Ilha da Queimada Grande e a jararaca-ilhoa ameaçada
No passado geológico, a Ilha da Queimada Grande, no sul de São Paulo, fazia parte do continente. Ao fim da última era glacial, o nível do mar subiu e isolou o maciço rochoso. A última glaciação começou há cerca de 115 mil anos e terminou há aproximadamente 11 mil anos.
O isolamento marcou o início da história de uma das serpentes mais conhecidas do mundo: a jararaca-ilhoa, hoje criticamente ameaçada de extinção, sobretudo pela caça ilegal.
Quando o mar avançou, o fragmento de terra que virou ilha já abrigava jararacas semelhantes às do continente. Separadas, elas passaram por um longo processo de adaptação — que acabaria por transformá-las numa espécie única.
A adaptação da jararaca
Segundo o site do Instituto Butantã, a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) é menor e mais leve que a jararaca do continente. Tem cauda mais longa, adaptada para agarrar presas, e ponta escura, possivelmente usada para imitar larvas de inseto e atrair aves.
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Pesquisadora Camila Domit, UFPR, concorre ao ‘Oscar Verde’Marinez Scherer: “Sem azul, não tem verde”Limpeza oceânica já retirou 50 milhões de toneladas de plásticoA cabeça é proporcionalmente maior, enquanto as presas são menores quando comparadas às das parentes continentais.
Essa dieta ajuda a explicar a potência de seu veneno. Enquanto muitas serpentes venenosas podem morder e depois seguir o rastro da presa até que ela sucumba, a jararaca-ilhoa precisa agir rápido. Se a ave conseguir alçar voo, a refeição está perdida. Por isso, o ataque tem de ser fulminante.
Tráfico de animais silvestres ameaça a jararaca-ilhoa
A longa adaptação da jararaca-ilhoa na Ilha da Queimada Grande acabou chamando atenção no mundo inteiro. A fama bastou para que o tráfico internacional de animais silvestres voltasse os olhos para a espécie.
Todos os anos, cerca de 35 milhões de animais silvestres são retirados dos ecossistemas brasileiros para abastecer esse mercado ilegal. Apenas 10% sobrevivem. Para uma espécie restrita a uma única ilha, com população limitada, essa pressão pode ser devastadora.
Infelizmente, hoje o tráfico de animais silvestres encontra terreno fértil nas redes antissociais, como já mostramos em outras matérias.
Segundo o Ibama, o Facebook tornou-se uma das maiores vitrines ilegais de venda de animais no país. Pior: de acordo com o instituto, não há cooperação efetiva da plataforma para coibir a prática.
O Facebook no tráfico internacional
Apesar de a Ilha da Queimada Grande ser uma unidade de conservação federal do bioma marinho — uma Reserva Biológica, que não permite visitação pública — os traficantes ignoram a proibição.
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Sem fiscalização permanente, desembarcam clandestinamente, capturam os animais e os vendem no exterior.
Os venenos de origem animal são misturas complexas de toxinas capazes de provocar efeitos biológicos intensos durante o envenenamento.
Embora possam causar danos graves às vítimas, essas mesmas toxinas também despertam interesse científico por seu potencial uso como agentes farmacológicos.
A Organização Mundial da Saúde – OMS- mantém um banco de dados especializado através do seu Portal de Informações e Dados sobre Picadas de Cobras, que classifica as cobras venenosas com base na sua importância médica.
A OMS identifica aproximadamente 200 espécies como tendo a maior importância médica ou importância médica secundária. A jararaca-ilhoa está presente no banco de dados da OMS, mas com uma classificação específica devido ao seu isolamento geográfico
O veneno da Jararaca-ilhoa
A jararaca-ilhoa, endêmica da Ilha da Queimada Grande, no litoral de São Paulo, costuma ser cercada pelo mito de que seria “a cobra mais venenosa do mundo”. Não é verdade. Embora tenha veneno extremamente potente, ela não ocupa esse posto em escala global.
Em testes laboratoriais com mamíferos, sua toxicidade (DL50 de cerca de 62,3 mg/kg por via intraperitoneal, segundo alguns estudos) é inferior à de serpentes australianas altamente venenosas e até mesmo à de outras jararacas continentais, como a Bothrops castelnaudi.
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Um milhão de cobras ameaçadas anualmente
Para se ter ideia da dimensão do problema, o site The Revelator informa que o mercado internacional comercializa legalmente quase um milhão de cobras ameaçadas de extinção por ano.
Mas não se impressione ainda. A própria matéria explica que esse número é apenas a ponta do iceberg diante do total de cobras, vivas e mortas, transportadas anualmente pelo mundo, segundo investigadores e especialistas.
As espécies contabilizadas estão listadas no Apêndice II da CITES, que reúne animais não necessariamente ameaçados de extinção, mas cujo comércio precisa ser controlado para evitar exploração incompatível com sua sobrevivência.
O pior é que as cobras não são traficadas apenas por causa do veneno. A demanda também vem da indústria do luxo.
Há marcas de relógios e acessórios que ainda utilizam couro de cobra em pulseiras e outros produtos. Essa prática alimenta a exploração de espécies já pressionadas e amplia o mercado internacional de peles exóticas.
China e Estados Unidos, os ‘maiores consumidores’
Segundo o The Revelator, as cobras são exportadas para diversos países, mas China e Estados Unidos concentram a maior parte das importações de espécies listadas na CITES.
Além do comércio de artigos de couro, os Estados Unidos importaram mais de 3 milhões de cobras vivas, número que revela a escala global do mercado — legal e ilegal — que pressiona populações silvestres.