Parque dos Meros nasceu de blocos de concreto no Paraná
O Parque dos Meros começou a nascer em 1996, quando o oceanógrafo Frederico Brandini e sua equipe conceberam um projeto ousado para o litoral do Paraná. Entre 1997 e 2002, eles lançaram no mar 1.788 estruturas de concreto para impedir o arrasto, a modalidade de pesca mais destrutiva que existe. As redes industriais deixavam um rastro de morte no fundo e ainda prejudicavam os pescadores artesanais.

Os blocos barraram o avanço das redes e, ao mesmo tempo, criaram novos habitats. Algas, moluscos, crustáceos, esponjas e peixes passaram a ocupar as estruturas. Décadas antes de a restauração baseada na natureza ficar em evidência, o projeto já usava processos naturais para recuperar a vida em uma área degradada.
O trabalho beneficiou a vida marinha como um todo, mas teve um resultado especial. O mero, gigante dócil e ameaçado de extinção, encontrou nas estruturas abrigo, alimento e proteção. Assim nasceu o Parque dos Meros, hoje um dos principais pontos de mergulho do litoral paranaense e uma prova concreta de que ciência, criatividade e conservação podem reparar parte dos estragos provocados pela pesca predatória.
A pesca de arrasto deu origem ao projeto
A ideia nasceu em 1996, durante o governo Jaime Lerner, quando pescadores artesanais pediram uma resposta para um problema antigo. Barcos de outros estados invadiam a plataforma do Estado e arrastavam redes pelo fundo em busca de camarões e peixes demersais.
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O obtuso Trump agora parte para a mineração submarinaLitoral fluminense enfrenta erosão sem plano nacionalTrump contra a ciência, o meio ambiente, e o futuroO arrasto está entre as modalidades mais destrutivas da pesca. Primeiro, as redes revolvem o assoalho marinho e esmagam inúmeros organismos. Além disso, capturam espécies sem valor comercial e devolvem ao mar grande parte da fauna já morta. Como se não bastasse, o arrasto remexe os sedimentos, libera o carbono armazenado no fundo e agrava a acidificação e o aquecimento do oceano.
Diante desse cenário, Frederico Brandini e sua equipe decidiram enfrentar o problema com estruturas rígidas. Os blocos de concreto dificultariam a passagem das redes. Ao mesmo tempo, ofereceriam superfície para a fixação de algas, esponjas, moluscos, crustáceos e outros organismos. Com o tempo, portanto, os peixes também ocupariam os novos abrigos.
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O objetivo, porém, não se limitava a afastar os arrastões. O projeto também queria proteger o fundo marinho, criar áreas de exclusão de pesca, recuperar a biodiversidade e fortalecer a pesca artesanal, responsável à época por cerca de 90% dos desembarques pesqueiros do Paraná.
Mero: o gigante ameaçado que encontrou abrigo nos recifes
O Rebimar — Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha, desenvolvido pela Associação MarBrasil — pesquisa e monitora a vida marinha no litoral do Paraná, inclusive nas áreas de recifes artificiais.
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Denunciante da merenda em Ubatuba recebe proteção da JustiçaPL 849 ameaça APA da Baleia Franca em Santa CatarinaPorto em Arroio do Sal ameaça mudar o litoral gaúchoDe acordo com o programa, o mero (Epinephelus itajara), também conhecido como “Senhor das Pedras”, está entre os maiores peixes do Atlântico Sul Ocidental. Pode alcançar 2,5 metros e pesar mais de 400 quilos. Apesar do tamanho, tem comportamento manso e curioso. Por isso, tornou-se presa fácil e sofreu forte redução populacional. A IUCN classifica a espécie como vulnerável.
Segundo o Projeto Meros do Brasil a espécie enfrenta uma combinação perigosa. Cresce devagar, vive mais de 40 anos e só começa a se reproduzir entre os seis e oito anos. Além disso, forma agregações reprodutivas previsíveis, o que facilita a ação da pesca ilegal. Poluição, destruição de manguezais e degradação dos ambientes costeiros completam o quadro. Por isso, o Brasil mantém a espécie na categoria Criticamente em Perigo e proíbe sua captura desde 2002.
Como os recifes artificiais foram instalados
Entre 1997 e abril de 2002, o projeto instalou 1.788 estruturas de concreto de sete modelos diferentes. Juntas, elas somaram 710 metros cúbicos de concreto e criaram 14.400 metros quadrados de nova superfície para a fixação da vida marinha.
A equipe distribuiu os blocos em diferentes profundidades e distâncias da costa. Assim, conseguiu comparar a colonização em áreas mais rasas, intermediárias e profundas. Além disso, as estruturas formaram barreiras físicas contra as redes de arrasto, que já não conseguiam avançar livremente pelo fundo.
O projeto também transformou as balsas Dianka e Espera 7 em recifes artificiais. Antes do afundamento, as equipes retiraram peças, resíduos e materiais que poderiam contaminar o mar. Depois, rebocaram as embarcações até os pontos escolhidos e as assentaram no fundo. Com o tempo, algas, esponjas, ostras, crustáceos e peixes ocuparam os cascos.
Os resultados apareceram rapidamente. Após um ano e meio de submersão, os pesquisadores identificaram 124 espécies de organismos nas estruturas experimentais. Também encontraram garoupas, badejos, chernes, lagostas e um mero jovem, que passou a ocupar um dos sistemas recifais apenas três meses depois do assentamento.
No total, o projeto criou pelo menos 283 hectares de área protegida contra o arrasto. Embora essa extensão representasse apenas 0,07% da plataforma rasa do Paraná, os benefícios para a biodiversidade, a pesca artesanal, o turismo subaquático e a pesca esportiva ficaram evidentes.
Os resultados apareceram no fundo do mar
O projeto mostrou resultados em pouco tempo. Os blocos e as balsas reduziram o espaço para o arrasto e, ao mesmo tempo, criaram novos abrigos para a vida marinha. Peixes, crustáceos, moluscos, esponjas e outros organismos ocuparam rapidamente as estruturas.
O caso dos meros chamou mais atenção. Em janeiro de 2002, mergulhadores contaram até 13 indivíduos numa área de cerca de 100 metros quadrados. Eles pesavam entre 90 e 300 quilos. A concentração indicava que toda uma cadeia trófica começava a se formar ao redor dos recifes artificiais.
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Usuários também perceberam a mudança
Os usuários também perceberam a mudança. Entre os pescadores esportivos entrevistados, 53% notaram aumento na quantidade e na diversidade de peixes e outros seres marinhos. Além disso, 84% avaliaram o projeto como bom ou excelente, enquanto 95% defenderam sua continuidade.
As balsas Dianka e Espera 7 também fortaleceram o turismo subaquático e a pesca esportiva. No início dos anos 2000, cerca de 20 embarcações visitavam semanalmente os recifes. Hoje, o mergulho continua movimentando operadoras, barqueiros e outros serviços. A facilidade de encontrar meros transformou a região em destino de mergulhadores e deu origem ao chamado Mero Watching. Ao mesmo tempo, o Rebimar mantém o monitoramento científico dos peixes e acompanha a evolução da biodiversidade nos recifes artificiais.
Décadas depois, o Parque dos Meros confirma o acerto da iniciativa. O projeto combateu uma das modalidades de pesca mais destrutivas, favoreceu a pesca artesanal, ampliou a biodiversidade e ofereceu abrigo a uma espécie ameaçada. Poucas ações ambientais conseguem reunir tantos benefícios ao mesmo tempo.
Por isso, outros trechos do litoral brasileiro podem e devem copiar esse modelo. Para tanto, bastam vontade política, apoio à ciência e fiscalização. O exemplo está aí. Precisamos valorizar e replicar o que funciona.
Para saber mais assista ao vídeo
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