Oceano desconhecido: metade ainda escapa à ciência
Oceano desconhecido não é força de expressão. Um estudo publicado na Nature Communications mostra que cerca de metade dos oceanos ainda permanece insuficientemente amostrada pela ciência. A pesquisa, liderada por Hanieh Saeedi, do Instituto Senckenberg e da Universidade Goethe de Frankfurt, analisou milhões de registros de espécies marinhas. Mesmo assim, revelou enormes vazios no conhecimento, sobretudo em águas profundas e nas regiões tropicais.

O paradoxo é inquietante. A ciência estima que os oceanos abriguem mais de 2,2 milhões de espécies, mas cerca de 90% delas ainda não receberam descrição científica. Ao mesmo tempo, pesca, poluição, mineração submarina e outras pressões avançam sobre ambientes que mal conhecemos. Em outras palavras, podemos perder espécies antes mesmo de descobrir que existem.
Quase 48 milhões de registros mostram o desconhecimento
Para medir o tamanho desse oceano desconhecido, Hanieh Saeedi reuniu 47,9 milhões de registros de ocorrência de animais marinhos. O levantamento abrange 184.141 espécies e representa cerca de 87% das espécies aceitas pelo World Register of Marine Species, o WoRMS. Os dados vieram principalmente de duas grandes bases internacionais, o Ocean Biodiversity Information System (OBIS) e o Global Biodiversity Information Facility (GBIF).
A pesquisadora também separou os registros por profundidade: águas rasas, até 200 metros; zona mesopelágica, entre 200 e 500 metros; e mar profundo, dos 500 aos 11 mil metros.
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Remoção do coral-sol: novo método enfrenta invasãoQuais as relações entre as regiões polares e o Brasil?Navios presos em Ormuz podem causar bioinvasão globalMesmo com uma base de dados dessa dimensão, cerca de 50% do oceano continua insuficientemente amostrado. Segundo o estudo, mais de 160 milhões de quilômetros quadrados abaixo dos 200 metros ainda apresentam dados escassos ou inexistentes sobre a biodiversidade marinha.
Cientistas recorrem até aos animais marinhos
A dificuldade de conhecer esse mundo é tamanha que os cientistas recorrem até aos próprios animais. Como já mostramos, pesquisadores da Universidade de Adelaide instalaram câmeras e dispositivos de localização em leões-marinhos. Os animais mergulharam até cerca de 100 metros e registraram habitats que os cientistas depois usaram para construir modelos. A alternativa nasceu porque veículos operados remotamente, câmeras rebocadas e navios de pesquisa custam caro e alcançam apenas uma pequena parte do oceano.
Esse desconhecimento levou parte significativa dos cientistas e organizações internacionais a defender uma moratória à mineração submarina. A preocupação cresce mais agora que Donald Trump tenta acelerar a exploração mineral em águas profundas, ao redor da Samoa Americana, apesar das enormes lacunas científicas sobre seus impactos.
Vale lembrar que a primeira investigação organizada dos oceanos só aconteceu em 1872, quando a Royal Society, o Museu Britânico, e o governo britânico, organizaram a expedição do HMS Challenger.
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O estudo de Hanieh Saeedi revela uma grande desigualdade na pesquisa oceanográfica. Os registros se concentram no Atlântico Norte, mais rico, enquanto o Sul Global, os trópicos e o mar profundo permanecem muito menos estudados. A faixa entre as latitudes 5° Norte e 5° Sul, por exemplo, reúne menos de 2,5% dos registros. Segundo a autora, essa falta de amostragem pode distorcer nossa visão sobre onde estão os verdadeiros hotspots de biodiversidade marinha.
O problema atinge em cheio o Atlântico Sul. Como o Mar Sem Fim mostrou, a região sofre também com pouca cooperação científica e ausência de uma política conjunta entre os países. O Brasil, dono da maior costa e da maior economia da América do Sul, poderia liderar um esforço regional para reduzir este vazio de conhecimento.
Quanto mais fundo, maior o desconhecimento
A maior parte do que sabemos sobre a biodiversidade marinha vem das águas rasas. Segundo Hanieh Saeedi, dos quase 48 milhões de registros, cerca de 38 milhões pertencem aos primeiros 200 metros do oceano. Abaixo dessa profundidade, os dados caem drasticamente.
Não por acaso, expedições ao mar profundo continuam encontrando espécies e ecossistemas desconhecidos. A Nature define essas regiões, abaixo dos 200 metros, como vastos habitats ainda pouco explorados, que incluem planícies abissais, fontes hidrotermais e fossas oceânicas.
E o Brasil diante desse oceano desconhecido?
O Brasil conhece pouco justamente o fundo do mar que sustenta parte importante de sua economia. E nem sequer existe um orçamento nacional facilmente identificável para a pesquisa oceanográfica: os recursos se espalham por ministérios, universidades, CNPq, Finep e Marinha. Para se ter uma ideia, uma das ações federais diretamente destinadas ao apoio à pesquisa e ao monitoramento oceanográfico recebeu apenas cerca de R$ 717 mil no orçamento de 2026.
O Brasil conhece pouco o fundo do mar que sustenta parte importante de sua economia. Como mostramos, faltam investimento, tecnologia e navios de pesquisa, embora pesca, petróleo, transporte e outras atividades ligadas ao mar respondam por cerca de 6,4% do PIB nacional. O professor Alex Cardoso Bastos, da UFES, resume a contradição: o País quer ampliar sua Amazônia Azul, mas ainda investe pouco para conhecer o território submerso que pretende governar.
Conhecer esse oceano desconhecido, portanto, não é apenas uma questão científica. É também economia, conservação e soberania.