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USS Abraham Lincoln: meses no mar levam tripulação ao limite

USS Abraham Lincoln: meses no mar levam tripulação ao limite

O USS Abraham Lincoln voltou aos Estados Unidos depois de uma das missões mais longas e duras de sua história recente. Foram 286 dias consecutivos no mar, mais de 200 deles em operações de combate no Oriente Médio. Agora, a própria Marinha dos Estados Unidos revelou um dado ainda mais grave: oito militares do grupo de ataque do porta-aviões tentaram suicídio durante a missão. Mais adiante veremos o que aconteceu e como a Marinha respondeu à crise. Comissionado em 1989, o USS Abraham Lincoln é o quinto porta-aviões da classe Nimitz e pode transportar entre 85 e 90 aeronaves.

USS Abraham Lincoln
O USS Abraham Lincoln. Imagem, Valerie Lynn Maigue/US Navy/File via CNN Newsource.

O Abraham Lincoln leva cerca de 2.800 tripulantes responsáveis pelo navio, aos quais se juntam aproximadamente 2 mil integrantes da ala aérea. São, portanto, quase 5 mil pessoas vivendo durante meses em uma cidadela flutuante, capaz de projetar caças multifunção que carregam mísseis ar-ar e bombas guiadas de precisão, em outras palavras, armas inteligentes capazes de atingir alvos do tamanho de uma janela a quilômetros de distância.

O  porta-aviões é movido a energia nuclear, o que significa que tem dois reatores nucleares que geram colossal energia, – o suficiente para impulsionar o navio de 100.000 toneladas em altas velocidades, além de fornecer eletricidade para suas operações, aeronaves e sistemas de armas. Sua energia nuclear torna efetivamente auto-suficiente na propulsão por décadas sem depender de combustível convencional.

Imagem, Redes Antissociais.

Foi, provavelmente, o devastador poder dessas belonaves que inspirou o mimado presidente norte-americano a propor uma nova classe de navios nucleares. A ideia provocou polêmica entre militares: a classe Trump.

Missão iniciada no fim de 2025

A missão iniciada no fim de 2025 fugiu da rotina. O USS Abraham Lincoln seguiu para o Oriente Médio, onde permaneceu durante a guerra entre Estados Unidos do belicoso Trump, Israel e Irã, iniciada no fim de fevereiro de 2026 e ainda sem desfecho. Em março, cerca de 20 mil marinheiros mercantes permaneciam presos em navios no Golfo Pérsico, segundo a Organização Marítima Internacional. A entidade também contabilizava 21 ataques contra a navegação comercial desde o início do conflito.

Imagem, Redes Antissociais.

Ao mesmo tempo, essa concentração prolongada de embarcações criou condições para outro problema: o risco de bioinvasão por navios retidos em Ormuz. Cascos parados por longos períodos acumulam organismos marinhos que podem viajar depois para outros portos e ecossistemas. Esta poderá ser  mais uma grave consequência mundial da  visão míope do inquilino da Casa Branca.

Tailândia, 2 de setembro de 2026

Mas a missão, prevista para cerca de sete meses prolongou-se por quase nove. Quando atracou na Tailândia, em 2 de setembro de 2026, o USS Abraham Lincoln completava 286 dias de mar, grande parte deles sem escalas.

USS Abraham Lincoln chegando na Tailândia. Imagem, Redes Antissociais.

E nem mesmo um porta-aviões nuclear atravessou esse período impune. Tripulantes e familiares relataram falta de alimentos frescos e produtos de higiene, problemas nos encanamentos, banheiros quebrados, falhas nas lavanderias e até contaminação da água. Parte das dificuldades aumentou depois que ataques iranianos atingiram instalações americanas no Bahrein, um centro logístico para os navios dos Estados Unidos no Golfo.

Imagem, US Navy.

Ou seja, além da pressão de uma operação de guerra, milhares de pessoas passaram meses confinadas num bunker flutuante, onde as condições de vida se deterioraram. Foi nesse ambiente que surgiram relatos sobre a saúde mental da tripulação. E isso despertou uma curiosidade inevitável entre nós, simples mortais: afinal, como vivem os marinheiros embarcados num monstro deste tamanho?

A dura rotina a bordo do USS Abraham Lincoln

A rotina a bordo pouco lembra a vida em terra. O USS Abraham Lincoln funciona 24 horas por dia. Enquanto parte da tripulação dorme, outra trabalha. Operações aéreas, manutenção, vigilância, abastecimento e treinamento continuam de dia e de noite.

Imagem, US Navy.

A Marinha descreve jornadas superiores a 12 horas como comuns num porta-aviões. Além do trabalho, os marinheiros cumprem turnos de vigilância, manutenção, exercícios e treinamento. Em algumas áreas, sobretudo as ligadas à aviação e aos reatores, o trabalho precisa continuar sem interrupção.

E, aí, você teria força? Imagem, www.dvidshub.net.

Depois do turno, o descanso é relativo. A maior parte dos marinheiros dorme em alojamentos coletivos, chamados berthings.

Pelo ‘berthings’ do USS Enterprise (CVN-65) é assim que dormem os tripulantes. Imagem, The U.S. National Archives.

Ali ficam dezenas de beliches metálicos, geralmente empilhados, além de pequenos armários para os pertences pessoais.

US Navy.

Quem trabalha no interior do navio passa longos períodos sem ver o exterior. A imensa maioria dos compartimentos não tem janelas. A luz é artificial, o espaço é apertado e o ruído de máquinas, ventilação e operações acompanha boa parte da rotina. Ininterruptamente.

Não existe “fim do expediente” a bordo

Não existe a ideia de “fim do expediente” no USS Abraham Lincoln. Um marinheiro pode terminar seu trabalho e ainda ter exercícios, reuniões, treinamento ou um novo turno de vigilância. A Marinha tenta organizar escalas que preservem períodos de sono, mas admite que exercícios obrigatórios e as exigências operacionais frequentemente complicam a rotina.

US Navy.

Há quatro refeições diariamente — café da manhã, almoço, jantar e a chamada midrats, servida durante a madrugada para quem trabalha à noite. Nas (poucas) horas livres, marinheiros podem estudar, usar a academia, assistir televisão, conversar com os colegas ou tentar se comunicar com a família.

Após o pôr-do-sol, a iluminação dos corredores passa de branca para vermelha. A iluminação vermelha permite que os olhos se adaptem rapidamente à passagem do interior do porta-aviões para o exterior, na ponte de comando escura. Também ajuda a camuflar o porta-aviões, de modo que, quando a tripulação entra e sai pelas portas, os corredores iluminados a vermelho sejam menos visíveis.

Tudo funciona relativamente bem durante uma missão normal. O problema aparece quando semanas viram meses. No caso do Abraham Lincoln, quase nove meses e longos períodos sem pisar em terra transformaram uma difícil rotina numa experiência extrema.

Imagem, www.dvidshub.net.

O confinamento começa a cobrar seu preço

O quadro tornou-se dramático. O Stars and Stripes relatou uma tripulação exausta, moral em queda e marinheiros no limite psicológico. Houve pensamentos suicidas e, em um dos casos, colegas impediram um tripulante de se jogar ao mar. Àquela altura, o USS Abraham Lincoln já acumulava cerca de 250 dias consecutivos no mar e 40 dias seguidos de operações de combate.

US Navy.

Em setembro, o secretário interino da Marinha dos Estados Unidos, Hung Cao, informou que oito militares ligados ao grupo de ataque do USS Abraham Lincoln tentaram suicídio durante a missão. O número inclui tripulantes do porta-aviões, militares da ala aérea, integrantes do estado-maior, dos destróieres de escolta e dos esquadrões embarcados. Segundo a Marinha, nenhuma das tentativas terminou em morte. Dois dos episódios  ocorreram no Lincoln: em março, colegas impediram um marinheiro de saltar do navio; em agosto, outro militar caiu ou se lançou ao mar e acabou resgatado.

Imagem, GB Magazine.

Falta de suprimentos básicos

O senador Richard Blumenthal, — fonte oficial do Congresso, citou falta de suprimentos básicos, contaminação da água, problemas nos encanamentos, deterioração da saúde mental, riscos no convés e problemas no correio. 

Imagem, www.dvidshub.net.

Enquanto isso, a comissão de Serviços Armados do Senado, relatou falta de comida e água, encanamentos quebrados e crises de saúde mental, com relatos de várias tentativas de marinheiros se lançarem ao mar. 

Imagem publicada pelo Business Insider mostra aviadores jogando videogame no lounge renovado a bordo do Lincoln. Foto da Marinha dos EUA.

A deputada Debbie Dingell recebeu relatos de banhos frios ou indisponíveis, lavanderias sem funcionar, comida racionada e de baixa qualidade, encomendas que levavam meses para chegar e dificuldades de comunicação com as famílias.

O novo Centro USO do navio tem quatro espaços de encontro onde os marinheiros podem assistir TV, jogar videogame e jogos de tabuleiro e navegar na internet. Gidget Fuentes.

Salvação veio da ilha Diego Garcia

Já o especialista Thomas Kirkpatrick afirma que a cadeia de suprimentos normal do Lincoln havia sido interrompida quando o Irã danificou gravemente a Base de Apoio Naval no Bahrein, a principal  da Marinha na região. Por causa disso, a Marinha foi forçada a encaminhar todas as operações de fornecimento de alimentos, correio e material através de  Diego Garcia uma pequena ilha britânica a 2200 milhas de distância no Índico. A perda da base do Bahrein paralisou a reabastecimento normal, criando deficiências materiais graves e escassez de alimentos essenciais, produtos de higiene e peças de equipamentos.

Imagem, Redes Antissociais.

Além da comida, diz, o Lincoln ficou sem necessidades cotidianas, como sabão, creme dental e produtos de limpeza, levando a chuveiros mofados. A tripulação teve que lidar com banheiros quebrados e outros problemas de encanamento, uma ocorrência normal em uma cidade de 5.000 habitantes, mas a umidade extrema, alta salinidade e operações contínuas tiveram um forte impacto nos sistemas físicos do navio, levando a desafios persistentes de manutenção.

Corrente da âncora.

Não por acaso, uma das tendências das marinhas atuais é investir em embarcações autônomas. Sem tripulação, elas reduzem o risco humano e evitam concentrar bilhões de dólares e milhares de pessoas em um único alvo.

USS Abraham Lincoln: nove meses no mar levam tripulação ao limite

Os relatos mais graves vieram das famílias dos embarcados no USS Abraham Lincoln.  Em um dos casos, a mulher de um tripulante contou ao Navy Times que o marido tentou pular do Abraham Lincoln depois de meses de sobrecarga e esgotamento.

Em outra reunião, uma esposa contou a autoridades da Marinha que acabara de receber do marido uma mensagem dizendo que esperava não acordar no dia seguinte. Não foi a única.

Marilyn Terrell, investigadora-chefe da National Geographic Traveler, atravessa a pequena porta.

A Marinha, porém, contestou a ideia de uma onda de tentativas de suicídio. Segundo o comando, os registros oficiais não mostravam aumento desses casos. Ainda assim, decidiu enviar mais profissionais de saúde mental para reforçar a equipe a bordo.

Imagem publicada pelo www.reddit.com com a legenda: ‘Uma foto do jantar no USS Abraham Lincoln enviada para a família por um membro da equipe a bordo’.

A escala na Tailândia

A parada na Tailândia durou apenas cinco dias. Depois de 208 dias consecutivos no mar, foi a primeira escala completa.

Um F/A-18F Super Hornet, destacado para o Esquadrão de Caças de Ataque (VFA) 41, descola do convés de voo do porta-aviões da classe Nimitz USS Abraham Lincoln (CVN 72), a 9 de setembro de 2026. Imagem, Redes Antissociais.

Agora, em setembro, o USS Abraham Lincoln já deixou a Tailândia e opera no Mar do Sul da China, dentro da área da 7ª Frota. A Marinha diz apenas que o grupo seguirá em “operações de rotina” no Indo-Pacífico durante a viagem de volta aos Estados Unidos. O destino final é sua base em Naval Air Station North Island, San Diego, mas a Marinha ainda não anunciou publicamente qual será a próxima escala.

Naval Air Station North Island, San Diego. Imagem, Mate 3rd Class Inez Lawson/Nara.

Na Tailândia, a Marinha organizou excursões e atividades de lazer para a tripulação. Foi literalmente uma operação de recuperação do moral depois da longa permanência no mar.

Controle de voo no USS Abraham Lincoln.

Curiosamente, as autoridades de Pattaya reforçaram o policiamento e estabeleceram regras para os cerca de 5 mil marinheiros e fuzileiros que desembarcaram. A cidade queria evitar problemas durante a visita.

USS Abraham Lincoln atracado. Imagem, www.sofrep.com.

O que aconteceu no USS Abraham Lincoln já mudou a preparação dos próximos porta-aviões. A Marinha decidiu embarcar mais comida, produtos de higiene, peças sobressalentes e equipamentos de lazer no USS Theodore Roosevelt, justamente para evitar a repetição dos problemas enfrentados.

Para saber mais, assista ao vídeo

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