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Ilha da Queimada Grande e a jararaca-ilhoa ameaçada

Ilha da Queimada Grande e a jararaca-ilhoa ameaçada

No passado geológico, a Ilha da Queimada Grande, no sul de São Paulo, fazia parte do continente. Ao fim da última era glacial, o nível do mar subiu e isolou o maciço rochoso. A última glaciação começou há cerca de 115 mil anos e terminou há aproximadamente 11 mil anos.

O isolamento marcou o início da história de uma das serpentes mais conhecidas do mundo: a jararaca-ilhoa, hoje criticamente ameaçada de extinção, sobretudo pela caça ilegal.

Quando o mar avançou, o fragmento de terra que virou ilha já abrigava jararacas semelhantes às do continente. Separadas, elas passaram por um longo processo de adaptação — que acabaria por transformá-las numa espécie única.

Uma jararaca-ilhoa dentro de um tubo de mangueira. Assim fazem os pesquisadores para estudarem o animal/ Acervo MSF.

A adaptação da jararaca

Segundo o site do Instituto Butantã, a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) é menor e mais leve que a jararaca do continente. Tem cauda mais longa, adaptada para agarrar presas, e ponta escura, possivelmente usada para imitar larvas de inseto e atrair aves.

A cabeça é proporcionalmente maior, enquanto as presas são menores quando comparadas às das parentes continentais.

Hoje, nos cerca de 43 hectares da Ilha da Queimada Grande, vivem entre 2 mil e 4 mil jararacas-ilhoa.

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A ausência de mamíferos impediu o surgimento de predadores capazes de controlar a população. Ao mesmo tempo, a oferta de presas terrestres sempre foi limitada.

Com escassez de presas terrestres, as serpentes especializaram-se na captura de aves que utilizam a ilha como ponto de parada durante as migrações anuais.

Quando elas enrolam-se em árvores, na Ilha da Queimada Grande, fica difícil percebê-la. Acervo MSF.

Essa dieta ajuda a explicar a potência de seu veneno. Enquanto muitas serpentes venenosas podem morder e depois seguir o rastro da presa até que ela sucumba, a jararaca-ilhoa precisa agir rápido. Se a ave conseguir alçar voo, a refeição está perdida. Por isso, o ataque tem de ser fulminante.

Tráfico de animais silvestres ameaça a jararaca-ilhoa

A longa adaptação da jararaca-ilhoa na Ilha da Queimada Grande acabou chamando atenção no mundo inteiro. A fama bastou para que o tráfico internacional de animais silvestres voltasse os olhos para a espécie.

Todos os anos, cerca de 35 milhões de animais silvestres são retirados dos ecossistemas brasileiros para abastecer esse mercado ilegal. Apenas 10% sobrevivem. Para uma espécie restrita a uma única ilha, com população limitada, essa pressão pode ser devastadora.

Infelizmente, hoje o tráfico de animais silvestres encontra terreno fértil nas redes antissociais, como já mostramos em outras matérias.

Segundo o Ibama, o Facebook tornou-se uma das maiores vitrines ilegais de venda de animais no país. Pior: de acordo com o instituto, não há cooperação efetiva da plataforma para coibir a prática.

Ilha da Queimada Grande. Acervo MSF.

O Facebook no tráfico internacional

Apesar de a Ilha da Queimada Grande ser uma unidade de conservação federal do bioma marinho — uma Reserva Biológica, que não permite visitação pública — os traficantes ignoram a proibição.

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Sem fiscalização permanente, desembarcam clandestinamente, capturam os animais e os vendem no exterior.

Traficantes não dão pelota para os avisos. É preciso fiscalizar! Acervo MSF.

Os venenos de origem animal são misturas complexas de toxinas capazes de provocar efeitos biológicos intensos durante o envenenamento.

Embora possam causar danos graves às vítimas, essas mesmas toxinas também despertam interesse científico por seu potencial uso como agentes farmacológicos.

Uma jararaca do continente para efeito de comparação.

A Organização Mundial da Saúde – OMS-  mantém um banco de dados especializado através do seu Portal de Informações e Dados sobre Picadas de Cobras, que classifica as cobras venenosas com base na sua importância médica.

A OMS identifica aproximadamente 200 espécies como tendo a maior importância médica ou importância médica secundária. A jararaca-ilhoa  está presente no banco de dados da OMS, mas com uma classificação específica devido ao seu isolamento geográfico

O veneno da Jararaca-ilhoa

A jararaca-ilhoa, endêmica da Ilha da Queimada Grande, no litoral de São Paulo, costuma ser cercada pelo mito de que seria “a cobra mais venenosa do mundo”. Não é verdade. Embora tenha veneno extremamente potente, ela não ocupa esse posto em escala global.

Em testes laboratoriais com mamíferos, sua toxicidade (DL50 de cerca de 62,3 mg/kg por via intraperitoneal, segundo alguns estudos) é inferior à de serpentes australianas altamente venenosas e até mesmo à de outras jararacas continentais, como a Bothrops castelnaudi.

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Um milhão de cobras ameaçadas anualmente

Para se ter ideia da dimensão do problema, o site The Revelator informa que o mercado internacional comercializa legalmente quase um milhão de cobras ameaçadas de extinção por ano.

A Jararaca-Ilhoa na Ilha da Queimada Grande. Acervo MSF.

Mas não se impressione ainda. A própria matéria explica que esse número é apenas a ponta do iceberg diante do total de cobras, vivas e mortas, transportadas anualmente pelo mundo, segundo investigadores e especialistas.

As espécies contabilizadas estão listadas no Apêndice II da CITES, que reúne animais não necessariamente ameaçados de extinção, mas cujo comércio precisa ser controlado para evitar exploração incompatível com sua sobrevivência.

Aqui uma pulseira de relógio feita de couro de Pyton. Imagem, www.therevelator.org.

O pior é que as cobras não são traficadas apenas por causa do veneno. A demanda também vem da indústria do luxo.

Há marcas de relógios e acessórios que ainda utilizam couro de cobra em pulseiras e outros produtos. Essa prática alimenta a exploração de espécies já pressionadas e amplia o mercado internacional de peles exóticas.

China e Estados Unidos, os ‘maiores consumidores’

Segundo o The Revelator, as cobras são exportadas para diversos países, mas China e Estados Unidos concentram a maior parte das importações de espécies listadas na CITES.

Além do comércio de artigos de couro, os Estados Unidos importaram mais de 3 milhões de cobras vivas, número que revela a escala global do mercado — legal e ilegal — que pressiona populações silvestres.

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