnado na cabine, trabalha sem parar nos programas. Hoje, finalmente coloquei a voz no primeiro. Gostei do resultado final. Cardozo e Adriano são excelentes profissionais. O que me falta em experiência na TV, sobra pra eles. Juntando as forças, o resultado cresce.

    Pelagic é o da direita, com listas vermelhas
    Pelagic é o da direita, com listas vermelhas

    Com tudo pronto, reabastecemos o barco para esta longa etapa: mais um mes de viagem, desta vez quase sem escalas em cidades. A única, prevista na rota, é a pequena Puerto Willians, que fica a 30 milhas de distância.

    De lá vamos para Puerto Toro, que nem chega a ser uma cidade, mas uma pequena comunidade.

    Em seguida esperamos uma janela de tempo, fundamental para atravessar o Drake, em alguma baía atrás do Cabo Horn.

    O Mar Sem Fim precisa 50 horas de tempo bom para cobrir as 450 milhas que separam o extremo sul, da América do Sul, da Antártica.

    Já estamos recebendo previsões do meteorologista Rubens Villela, um dos primeiros brasileiros a ir para a Antártica.

    É bem provavel que a gente passe o Natal navegando.

    Já pedi nosso presente: tempo bom na travessia.

    Boas festas.

    (A partir desta postagem devo ficar um bom tempo mandando apenas texto. De bordo não tenho condições de mandar fotos. A conexão satelital não permite).

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