Manguezais remapeados expõem riqueza e omissão no Brasil
Em março de 2026, o governo federal atualizou o atlas e informou que o Brasil tem 1,2 milhão de hectares de manguezais. O dado chama atenção, mas os manguezais remapeados pedem leitura menos festiva. O Nordeste lidera em área, porém seus manguezais poderiam ser muito maiores sem a devastação causada, sobretudo, pela carcinicultura. Durante décadas, essa atividade avançou sobre um dos ecossistemas mais valiosos da costa brasileira, quase sempre longe do escrutínio público e muitas vezes sem reação do poder público. O país também demorou demais na política internacional. A Mangrove Breakthrough surgiu na COP27, em novembro de 2022, mas o Brasil só aderiu formalmente em junho de 2025. Para um país com uma das maiores extensões de manguezais do planeta, a demora diz muito.

Nordeste lidera, mas perdeu mais do que devia
Os manguezais remapeados não valem apenas pela extensão. Eles valem pelo que fazem. Formam um dos mais importantes berçários da vida marinha, sustentando peixes, crustáceos e moluscos em fases decisivas do ciclo de vida.
Também ajudam a manter íntegra a linha da costa, reduzem a erosão e amortecem o impacto de ressacas, tempestades e outros eventos extremos. E ainda prestam um serviço crucial num planeta em aquecimento: um hectare de mangue sequestra cerca de quatro vezes mais CO2 que a mesma área de floresta tropical. Destruir manguezais, portanto, significa atacar ao mesmo tempo a biodiversidade, o clima e a proteção natural do litoral.
Quando olhamos os manguezais remapeados no Nordeste, convém lembrar o que ficou pelo caminho. Ao longo de décadas, a carcinicultura destruiu vastas áreas de estuários, apicuns e vizinhanças de manguezais para abrir viveiros de camarão. Em muitos casos, a atividade avançou com a complacência do poder público. O resultado foi a perda de áreas protegidas, a expulsão de comunidades tradicionais e a degradação de um dos ecossistemas mais importantes da costa brasileira. Por isso, o novo mapa tem valor. Mas ele também funciona como retrato parcial de uma perda enorme.
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Não faltam razões para proteger manguezais. Eles formam um dos grandes berçários da vida marinha, abrigando peixes, crustáceos e moluscos em fases decisivas do ciclo de vida.
Também prestam um serviço ambiental de primeira grandeza no combate ao aquecimento global. Por hectare, os manguezais podem sequestrar cerca de quatro vezes mais CO2 que o mesmo espaço de florestas tropicais, além de guardar enormes estoques de carbono no solo.
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E, finalmente, ainda cumprem ainda outra função vital num país que ocupa mal a beira-mar: ajudam a manter íntegra a linha da costa, reduzem a erosão e amortecem o impacto de ressacas, tempestades e outros eventos extremos. Destruir manguezais, portanto, não significa apenas perder biodiversidade. Significa enfraquecer a defesa natural do litoral brasileiro justamente quando o aquecimento global torna a costa mais vulnerável.
Carcinicultura cobrou uma conta alta demais
O novo mapa mostra quanto ainda resta. Não mostra, porém, tudo o que o Nordeste já perdeu. Ao longo de décadas, a carcinicultura avançou sobre estuários, apicuns e áreas vizinhas aos manguezais, abriu viveiros, alterou a dinâmica da água e empurrou comunidades tradicionais para trás.
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STJ decide: restingas que fixam dunas e mangues são APPsRecifes de corais de águas quentes atingem ponto de inflexãoÀs vésperas da COP30 Brasil acorda para os manguezais?O Ministério Público Federal registra há anos a expansão dessa atividade na zona costeira nordestina, com uso de áreas de mangue e fortes impactos socioambientais. Uma revisão acadêmica mais recente chega à mesma conclusão: entre os danos mais frequentes da carcinicultura estão o desmatamento e a supressão de áreas de manguezal. Por isso, quando o novo mapeamento aponta a liderança do Nordeste, convém evitar qualquer tom festivo. A região poderia ter muito mais.
Finalmente, depois de anos de devastação, em novembro de 2024 o Supremo Tribunal Federal proibiu a criação de camarão em manguezais ao declarar inconstitucional qualquer interpretação de normas estaduais que permita carcinicultura nessas áreas ou em APPs. O Supremo apenas pôs no papel o que já deveria ser evidente há muito tempo: manguezal não é área de negócio privado. O problema, portanto, não está na falta de lei. Está na falta de fiscalização, na frouxidão do poder público e na impunidade que ainda cerca a destruição desses ecossistemas.
Brasil entra na iniciativa, mas entra tarde
Um ano depois da proibição pelo STF, em junho de 2025, o Brasil enfim aderiu à Mangrove Breakthrough, iniciativa global que pretende mobilizar US$ 4 bilhões até 2030 para conservar e restaurar 15 milhões de hectares de manguezais. Esse atrazo, para o País que se diz líder ambiental mundial, apenas reforça o que sempre dissemos: em Pindorama a zona costeira é o ‘Patinho Feio’, em outras palavras, faltou pressa.
Grilagem de terras e especulação no litoral
Mapear é importante, mas não segura motosserra, retroescavadeira nem grileiro. Sem fiscalização, os manguezais continuarão caindo diante da especulação imobiliária, de obras mal planejadas e da velha conivência do poder público. O país anuncia adesão a iniciativas internacionais, atualiza atlas e faz discurso climático, mas na ponta ainda permite que destruam um dos ecossistemas mais valiosos da costa brasileira. Foi assim no Araçá, São Sebastião, foi assim no Rio de Janeiro, e continua assim em tantos outros trechos do litoral.
O remapeamento ajuda a mostrar quanto ainda resta, mas não resolve o problema central. Sem punição e sem um plano claro para o mar e a zona costeira, o Brasil continuará perdendo manguezais para velhas práticas predatórias. A adesão à Mangrove Breakthrough pode ter valor diplomático, mas até aqui pouco mudou no mundo real. Só às vésperas da COP30, o país finalmente acordou para os manguezais. Falta provar que não aconteceu tarde demais.