Humboldt: a fascinante história do primeiro ambientalista
Humboldt fez viagens incríveis e alertou sobre o desmatamento no século XIX
O início do que viria a ser o movimento ambientalista no despertar do séc. 19. É disso que trata o belíssimo livro ‘A invenção da Natureza‘, contando a vida de Alexander von Humboldt. Escrito por Andrea Wulf, em 2015, foi considerado o melhor livro de não ficção pelo New York Times, The Guardian, e Time. Agora no Brasil, em ótima tradução de Renato Marques, editora Crítica.
Em viagem no Equador.
Humboldt: ‘humanos interferem no clima’
Humboldt foi o primeiro a explicar como a floresta enriquece a atmosfera com umidade, resfria o ambiente, retém água e protege o solo da erosão.
Também alertou que a ação humana já interferia no clima e poderia causar impactos imprevisíveis para as futuras gerações.
A invenção da Natureza.
Amigo de Goethe, colega de Símon Bolivar, guru de Darwin, admirado por Thomas Jefferson
Nascido em 1769, o naturalista prussiano tornou-se o cientista mais célebre de sua época. Viajou pela América espanhola entre 1799 e 1804. Subiu o Chimborazo. Percorreu o Orinoco. Coletou dados sobre clima, geografia, botânica e correntes marinhas. Transformou observações dispersas em uma visão integrada da natureza.
Humboldt conviveu com líderes políticos e intelectuais do seu tempo. Foi amigo de Goethe. Conversou com Thomas Jefferson. Viveu a era da Revolução Francesa, da independência dos Estados Unidos e da ascensão e queda de Napoleão Bonaparte. Suas obras, como “Kosmos”, tornaram-se best-sellers. Ele levou a ciência ao grande público, organizou palestras lotadas e influenciou uma geração inteira — entre eles Charles Darwin, que reconheceu sua dívida intelectual.
Humboldt ajudou a moldar a ideia moderna de natureza como um sistema interligado. Por isso, muitos o consideram o pai da ecologia.
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Desafiando crenças milenares
Alexander von Humboldt rompeu com a tradição que colocava o homem no centro da natureza. Desde Aristóteles até Carl Linnaeus, passando por René Descartes e Francis Bacon, dominava a ideia de que o mundo existia para servir aos humanos.
Ao conhecer a América do Sul e a floresta tropical, Humboldt enxergou outra realidade. Ele percebeu a natureza como um sistema interligado, no qual o homem é apenas parte. Essa visão mudou a ciência e lançou as bases do pensamento ecológico moderno.
John Muir, o pai dos parques nacionais norte-americanos
No final do verão de 1867, oito anos após a morte de Alexander von Humboldt, o jovem naturalista escocês John Muir, então com 29 anos, deixou Indianápolis e partiu rumo à América do Sul.
Inspirado pelas viagens e relatos de Humboldt, Muir teria escrito em seu diário algo que revela a dimensão dessa influência:
“Com que intensidade desejo ser um Humboldt para ver os Andes de cumes nevados e as flores do Equador.”
A frase resume o impacto do cientista prussiano sobre toda uma geração. Humboldt não apenas estudou a natureza. Ele despertou vocações.
John Muir cruzou a pé Indiana, Kentucky, Tennessee, Geórgia e Flórida. Caminhou por 45 dias. Coletou plantas. Observou insetos. Dormiu ao relento. Leu Alexander von Humboldt e começou a mudar sua forma de ver a natureza. Chegou a Cuba, adoeceu e voltou. Escolheu a Califórnia.
De São Francisco seguiu para a Sierra Nevada. Encantou-se com o vale de Yosemite, suas quedas-d’água, paredões de granito e sequoias milenares. Ali iniciou a campanha pela criação de um parque nacional. A ideia ganhou força. Era apenas questão de tempo.
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O Parque Nacional de Yellowstone, criado em 1872, foi o primeiro parque nacional dos Estados Unidos. Depois, John Muir, influenciado por Alexander von Humboldt, fortaleceu o modelo de preservação integral.
Amazônia: Humboldt, percebeu as consequências do desmatamento e sua influência no clima
O cientista, a quem Goethe disse que ‘em oito dias lendo livros uma pessoa não aprende tanto quanto em uma hora de conversa com Humboldt’, era genial. Em pouco tempo percebeu as consequências da ação humana sobre as florestas.
Em 7 de fevereiro de 1800, Humboldt e seu criado saíram de Caracas para chegar ao Orinoco. Ao atravessarem um vale cercado por montanhas encontraram o lago de Valência. O cientista ficou fascinado. Milhares de garças, flamingos, e patos selvagens enchiam o céu de vida. Parecia idílico, mas os moradores disseram a Humboldt que os níveis de água do lago estavam baixando rapidamente.
Humboldt mediu, examinou, questionou. À medida que investigava, concluiu que o desmatamento das florestas adjacentes, e a transposição de cursos d’água para irrigação, haviam sido as causas.
Nasce a ideia da mudança do clima
Segundo Andrea Wulf,
foi lá, no lago de Valência, que Humboldt desenvolveu sua ideia de mudança do clima induzida pela ação humana.
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Quando publicou suas observações, prossegue, não deixou dúvidas:
Quando as florestas são destruídas, como o são em toda parte na América por obra dos plantadores europeus, com uma precipitação imprudente, as fontes de água secam por completo.
E mais:
Desaparecendo a vegetação das encostas das montanhas, as águas das chuvas não sofrem obstrução em seu curso; durante as chuvaradas as águas sulcam os declives das colinas, empurram para baixo o solo solto, formam inundações que devastam o país.
‘Efeitos incalculáveis no clima’
Já, naquela época, Humboldt afirmava que,
os efeitos da intervenção da espécie humana eram incalculáveis e poderiam tornar-se catastróficos se o homem continuar a perturbar brutalmente o mundo
Afetando as futuras gerações
E alertou:
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a ação da humanidade pode afetar as gerações futuras
‘O homem não pode agir sobre a natureza’
Mais tarde ele escreveu, desafiando tudo que se sabia até então,
O homem não pode agir sobre a natureza e não pode apropriar-se de nenhuma de suas forças para uso próprio se ele não conhecer as leis naturais.
Nascia o primeiro ambientalista.
Humboldt antecipou a teoria das placas tectônicas
Alexander von Humboldt sugeriu que África e América do Sul já estiveram unidas, antecipando a ideia das placas tectônicas.
Também defendeu conceitos evolutivos antes de Charles Darwin publicar A Origem das Espécies.
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A influência de Humboldt sobre os britânicos foi tão grande que inspirou Charles Darwin a embarcar na viagem do Beagle.
Seus livros, que criticavam o colonialismo europeu e a escravidão, também alimentaram o movimento de libertação da América Latina.
Segundo Humboldt,
o colonialismo era desastroso para as pessoas e o meio ambiente (em razão da destruição das florestas para a implantação da monocultura)
E…
o dominador colonial explorava as colônias para extrair matérias-primas e, no processo, destruía o meio ambiente. Foi a barbárie europeia que criou este mundo injusto
Humboldt e Thomas Jefferson
Humboldt sempre admirou Jefferson pelo país que ele ajudara a forjar, mas se desesperava com o fato de que os líderes estadunidenses
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não fazem muita coisa em nome da abolição da escravidão
Quando listou as três maneiras pelas quais a espécie humana estava alterando o clima, citou:
desmatamento, irrigação inclemente e, talvez a forma mais profética, as grandes massas de vapor e gás produzidas nos centros industriais
Aventuras na América do Sul, Rússia, e Américas
Para chegar a essas conclusões, Humboldt realizou três grandes viagens, descritas em seus livros. Entre 1799 e 1804, deixou a Europa e seguiu para a Venezuela. Explorou rios, escalou vulcões e mergulhou na floresta tropical que o fascinou. Depois navegou para Cuba, onde continuou suas pesquisas.
Depois, voltou a Bogotá e seguiu até Lima, no Peru, atravessando os Andes. Partiu para Guayaquil e depois para a Cidade do México. De lá foi a Cuba e, em seguida, à Filadélfia, onde conversou com Thomas Jefferson.
Também defendeu junto a líderes norte-americanos e sul-americanos a abertura de um canal pelo istmo do Panamá, que considerava vital para o comércio mundial.
Por fim, Humboldt voltou à Europa com a bagagem repleta de anotações, medições, rochas e plantas.
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Publicou dezenas de livros, traduzidos para as principais línguas da época.
A invenção da Natureza. Rota da viagem pelas Américas, 1799 – 1804
A segunda grande viagem foi à Venezuela em 1800, durante a qual desceu o rio Orinoco e explorou o Canal do Cassiquiare, a ligação natural entre as bacias do Orinoco e do Amazonas.
Sua terceira e última grande expedição ocorreu em 1829 à Rússia, quando atravessou o vasto território de leste a oeste, percorrendo mais de 15 000 km em um périplo científico que o levou aos Montes Urais e além.
Alguns amigos de Alexander von Humboldt
Alguns amigos de Humboldt revelam o tamanho de sua rede de contatos.
Entre eles estavam o capitão William Bligh, do motim do Bounty; Joseph Banks, botânico da expedição de James Cook; Louis Antoine de Bougainville, seu herói de infância e primeiro explorador francês a chegar ao Taiti; e Simón Bolívar, a quem influenciou na luta pela libertação da América Latina, mas que depois o desapontou ao concentrar poder.
Ao completar 60 anos, Alexander von Humboldt celebrou ao lado do boticário local, avô de Vladimir Lenin.
Também conviveu com reis, poetas, escritores e artistas. A aristocracia europeia o admirava profundamente.
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A invenção da Natureza
Foi etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico, vulcanólogo e humanista.
Morreu aos 90 anos, em 1859, coberto de glória e reconhecimento.
Seus livros se tornaram best sellers
Escreveu dezenas de livros que venderam milhares de cópias em todo o mundo mas, segundo a autora,
uma de suas maiores realizações foi tornar a ciência acessível e popular.
E a autora conclui:
A sensação é que fechamos o ciclo. Talvez agora seja o momento em que nós e o movimento ambientalista devamos corrigir os desvios de rota, recolocando Alexander von Humboldt no papel de nosso herói.
A invenção da Natureza. Todo ambientalista tem que ler
Ele é pouco reconhecido hoje
Este o grande valor de, ‘A invenção da Natureza – A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt‘, recolocar o personagem em seu lugar de destaque.
Que este belo livro seja lido, e suas lições aprendidas, ainda que mais de 150 anos depois da morte de seu protagonista. Quem sabe deixemos de fazer as bobagens que hoje são feitas, que persistem destruindo nossa biodiversidade.