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Praia do Viral, Aracaju, erosão crônica fará com que desapareça

Praia do Viral, Aracaju, erosão crônica fará com que desapareça

Recentemente, um amigo deste site compartilhou um artigo do colunista Carlos Madeiro, do UOL, que discutia o estudo “Panorama de Estabilidade Geológica do Litoral Sergipano,” da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Através deste artigo, tomei conhecimento de que mais uma praia está em risco de desaparecimento devido ao mau comportamento de usuários ignorantes ou irresponsáveis. Apesar de estar familiarizado com o litoral de Sergipe, eu não conhecia a praia do Viral. Posteriormente, compreendi o porquê: ela está localizada na foz do rio Vaza-Barris, no sul do Estado. Só é acessível por veículos 4×4 ou pequenas embarcações, como explicado por Madeiro. Depois de ler o estudo e o artigo, tornou-se evidente que esse “paraíso” não terá vida longa.

praia do Viral, Sergipe
Praia do Viral com uma ruptura para passagem de água (compare com a foto abaixo que mostra a praia sem a ruptura). Imagem, Júlio César Vieira/UFS.

A importância das restingas e manguezais

Recentemente, movido pela indignação diante da omissão da ministra Marina Silva e sua equipe, publiquei,  “Manguezais e Restingas: Uma Omissão do Ministério do Meio Ambiente.”

No texto, busquei chamar a atenção de Marina e seus colaboradores, em particular João Paulo Capobianco, seu braço direito com quem tenho contato desde os primeiros dias da campanha em prol do rio Tietê. Quis enfatizar a relevância das restingas e manguezais, bem como o descuido incompreensível do ministério que deveria tratar do litoral com a mesma dedicação dada à Amazônia.

Não alimento grandes expectativas em relação à Marina Silva. É verdade que ela já ocupou o cargo e conseguiu reduzir o ritmo de desmatamento na Amazônia, reconheço. No entanto, é só. A maior parte de seu tempo foi dedicado a honrar o ídolo Chico Mendes, e criar as controversas Reservas Extrativistas (RESEX) que não são eficientes nas regiões litorâneas.

No entanto, mantive a esperança de que João Paulo Capobianco, ou “Capô,” pudesse entender a importância de nosso apelo. Infelizmente, essa esperança se mostrou vã. Simplesmente, o atual MMA não tem planos para o País enfrentar as consequências do aquecimento do planeta.

Improvisação do Ministério de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas

Não sou o único a criticar esta falha gritante das esferas federal, estadual, e municipal. Por exemplo, o professor  Pedro Luiz Cortêz, do Instituo de Engenharia e Ambiente (IEE) da USP, ‘também manifesta sua crítica à falta de preparo dos governos. Ele enfatiza que, mesmo com previsões disponíveis há meses, medidas proativas e de suporte adequado para a população não foram implementadas’, segundo informação do rp10.

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E observe que o especialista se referia à terrível seca na Amazônia, o único bioma para o qual o MMA dá alguma atenção. E, mesmo assim, o governo foi pego desprevenido. Não à toa, o desmatamento aumentou no Cerrado; enquanto o Pampa, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica, e o bioma marinho,  seguem ao sabor da improvisação.

Dito isso, voltemos ao tema que abordo hoje:

Praia do Viral, sul de Sergipe, vai desaparecer por degradação da restinga

Conforme amplamente reconhecido por especialistas na área, com exceção do Ministério do Meio Ambiente (MMA), é crucial destacar a extrema importância dos manguezais e das restingas, especialmente em tempos de mudanças climáticas, eventos climáticos extremos e influência do fenômeno El Niño.

Entre as dezenas de serviços ecossistêmicos estão o amparo à integridade da zona costeira, mitigando a erosão natural acirrada pelos fenômenos mencionados.

Além disso, é importante destacar que um hectare de mangue tem a capacidade de retirar da atmosfera de 4 a 5 vezes mais carbono do que um hectare de floresta tropical. Em função dessas duas qualidades cruciais, vemos esforços de replantio de manguezais ocorrendo em diversas regiões, incluindo a Oceania, Ásia, América do Norte e Central.

O que é ainda mais encorajador é que esse replantio é financiado integralmente por fundos relacionados a critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) e/ou por organizações não governamentais internacionais. Enquanto isso, no Brasil, manguezais são continuamente desmatados, diariamente. Não é surpresa que nossas áreas costeiras estejam gradativamente desaparecendo.

Restingas contribuem para a integridade da orla

É fundamental salientar que as restingas desempenham uma função semelhante, já que também contribuem para garantir a integridade da orla, mitigando a erosão. No entanto, prefeitos de cidades costeiras frequentemente desmatam as restingas, muitas vezes sem nenhuma intervenção ou manifestação por parte do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Isso é  decepcionante, especialmente considerando a presença de figuras como João Paulo Capobianco no MMA, e Mário Mantovani na Fundação Florestal de São Paulo.

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Que imensa decepção pela atuação de ambos. O ministério de “Capô” não toma conhecimento dos outros biomas. Só a Amazônia atrai atenção. Por outro lado, Mantovani lava as mãos quanto aos desmandos nas APAS Estaduais Litoral Norte, Centro, e Sul. Mário teve o cinismo de  dizer “que ninguém dos conselhos (destas APAS) havia reclamado.

Sei…

Contudo, todas essas questões são evidenciadas no estudo “Panorama de Estabilidade Geológica do Litoral Sergipano.”

O que diz o estudo da Universidade Federal de Sergipe

O geocientista e pesquisador do Laboratório Progeologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Júlio César Vieira, foi o responsável por apresentar esse estudo. “O objetivo central da pesquisa foi chamar a atenção das autoridades públicas diretamente responsáveis pela gestão da erosão costeira para o fato de que Sergipe está enfrentando um sério problema de erosão costeira crônica.”

Isso, João Paulo Capobianco, é crucial. Além disso, o estudo aponta para um cenário alarmante. Por exemplo, destaca-se “a erosão significativa na região norte de Itaporanga D’Ajuda, onde o mar avança a uma taxa de aproximadamente 8 a 10 metros por ano. Essa erosão também afeta Aracaju, onde a Praia do Viral, um local que se tornou um ponto turístico, está sendo drasticamente reduzida, com a possibilidade de desaparecimento total.”

É importante ressaltar mais uma vez: “o completo desaparecimento.” De acordo com Júlio César Vieira, “embora o avanço do mar possa eventualmente se estabilizar ou diminuir sua aceleração, o que foi perdido na linha costeira dificilmente será recuperado.”

Para piorar, “dos 147 quilômetros do litoral de Sergipe, 68 estão sofrendo erosão em níveis intensos ou moderados.”

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É evidente a urgência e a necessidade de uma mudança de paradigma na gestão costeira do Estado, a fim de evitar agravamentos dos problemas que podem causar sérios danos sociais, econômicos e ambientais, como alertou Júlio César.

Agora, pergunte se o MMA, pela União; ou a Fundação Florestal, em nome do Estado de S. Paulo, têm qualquer plano sério e consistente para o litoral? São tão omissos que sequer existe plano para replantio de mangues e restingas. Zero!

‘O impacto de veículos 4×4 causa danos à vegetação de restinga’

No que diz respeito à Praia do Viral, Carlos Madeiro, que entrevistou o autor da pesquisa, fornece uma explicação importante. Ele destaca que, no caso do Viral, além das alterações na carga do rio, é evidente o impacto negativo causado por veículos, que danificam a vegetação de restinga e, como resultado, comprometem a estabilidade do sedimento presente. Isso torna a areia mais suscetível a danos devido a intempéries e eventos climáticos extremos.

Uma ruptura na praia

Carlos Madeiro ainda menciona um evento significativo no processo, ocorrido em 10 de agosto: uma ruptura na praia. Esse evento pode ser considerado um marco importante no contexto da erosão costeira na Praia do Viral.

Praia do viral sem a ruptura (compare com a primeira foto e vc verá a mesma praia com a ruptura. , Júlio César Vieira/UFS.

A ruptura, nesse contexto, é a abertura súbita de uma comunicação entre a água do estuário e a água que banhava o manguezal adjacente. Espera-se que ocorra uma segunda ruptura em outro ponto, o que indica que o processo está em curso e não vai se deter.

Em um período de pouco mais de 40 dias, a ruptura, que inicialmente era rasa e tinha 15 metros de largura durante as marés altas, já se expandiu para cerca de 80 metros. Ficou evidente que a areia próxima ao oceano está muito fofa, a ponto de até mesmo veículos de tração superior terem dificuldade em passar. Isso sugere que o fluxo de sedimentos está sendo levado em direção ao oceano.

Além disso, como mencionado por Carlos Madeiro, Júlio César Vieira observa que a perda de sedimentos também terá impacto negativo no manguezal que está localizado antes da praia. É possível notar a entrada de areia na área do mangue. E mangues não suportam o acúmulo de sedimentos. Isso pode resultar em danos, com o risco de morte de partes desse importante ambiente costeiro.

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Capô, leve a Marina na praia…

Capô, meu caro, vou  pedir um favor: aproveite um fim de semana com feriado e leve Marina na praia… Dou duas sugestões: Ubatuba, onde ela pode ver o que aconteceu ao mangue do rio Escuro que, mesmo com meu alerta ao Mantovani, ele nada fez como sói acontecer.

Ou então, na Praia do Preá, CE, em processo de destruição acelerada por  um dos proprietários da corretora XP.

Lembre-se de que a conscientização e a mobilização pública também podem desempenhar um papel importante na promoção de mudanças positivas na gestão do meio ambiente. Portanto, compartilhar informações e sensibilizar a sociedade sobre a importância desses ecossistemas, e a inação do poder público, pode ser uma estratégia eficaz para fazê-los acordar do sono letárgico em que vivem.

E, além disso, indo à praia, pode ser que Marina  aprenda as funções do mangue, restingas… dunas, quem sabe?

Assista ao vídeo da praia do Viral

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