Surfe e crise climática: o futuro das ondas em risco
Surfe e crise climática têm uma ligação cada vez mais preocupante. Ao analisar dezenas de ondas famosas em reservas mundiais de surf (WSR), pesquisadores identificaram risco médio ou alto em mais de três quartos dos pontos quanto à sensibilidade à elevação do mar. Além disso, obras que fixam a linha de costa e mudanças no transporte de areia ameaçam as condições que formam essas ondas.

Um estudo publicado na revista Climatic Change avaliou 57 pontos de surfe em oito países, entre eles o Brasil. Os pesquisadores identificaram risco médio ou alto em 79% dos locais quanto à sensibilidade à elevação do mar. Isso não significa que todas essas ondas desaparecerão. Porém, revela a vulnerabilidade de um patrimônio natural que raramente entra no planejamento do litoral.
Uma boa onda depende de uma combinação precisa entre o relevo submarino, a maré e a ondulação que chega à costa. Portanto, proteger o surfe exige cuidar do ambiente que permite sua existência. É aí que a pauta encontra um velho problema brasileiro: a ocupação do litoral sem respeito à sua dinâmica natural.
Assim, o surfe, um dos esportes mais antigos que a humanidade pratica, estima-se que tenha surgido há 2 mil a 3 mil anos, agora está ameaçado pelo nosso modo insustentável de viver.
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O mar não precisa deixar de produzir ondas para prejudicar o surfe. Basta alterar as condições que fazem uma onda quebrar naquele ponto. Com mais água sobre um recife ou banco de areia, a mesma ondulação pode quebrar de outra maneira.
No estudo publicado na Climatic Change, além da sensibilidade à elevação do mar, 75% dos pontos apresentaram risco médio ou alto no critério relacionado à composição do fundo.
O conhecimento dos surfistas sobre surfe e crise climática
Mais de 190 conhecedores das condições locais de surfe contribuíram com a avaliação, segundo a Save The Waves. Eles responderam a um questionário sobre as características de cada ponto e sua vulnerabilidade às mudanças climáticas.
A ferramenta, chamada SurfCAT, considera a sensibilidade à maré, o transporte de sedimentos e a capacidade de adaptação da costa. Além disso, verifica se os planos de adaptação contemplam os pontos de surfe.
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A relação entre surfe e crise climática também envolve a capacidade de adaptação do litoral, que precisa de espaço para mudar. Praias e bancos de areia movimentam sedimentos. Porém, muros e outras estruturas rígidas limitam esses movimentos comprometendo as condições que formam as ondas.
O estudo publicado na Climatic Change inclui a capacidade de adaptação da linha de costa entre os critérios de vulnerabilidade. Nesse quesito, 89% dos pontos analisados apresentaram risco médio ou alto.
Isso coloca as decisões sobre a ocupação costeira no centro do debate. Ao planejar uma obra, é preciso considerar seus efeitos sobre a praia, o fundo e o transporte de areia.
Quanto vale uma onda?
Uma boa onda movimenta pousadas, restaurantes, escolas de surfe e lojas. Por isso, a relação entre surfe e crise climática também preocupa quem depende do turismo para viver.
A Save The Waves desenvolve estudos chamados “Surfonomics” para estimar a contribuição do surfe às economias locais. O programa reúne pesquisas em destinos como Uluwatu, na Indonésia, Mundaka, na Espanha, e Guarda do Embaú, em Santa Catarina.
O princípio é simples: o surfe gera renda sem extrair o recurso natural que sustenta a atividade. Enquanto o ambiente conserva as condições necessárias, novas ondas continuam a chegar. Portanto, comprometer um ponto de surfe também significa colocar em risco uma fonte duradoura de trabalho e renda.
Surfe no Brasil: ondas que sustentam o esporte, o turismo e a conservação
O Brasil tem ondas que atraem surfistas de todo o mundo e movimentam a economia de comunidades costeiras. Os tubos da Cacimba do Padre já receberam o Hang Loose Pro Contest, competição do Qualifying Series da World Surf League. Já a Praia de Itaúna, em Saquarema, recebe o Championship Tour, que reúne a elite mundial do esporte.
Na Guarda do Embaú, a onda mais famosa quebra junto à foz do Rio da Madre. O rio e a movimentação dos bancos de areia ajudam a criar as condições que atraem os surfistas. Portanto, proteger essas ondas exige conservar também a dinâmica da foz e os ambientes ao redor.
Segundo a Save The Waves, o grupo responsável pela gestão local da Reserva Mundial de Surfe da Guarda do Embaú desenvolve projetos de monitoramento da qualidade da água, e recuperação da vegetação nativa para aumentar a capacidade de adaptação da foz às mudanças climáticas.
Ondas consideradas seres vivos em Linhares, ES
Aliás, o Brasil já deu um passo nessa direção. Em Linhares, no Espírito Santo, o município reconheceu legalmente suas ondas como seres vivos. A Câmara Municipal aprovou o projeto em julho de 2024. Em seguida, o prefeito sancionou a lei, que busca proteger esse patrimônio natural.
O Espírito Santo também abriga a maior onda do Brasil para a prática do surfe. Ela se forma a cerca de 4 quilômetros da Praia da Costa, em Vila Velha, sobre um afloramento rochoso conhecido pelos moradores como Baixo dos Pacotes, a onda foi batizada como ‘Avalanche’.
Em Ubatuba, no litoral paulista, a Reserva de Surfe de Itamambuca também aproxima o esporte da conservação. A iniciativa abrange um conjunto de ambientes que inclui rio, praia, restinga, manguezal e Mata Atlântica.
Não há, nas fontes consultadas, uma previsão específica sobre o desaparecimento dessas ondas brasileiras. Contudo, proteger-las significa cuidar dos rios, das dunas e restingas, dos recifes, etc. Além disso, governos precisam considerar esse patrimônio antes de autorizar obras no litoral. Afinal, uma onda pode sustentar gerações de trabalho e lazer. Uma intervenção mal planejada pode comprometer tudo isso.