De São Luis, Maranhão, para Luis Correia, Piauí

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    Sábado, 2 de julho, 2005.

    Chegamos a São Luis três dias atrás, na quarta feira, dia 29. E trabalhamos na gravação do centro antigo da cidade, tombado pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade. Em nossas andanças fomos acompanhados por Luiz Phelipe Andrés, mineiro, apaixonado pelo Maranhão, e pelo patrimônio histórico brasileiro em geral, que escolheu São Luis para viver. De tão envolvido com a cidade, acabou chegando a Secretário Estadual da Cultura, alguns anos atrás. Posteriormente foi o coordenador do estudo exigido pela Unesco, para qualquer cidade que queira se tornar Patrimônio da Humanidade. Hoje, Luiz Phelipe, é Superintendente do Patrimônio Histórico do Estado do Maranhão. Estávamos em excelente companhia.

    Ele nos levou em alguns dos prédios mais emblemáticos, como o Palácio dos Leões, atual sede do governo, a igreja Matriz, o convento das Mercês, a Fonte do Ribeirão, etc. Andamos pelas ruas mais importantes, sempre ouvindo as explicações sobre as pedras de Cantaria, espécie de mármore português, que vinha como lastro nos porões dos navios, e aqui se transformaram em calçadas das ruas, ou sobre a função dos azulejos colocados nas fachadas dos edifícios mais ricos, e que, além de embelezarem, demonstravam o status superior do proprietário. Além disto, os azulejos são muito mais resistentes que o simples reboco das outras casas, ajudando a manter o clima mais fresco, uma vez que refletem o sol, não permitindo que as paredes fiquem quentes como fornos de pizzas. Foi ótimo contar com a ajuda do Luiz. Tenho certeza que o programa sobre esta cidade vai ficar muito mais interessante e completo, tendo as suas explicações como fio condutor.

    Visitamos ainda duas cidades do outro lado da ilha de São Luis, que ficam às margens da baía de São José : Raposa, e São José do Ribamar. Ambas tiveram sua origem em colônias de pescadores, e são famosas, sobretudo, pela quantidade de bianas, estes lindos barcos a vela tradicionais, com a proa lançada, bem elevada, e não em “V”, como as canoas tradicionais, mas chatas, conhecidas como proas “pé de chinelo”. Originariamente, as bianas são do Ceará, mas atravessaram o litoral do Piauí, tendo ótima acolhida no Maranhão, onde se tornaram, talvez, numa das embarcações preferidas dos pescadores artesanais. E são lindas (veja fotos). De pequeno porte, armadas com duas velas- estai e carangueja- e um leme de grandes proporções que serve também como bolina, além de governar, elas são sempre coloridas, tanto o velame, como o casco, e extremamente elegantes quando navegam. Foi um show de grande beleza plástica assistir estas embarcações voltando de um dia de pescaria na praia da Raposa. Aproveitamos para visitar um grande amigo do Luiz Phelipe, construtor de bianas, João dos Reis Calixto, mais conhecido como Mestre Jonas (veja fotos), que, aos 82 anos, extremamente ativo, inteligente, e muito simpático, dignifica seu ofício até hoje, a carpintaria naval, construindo as mais belas bianas que navegam por lá.

    Mas tem mais : em São Luis, visitamos ainda a menina dos olhos do Luiz Phelipe, o estaleiro escola, que ele idealizou e construiu, usando um antigo e decadente prédio, hoje tinindo de novo em sua reforma, onde no passado funcionou uma fábrica de beneficiar arroz ( vide fotos). Este estaleiro será a grande, e fundamental, contribuição do Phelipe, um mineiro que “sofre da nostalgia do mar”, como ele mesmo diz, para a preservação das técnicas centenárias da construção naval artesanal, hoje ameaçada.

    A idéia é simples e engenhosa: levar para este centro náutico os melhores mestres carpinteiros em atividade, para que, ao mesmo tempo em que constroem seus barcos, possam ensinar o ofício aos mais jovens. Hoje eles trabalham ao ar livre, sem o menor conforto, no mangue mesmo, muitas vezes no quintal de suas casas. Entre outras dificuldades, são obrigados a parar o trabalho quando chove. Suas ferramentas são poucas, velhas, e rudimentares, e o conforto, ou segurança no trabalho, iguais a zero. O prédio do estaleiro de São Luis tem alojamento, restaurante, e área coberta com rampa de acesso ao mar, além um amplo espaço para a veleria, e todas as condições para tirar estes mestres da indigência, e dar a eles um mínimo de dignidade no trabalho.

    E depois destas visitas nosso programa sobre São Luis estava concluído. Restava seguir caminho em direção ao sul, continuando a descida da costa brasileira.

    Assim, nesta madrugada, às cinco horas da manhã, levantamos ferro em direção a Ilha de Santana, 45 milhas abaixo de São Luis.

    A tripulação do Mar Sem Fim estava meio baleada. Ontem fomos numa festa, no Convento das Mercês, onde assistimos uma primorosa apresentação, por parte dos melhores e mais famosos grupos do Boi Bumba do Maranhão. Não vou me estender muito. Apenas adianto que pretendo voltar. Faço questão de um dia trazer meus filhos, para que eles assistam ao espetáculo. E torço que a festa continue como esta que vi, sem influências que acabam tirando sua originalidade, transformando a festa popular num evento “holiudiano”, como aconteceu com o carnaval.

    E por estarmos todos cansados, dormimos, eu, Paulina e o cinegrafista Cardozo, quase até a hora da chegada, na ilha de Santana.

    Só me levantei quando faltavam umas 10 milhas, ou pouco mais de uma hora de navegação. Assim pude acompanhar nossa entrada na ilha de Santana. Como sempre este é o momento mais crítico de toda a navegação. As pessoas imaginam que os acidentes com barcos acontecem no mar, mas 90% deles ocorrem quando um barco se aproxima de terra. Felizmente temos a bordo, nesta etapa, um marinheiro que conhece a região. Sua principal curiosidade, talvez seja o apelido, Chico Bem- Feito, e entramos sem maiores problemas.

    Em seguida navegamos mais meia hora, através de um furo, para finalmente fundearmos em frente ao farol da Ilha de Santana.

    Nem bem o Mar Sem Fim ancorou, e já descemos para conhecer a vila, e o farol. E fizemos questão de subir os 49 metros da torre em cuja extremidade fica o mecanismo que, com sua luz, auxilia os navegantes. Visão deslumbrante lá de cima, e um papo agradabilíssimo e divertido com o sargento Meireles, destacado pela Marinha do Brasil, para cuidar do equipamento. Mas não vou contar, ainda, as histórias que ouvimos. Estou muito cansado. São onze horas da noite, e tivemos um dia puxado. Hora de descansar. Amanhã tem mais.

    Domingo, 3 de julho de 2005.

    Logo depois do café, descemos de novo para novas conversas com o sargento Meireles, que está aqui há um mês, e ainda vai ficar mais cinco, até completar o período completo de permanência em Santana, exigido pela Marinha.

    Para nós não deixa de ser exótico, e interessante, encontrar, e conversar com gente como ele. Suas histórias mais parecem romance, ou filme de cinema.

    O sargento Meireles não procura dissimular sua situação, e fica eufórico ao nos ver. Ele é cativante, fala sem parar. Conta histórias da ilha, de sua família, e de sua vinda para cá. Relembra com nostalgia os lugares que conheceu embarcado em navios da Marinha, e fica triste ao saber que hoje mesmo vamos embora. Mas não procura esconder este fato, abre o jogo, e conta da felicidade de poder conversar com os poucos visitantes que, vez ou outra, aparecem.

    Meireles nos levou na casa de seu Getúlio, de 76 anos, casado com dona Lurdes (vide fotos). Ele atualmente tenta criar Tainhas em cativeiro, depois de uma frustrada empreitada na área da carcinicultura. Passamos a manhã ouvindo as histórias do casal. Visitamos os tanques de criação, e depois de um café com bolo, que nos foi oferecido, nos despedimos. A vila de pescadores de Santana deve ter cerca de 150 a 200 moradores, não mais, e como todas que conhecemos até agora, é mais uma comunidade de brasileiros excluídos. É triste ver o abandono do Estado em relação aos habitantes da costa. Muitas vezes eles estão próximos das grandes cidades, mas dada à dificuldade de acesso, vivem praticamente abandonados. Grande parte não tem documentos. Médicos são raridade, escolas, quando existem, são precárias, a pobreza é a regra. O clima é inóspito para viver. O sol é forte e persistente. Nem sempre existem sombras. E o vento poderoso bate direto, quase 24 horas por dia. Para completar, nestas áreas o Estado não existe. As pessoas sobrevivem por que são fortes.

    Estes povos do mar, que são fruto da miscigenação entre índios, europeus, e escravos, são descendentes das primeiras levas da colonização. Uma espécie de arquivo vivo, de usos, tradições, e costumes centenários. Às vezes meu sentimento é ambíguo em relação a eles, ora de comiseração, ora de admiração. E esta dualidade vem de sua fibra fantástica, por um lado, e de seu abandono, e conseqüente, decadência, por outro.

    Nos primeiros dois séculos após a descoberta, o Brasil era exatamente igual a esta parte que agora visitamos. Desde aquele tempo o elo entre os povoados eram as embarcações que eles mesmos construíam, cada uma feita especialmente para navegar numa determinada área, com clima, e geografia, bastante diferente das outras. Daí a imensa riqueza e diversidade de embarcações típicas ainda hoje, além de natural habilidade na arte da marinharia.

    Eles são pescadores artesanais acima de tudo, produzem, mas poderiam render muito mais, se houvesse um mínimo de sensibilidade do poder público.

    De acordo com dados do trabalho ” Estimativa Da Pesca De Água Doce E Marinha”,de autoria de José Ribeiro Borghetti, da Assessoria da Pesca e Aqüicultura, do MAARA- Brasília, há no Brasil cerca de 700 mil pescadores. No total, quatro milhões de pessoas dependem deste ofício no país, e 60% de todo o pescado, vem da atividade artesanal. A pesca industrial, no Brasil, sempre foi, e continuará a ser, pequena, com a honrosa exceção da foz do Amazonas. Simplesmente por que nossa costa não é das mais piscosas, diversos estudos já apontaram as evidências. Mas apesar disto, quando o governo investe, é na pesca industrial. A SUDEPE (Superintendência do Desenvolvimento da Pesca) na década de setenta, torrou milhões ao oferecer financiamentos generosos para frotas industriais, pleiteados, e conseguidos por empresários de outros ramos, que pouco ou nada investiram no objetivo do financiamento. O descalabro foi tamanho, que mesmo tendo sido criada pelos militares, na época da ditadura, a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca acabou sendo extinta, por que gastou demais, e produziu de menos.

    E jamais nossos governantes investiram na pesca artesanal, oferecendo, por exemplo, financiamentos para geradores, câmaras de gelo, entrepostos, etc. Na maioria de vezes atrapalhou, como quando a autoridade marítima exigia plantas assinadas por engenheiros, para liberar os barcos. Ocorre que eles são feitos por mestres, a maioria analfabetos, mas com notória habilidade e saber. Mesmo assim a exigência absurda foi mantida, e a frota acabou se tornando ilegal. Ou ainda quando a mesma autoridade, a guisa de “normas de segurança”, exigia que estes pobres coitados tivessem a bordo equipamentos de salvatagem, caríssimos e sofisticados, que eles não podiam comprar… Quando o governo não atrapalha, como nestes casos, também não favorece. O pescador que se vire para conseguir a proeza de escoar o produto de seu trabalho. E ainda assim, ele representa 60% do total da pesca no país. Imagine se o governo desse uma mãozinha e não desajudasse.

    Aqui mesmo em Santana, verificamos os problemas causados pela falta desta infraestrutura. Num destes dias, um pescador acertou a mão, e tirou do mar mil quilos de xaréu. Sua biana a vela quase não agüentou trazer o pescado até a ilha onde mora. E em vez de satisfeito, ele correu desesperado atrás de óleo diesel, que não tinha, para poder levar o pescado, a motor, mais rápido que na vela, a tempo de não perder a carga, até mercado de São José de Ribamar, aqui do lado. Não fosse o sargento Meireles ter emprestado o combustível, e este pescador teria o produto de seu trabalho estragado pela falta de meios para conservá-lo fresco. É isto aí. Dinheiro público para financiar partidos políticos, até que dá pra conseguir. É só falar com “os homens” certos. Mas para a pesca artesanal, ou o saneamento básico, ou a coleta de lixo, ou um monte de outras obrigações importantes do governo, nem pensar.

    Talvez o maior problema destas pessoas que vivem pela costa seja a desunião. Vários grupos, mais ou menos excluídos, que se reuniram em torno de uma liderança, no mínimo conseguiram dar alguma notoriedade para suas causas. As autoridades de Brasília adoram parecer sensibilizadas. Se o líder do movimento, ainda por cima, for um notório fora da lei, e usar bonézinho, então a coisa toda fica muito mais fácil. É só marcar uma audiência com o presidente. O Chefe do Executivo, em seu primarismo, demonstra grande interesse em oferecer à Nação este gênero de espetáculo público, ao abrir sua agenda para tal tipo de gente. E mais regozijo parece sentir, se puder, ato contínuo, travestir-se com suas vestes. Este estranho hábito, praticado com obstinado rigor, tem garantido a Sua Excelência, incontáveis minutos nos jornais noturnos da TV. E a pantomima acaba sempre por chamar a atenção de toda a sociedade.

    Enfim, tínhamos que continuar nossa viagem. Suspendemos e iniciamos a navegação, de 25 milhas, até a comunidade de Primeira Cruz, do outro lado da baía do Tubarão. Foi bastante impressionante a viagem. Navegamos paralelamente as arrebentações do mar, que acontecem na barra, devido ao assoreamento. Durante quase todo o tempo foi assim. A bombordo (lado esquerdo) do Mar Sem Fim, ondas estouravam. A boreste (direita), se investíssemos muito, encalharíamos.

    Seguimos por esta estreita faixa, procurando prestar atenção nas informações que nos dava o Chico Bem Feito. Normalmente os maranhenses falam sem sotaque, de modo claro e natural, mas este nosso amigo desafina até quando diz “bom dia”. Ele fala rápido e de modo cantado, o que dificulta ainda mais a compreensão. No primeiro dia não entendi uma frase. Já havia até desistido até que hoje, prestando atenção, entendi um pouco mais o que ele procura explicar. O fato é que chegamos sem problemas na bela e pitoresca vila de Primeira Cruz, que fica no início dos Lençóis Maranhenses, em seu lado norte. Esta é a região de dunas e lagos mais famosa do Maranhão. Na outra extremidade, 45 milhas ao sul, fica Barreirinhas.

    Primeira Cruz é bonita. Dá impressão de ser bem organizada, apesar de ter ,na periferia, um início de processo de favelização. A vila é especialmente pitoresca. Ela foi erguida nas margens do rio Piriá. Chegamos ao final da tarde, já quase escurecendo, por isto nós três não desembarcamos. No jantar, de noite, ainda comemoramos os 27 anos de Paulina. Teve bolo, feito pelo Alonso, e champanhe.

    Em seguida vim pra mesa de navegação, relatar o dia. Agora um bom banho no rio, depois cama.

    Segunda- feira, 4 de julho de 2005.

    Estes dois últimos dias não têm sido fáceis para mim. Peguei uma gripe chata em São Luis, e embarquei com ela. Febre e que tais. No barco acabo tomando sol, vento, ou os dois. Por mais que me proteja, sempre que possível debaixo de toldos, ou procurando uma sombra assim que desembarco, com camisas de manga longa, chapéu, e muito protetor solar, estou sempre me expondo e dificultando a cura. Mas vamos ao que interessa.

    Logo cedo fomos combinar com um barqueiro nativo, para que ele que nos levasse, umas dez milhas rio acima, até Caetés, antigo entreposto da Petrobrás, que se transformou numa vila. Ali nos esperava um carro 4 x 4, para nos levar até Santo Amaro, extremidade norte dos lençóis, e cidade onde foi filmado o filme com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. O Mar Sem Fim fica aqui onde está, em frente à Primeira Cruz, onde há profundidade suficiente para seu calado de 1 metro e 80 cm.

    Às 10 horas da manhã atracou em nosso contrabordo uma biana com casario, que subiu o rio conosco, por pouco mais de uma hora, e nos deixou na modorrenta Caetés. O calor era de rachar, como tem sido a regra. Assim que desembarcamos procurei desesperadamente uma sombra em volta. E não havia nenhuma. Tornei a olhar e descobri um casebre, cercado de paus a pique, tipo paliçada mesmo, com uma placa que lembrava a de um bar. Fui chegando mais perto, bem devagar, desconfiado, dado o desmazelo, mas vi que era mesmo um bar. Entrei. Havia sombra lá dentro, além de três crianças, uma delas um bebê com menos de um ano, e dois animais soltos: um cachorro pulguento, e um porco esquálido. Tudo no mesmo ambiente. Ah, esqueci de falar que o dono se balançava numa rede, no meio disto tudo, lendo um gibi sobre lendas bíblicas. Sei do conteúdo por que fui xeretar.

    Aquele me lembrava um bar de Dirkou, no deserto da Líbia, em que estive certa noite, em pleno Paris- Dakar. Só que o de Caetés era pior, cheguei à conclusão. Mesmo assim puxei uma cadeira, sentei na única mesa que havia, e pedi um refrigerante gelado para a irritação do proprietário. Deitado em sua rede, ele ouviu e resmungou qualquer coisa, que não entendi, para a mulher, que dava banho numa das crianças, por detrás de um muro de cimento que havia no cômodo. Afinal a coca veio, e matou a sede. Quem não veio foi o motorista que havíamos contratado. Por sorte duas horas depois, apareceram dois 4 x 4, trazendo gente da polícia que escoltava dinheiro para o banco. Acertamos um preço com o motorista de um dos carros, e tocamos para Santo Amaro, distante uma hora.

    No caminho passamos por trechos de mata fechada, muita areia fofa, restingas, campos, e rios de diversos tamanhos. Uma aventura. Mas chegamos. Vistamos as locações do filme, as dunas impressionantemente grandes, com lagoas também imensas em seu interior (vide fotos). Cumprimos nosso objetivo para hoje. As gravações foram um sucesso.

    Às oito da noite estávamos de volta ao Mar Sem Fim. Todo mundo cansado, mas feliz.

    Terça- feira, 5 de julho, 2005.

    Logo depois do sol nascer o Alonso já me chamava avisando que as bianas estavam saindo para a pesca.

    Saí correndo, peguei meu equipamento fotográfico, chamei o Cardozo, o cinegrafista, e fomos de bote atrás delas, que já estavam na foz do rio.

    Que show ! Como são bonitas, rústicas, e funcionais ao mesmo tempo. Tirei centenas de fotos, e o Cardozo não deixou por menos. Vale a pena conferir as fotos, para ver o colorido, a forma dramática de sua vela, os desenhos que elas fazem no horizonte, e a habilidade com que são conduzidas. Foi uma manhã fantástica. A maioria das canoas a vela, desta região, é formada por igarités com vela de espicha. Também se vê muitas bianas, a vela ou motor, com, e sem casario. Por fim, com sorte, você ainda verá um ou outro bote, com vela rabo de galo (o mesmo tipo usado em jangadas), construídos em Barreirinhas. Fiquei horas passeando com o botinho, admirando, conversando com os mestres, gravando e fotografando. Voltei pro Mar Sem Fim de queixo caído com tanta beleza, e doido pra um dia ter uma canoa destas. Eu iria abafar na Semana de Vela de Ilhabela…

    Descansamos um pouco do forte calor, terrível mesmo com o vento, e depois descemos para conhecer a vila.

    Primeira Cruz leva este nome porque foi aqui que os Portugueses colocaram o primeiro marco quando, em 1614, estavam a caminho de São Luis, para libertar a cidade do domínio francês.

    É uma vila bem charmosa, cheia de coqueiros, nas margens do rio, que nesta altura é relativamente largo. Muito verde em volta. Algumas poucas dunas atrás. E, no geral, a cidade é limpa, apesar de percebermos, mais uma vez, a falta de saneamento básico, coleta de lixo, etc. Mas os moradores parecem ciosos de seu espaço, e cuidam dele com carinho, dá pra notar. A maioria das ruas é calçada, mas há algumas de areia pela periferia. Cerca de onze mil pessoas moram aqui. Visitamos uma salina local, indústria típica de toda esta área, além de um estaleiro artesanal.

    Saímos com uma belíssima impressão do lugar. Adorei ter vindo, conhecido, e assistido na prática, a tradição dos barcos artesanais, tudo isto cercado por um cenário deslumbrante.

    De tarde estávamos de volta, preparando o barco para a etapa de amanhã. Vamos descer a costa, cerca de 45 milhas para o sul, até a foz do rio Preguiças, que é bem complicado para se entrar. Venta muito, a profundidade é baixa, e quase toda a foz está assoreada. Ainda assim vamos tentar. O rio todo é muito bonito, já estive lá antes, e subindo seu curso dá pra chegar até Barreirinhas, cidade mais próxima, na extremidade sul, dos lençóis maranhenses.

    Vou até lá “ver a cara” da barra, sentir seu “cheiro”, e, se por acaso for fácil, entramos. Se não, seguimos em frente, em direção à barra de Tutóia, já no início do Delta do Parnaíba.

    Quarta e quinta-feira, 6 e 7 de julho 2005.

    14hs 20. Voltei a ter tempo para relatar o que se passou conosco neste interlúdio.

    Não deu para entrar na barra do Preguiças. Ela é rasa demais, com arrebentação, apesar de o vento ter sido camarada. Tivemos um leste- sueste fraco, para as condições daqui, que variou entre 10 e 15 nós. Vento sem força para levantar o mar. Navegamos com pequenas ondas, de um metro, a um metro e meio, no máximo.

    Mas, com o Mar Sem Fim parado na frente da barra, a uma profundidade de dois metros e meio, e diminuindo conforme avançávamos, e sem conseguirmos ver a entrada do canal, com ondas estourando em volta, resolvi desistir.

    “Alonso: bota aí 180 graus, vamos abortar”! – eu disse, pedindo que ele acrescentasse 180 graus ao rumo seguido, e assim completasse uma meia volta completa, fazendo com que o Mar Sem Fim rumasse para o lado oposto.

    Navegamos para fora, algo como 6 a 8 milhas, e, então, arribamos para a barra de Tutóia, 30 milhas abaixo. Chegamos de noite, as nove e pouco. Estava escuro, não havia lua. Quando fundeamos, oito milhas para fora da cidade, já eram quase dez horas. O mar fazia o veleiro “escorregar” nas ondas, enquanto, no horizonte, raios e trovões denunciavam o Pirajá que ia chegar. Somando estes indicadores, e tentando não parecer tenso, eu olhava fixamente para o relógio de vento, que apontava 20, 25 nós. Todo mundo estava cansado, depois de um dia navegando, ainda assim, não poderíamos relaxar naquela noite. Pedi um turno de duas horas, por parte de cada um. Como estávamos em quatro, e eram dez da noite, se cada um perdesse apenas duas horas de sono, às seis da manhã, com dia claro, estaríamos prontos para entrar barra adentro. Em seguida fui dormir.

    Acordei esta manhã, sem ter percebido que não me chamaram para meu turno. Alonso e Chico Bem Feito se viraram sozinhos. Que bom ! De noite é terrível ter que ficar lá fora, no cockipit, servindo de alvo pra a chuva e o vento. Na maior solidão, sua única companhia é ouvir a modulação de tom produzido, a cada variação do vento, nos estais do veleiro.

    E já que tudo aquilo era passado, restava puxar o ferro e entrar barra adentro. Apesar de a carta náutica indicar que a última medição foi feita em 1978, e das profundidades marcadas serem muito baixas, a nossa entrada foi fácil. Em nenhum momento tivemos menos que três metros de profundidade, da barra até a cidade. Ao chegar achamos um lugar, no rio Comum, que banha a cidade, com seis metros. Ali jogamos nossa âncora.

    Agora já são 15hs 14. Esperamos, para qualquer momento, a chegada de uma voadeira que contratei, para nos levar até a ilha do Caju, que fica no meio do Delta do Paranaíba, distante 25 milhas de onde estamos. Enquanto o Marzão descansa em Tutóia, a tripulação segue até esta ilha para mais gravações. Na volta nos falamos

    Sexta- feira, 8 de julho 2005.

    O relógio de bordo marca sete horas da noite. Acabamos de voltar da ilha do Caju. Passamos uma bela noite por lá. Nesta manhã, logo cedo, fizemos um longo passeio a cavalo que atravessa todos os ecossistemas da ilha. E são muitos : praias, mangues, dunas, floresta, campos, restinga, e área alagada. É ótimo, num mesmo dia, poder passar por tantas regiões diferentes. Isto mostra a riqueza da ilha, e suas diversas coberturas vegetais. E é bom para o programa mostrar tanta variedade num espaço tão pequeno. A ilha do Caju, que tem 100 quilômetros quadrados, é uma das cerca de 80 que o Delta do Parnaíba abriga. O hotel em que nos hospedamos é pequeno, portanto causa um impacto mínimo ao meio ambiente.

    Antes todos os hotéis da costa tivessem a responsabilidade que este tem. Não adianta erguer um imenso e maravilhoso complexo turístico, em áreas normalmente frágeis da zona costeira, sem infraestrutura para agüentar grandes levas de visitantes. Em pouco tempo a região toda será degradada, e depois disto, nunca mais será a mesma. Melhor estudar primeiro, qual a capacidade do lugar, para depois abrir as portas . Porque, assim, o turista poderá ver uma área original, ainda com suas características principais preservadas. Que não se faça aqui, no norte do Brasil, cuja zona costeira ainda não foi plenamente ocupada, o mesmo que no sudeste, onde o litoral foi quase todo degradado, depois de uma ocupação não planejada, fruto de especulação imobiliária, da falta de informação, da omissão do Estado, irresponsabilidade, etc. Ninguém tem o direito de estragar áreas públicas, como ilhas, costões, ou praias, por exemplo, erguendo construções, mudando um cenário que é de todos os brasileiros desde que o mundo se formou milhares de anos atrás. E foi exatamente isto que aconteceu no litoral de São Paulo, do Rio de Janeiro, e de vários outros Estados. E a questão não é apenas estética. Noventa por cento da vida marinha começa seu ciclo de vida na zona costeira, justamente a parte mais frágil, e a que sofre os maiores impactos.

    A ocupação desordenada da costa é uma perigosa contribuição para que os oceanos se tornem um imenso deserto inanimado. Para mim é também um crime de lesa humanidade, já que os mares não pertencem a nenhum país, mas a todos que habitam o planeta. Talvez tenha sido este ponto, a desastrosa ocupação da costa sudeste, o fator principal que me levou a partir para esta expedição de mais de ano, descendo o litoral brasileiro de norte a sul, para chamar a atenção da sociedade, ao mesmo tempo em que procuramos denunciar os crimes que aconteceram durante sua ocupação.

    É uma tarefa ousada e, talvez, quixotesca, sei disso. Mas é preciso acreditar no que se faz, caso contrário, melhor ficar em casa “com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Como diria meu amigo, Raul Seixas.

    Bem, nesta madrugada saíamos para o mar novamente. Vamos descer mais 55 milhas, até Luis Correia, o primeiro dos cinco braços que formam o Delta do Parnaíba. Tutóia, onde estamos, é o quinto, e último. Vamos passar por fora dos outros três, até entrarmos no porto novamente. Ali o Mar Sem Fim vai aguardar pela próxima etapa, que deverá nos levar pelo litoral do Ceará.

    Amanhã conto como foi.

    Sábado, 9 de julho, 2005.

    Pegamos uma marzão respeitável. Os ventos estavam fortes e constantes, de sueste, bem na nossa proa. Variando entre 20 e 25, e até 26 nós nas rajadas. Como navegávamos na direção contrária, o vento aparente chegava aos 31 nós, nos picos. E levantou um belo mar. As ondas vinham do sul, com altura de dois a três metros. Balançamos um bocado. E avançamos mais lentamente que o normal. Algumas vezes o GPS marcou quatro, cinco nós, quando nossa velocidade normal seria quase sete nós.

    O importante é que o Mar Sem Fim, que completa um no fora de casa em Agosto, se comportou belamente, não dando bola para as condições, e seguindo seu caminho.

    No final do dia estávamos entrando em Luis Correia, pequena cidade costeira do Piauí, o quarto Estado que visitamos nesta viagem.

    Na próxima etapa vamos até Fortaleza.

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