São Paulo e a adaptação climática urbana
São Paulo e a adaptação climática urbana formam uma combinação urgente. A cidade enfrenta enchentes, ilhas de calor e impermeabilização crescente. Ao mesmo tempo, estudos sobre capitais europeias mostram que as cidades mais preparadas para a crise climática seguem outro caminho. Elas apostam em solo permeável, árvores, água e biodiversidade como infraestrutura. Estocolmo lidera esse ranking. São Paulo já ensaia algumas respostas, mas ainda depende demais de piscinões, canalizações e concreto.
O que mediu o ranking europeu
O ranking europeu, COOLCITY Index 2026, analisou mais de 11 mil cidades da União Europeia e mediu cinco fatores físicos: permeabilidade do solo, vegetação, biodiversidade, água e temperatura. Estocolmo liderou entre as capitais, com nota geral 6,7. Em seguida vieram Vilnius, com 6,4; Riga, com 6,3; Tallinn, com 5,9; Helsinki e Zagreb, com 5,8. A capital sueca se destacou sobretudo na permeabilidade do solo, com 8,4 em 10. Também teve 6,2 em vegetação, 6,7 em condições térmicas, 6,4 em água e 5,6 em biodiversidade. Em outras palavras, Estocolmo venceu porque deixa a água entrar no solo, preserva árvores e usa seus canais, parques e áreas naturais como infraestrutura climática.
Estocolmo, portanto, seguiu o caminho que a ciência recomenda há anos: usar soluções baseadas na natureza. Elas costumam custar menos e entregar mais. É o mesmo princípio que vale para cidades costeiras brasileiras, como já mostramos, e que Santos vem liderando.
São Paulo conhece parte desse caminho, mas ainda anda devagar. O PlanClima prevê jardins de chuva, canteiros rebaixados com plantas e solo filtrante que recebem a água das ruas e calçadas. Em vez de correr direto para bueiros e córregos, parte da chuva infiltra no solo. O plano também prevê bosques urbanos, rotas arborizadas e mais áreas infiltráveis. A direção está correta. A escala, não.
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Jundu em Ilhabela: prefeito vira réu por incitar destruiçãoAmazônia sem floresta perde chuva e ameaça o agronegócioSons de recifes saudáveis ajudam a recuperar corais degradadosSegundo dados do MapBiomas citados pelo Tribunal de Contas do Município, 57% do território paulistano já dificulta a infiltração da chuva. Entre 1985 e 2018, a área urbanizada com predomínio de superfícies não vegetadas passou de 793,2 km² para 878,6 km². A cidade cobre o solo, aumenta a enxurrada e depois tenta corrigir o erro com piscinões, canalizações e obras caras. Estocolmo aponta o caminho oposto: a adaptação climática urbana começa quando o concreto recua.
São Paulo não está sozinha, mas isso não consola
São Paulo não é a única metrópole que cobriu o solo com asfalto, telhados e concreto. Nova York, por exemplo, tem cerca de 72% de sua área coberta por superfícies impermeáveis, segundo o plano de infraestrutura verde da cidade.
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Na Europa, estudos sobre grandes cidades mostram o mesmo problema: quanto mais a mancha urbana cresce, menor a capacidade de absorver chuva e calor. A diferença está na resposta. As cidades mais preparadas tentam desimpermeabilizar, ampliar áreas verdes e reter água onde ela cai.
São Paulo ensaia esse caminho, mas ainda age como se a enxurrada fosse apenas um problema de drenagem. Não é. É também resultado da forma como a cidade ocupou o próprio território.
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Mudança climática no litoral: Santos dá exemplo raroAtlântico mais quente ameaça o litoral e a safra de ostrasJet skis já ameaçam o LagamarEm vez de devolver espaço à água, São Paulo tenta armazenar o excesso depois que a enxurrada corre pelas ruas. A Prefeitura aponta oito novos reservatórios contra enchentes, com investimento de R$ 1,2 bilhão. Em outra frente, afirma que aplicou R$ 8,4 bilhões em drenagem, obras, serviços e manutenções.
Também afirma que, entre 2014 e 2024, a capacidade de reservação cresceu 46%. O número impressiona, mas revela o problema: a cidade precisa fabricar várzeas artificiais porque ocupou, canalizou e impermeabilizou as várzeas naturais.
Programa muito mais ambicioso de soluções baseadas na natureza
Com R$ 1,2 bilhão, valor anunciado para oito novos reservatórios contra enchentes, São Paulo poderia financiar um programa muito mais ambicioso de soluções baseadas na natureza.
A Prefeitura já reconhece esse caminho: os jardins de chuva aumentam a permeabilidade do solo, reduzem alagamentos e diminuem o volume de água enviado à drenagem tradicional. Em 2026, a cidade tinha 427 jardins de chuva e previa chegar a 530. Também havia 12 bosques urbanos inaugurados, outros 27 em implantação e meta de 50 até 2028. Nos bosques, 19.031 mudas já haviam sido plantadas. Ou seja, os instrumentos existem. Falta mudar a prioridade: menos várzea artificial de concreto, mais solo vivo, árvores, córregos recuperados e áreas capazes de reter água onde ela cai.
São Paulo não está entre as cidades brasileiras mais atrasadas. Tem PlanClima, análise de riscos, inventário de emissões e recebeu nota A do CDP, antigo Carbon Disclosure Project. A organização internacional avalia empresas, estados e cidades pela transparência dos dados ambientais e pela qualidade das ações climáticas. Em 2025, o CDP avaliou 738 cidades no mundo; apenas 120 receberam nota A. Segundo a Prefeitura, São Paulo ficou entre elas. O reconhecimento mostra que a cidade planeja e divulga dados. Mas não resolve o problema físico: solo impermeável, córregos canalizados, várzeas ocupadas e dependência de obras caras de drenagem.