Falésias da Praia da Pipa: erosão, mortes e ocupação irregular
As falésias da Praia da Pipa ganharam atenção nacional em novembro de 2020, quando um desmoronamento matou um casal e o filho de apenas sete meses. A família descansava à sombra do paredão na praia de Pipa, em Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte.

A tragédia expôs o risco de uma formação comum no litoral brasileiro, mas ainda pouco conhecida e respeitada. Ondas, chuvas, ocupação urbana e drenagem inadequada podem tornar as falésias instáveis. Se um desastre serve a algum propósito, deve ser o de aprender com ele para evitar novas mortes ou, pelo menos, reduzir os riscos. Mas, a despeito do óbvio, cismamos em não aprender com nossos erros e os repetimos como foi o caso do Morro do Careca, em Natal.
Algumas fotografias deste post foram feitas durante a primeira expedição do Mar Sem Fim pela costa brasileira, entre 2005 e 2007.
Falésia, conheça esta formação
Um artigo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, escrito por Leonor Assad, resume bem o contraste: “As belas e perigosas construções da natureza”. As falésias impressionam pela paisagem, mas exigem cautela.
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Este ponto merece atenção. As ondas retiram material da base e deixam partes do paredão sem sustentação. Por isso, permanecer junto às falésias, sobretudo sob saliências ou blocos fraturados, pode representar risco.
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Onde ocorrem no litoral brasileiro
Segundo Leonor Assad, da SBPC, as falésias aparecem principalmente nas regiões Nordeste e Sudeste. Nesses trechos, alternam-se com praias, dunas, manguezais, recifes, baías e restingas, formando algumas das paisagens mais marcantes da costa brasileira.
No Nordeste, essa beleza favoreceu o turismo. Foi o que aconteceu na Praia da Pipa, antiga vila de pescadores que ganhou fama nacional e passou a receber um fluxo muito maior de visitantes. Sem planejamento, porém, o turismo desordenado transformou a paisagem, pressionou a infraestrutura e avançou sobre áreas frágeis.
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Falésias, sua beleza e o turismo no litoral
O mesmo artigo da SBPC destaca o valor turístico das falésias, sobretudo no Nordeste. Essas formações oferecem um atrativo especial: o mar visto de cima, emoldurado por praias arenosas e dunas.
Para Ronaldo Fernandes Diniz, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, as falésias nordestinas formam paisagens de rara beleza e grande importância para o turismo e o desenvolvimento regional.
Justamente por isso, sua ocupação exige cuidado. Quando hotéis, condomínios, estradas e mirantes avançam sobre bordas instáveis, o turismo deixa de valorizar a paisagem e passa a ameaçá-la.
O processo erosivo nas falésias
Segundo Leonor Assad, da SBPC, a erosão atua em duas frentes. Na base, ondas e correntes retiram sedimentos e escavam o paredão. No topo, a chuva infiltra água, enfraquece o solo e favorece rupturas.
Com o tempo, a base perde sustentação e blocos desmoronam. Assim, a falésia recua em direção ao continente. Por isso, essas formações constituem áreas naturalmente instáveis, com risco tanto na parte superior quanto junto à base.
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Falésias e a proteção ambiental
A Resolução Conama nº 303/2002 estabeleceu limites para Áreas de Preservação Permanente na zona costeira. Entre outras formações, protegeu manguezais, restingas e dunas. Também considerou APP a faixa de cem metros a partir da linha de ruptura de tabuleiros ou chapadas, formação associada a muitos trechos de falésias costeiras.
Em setembro de 2020, o Conama, então presidido pelo ministro Ricardo Salles, aprovou a Resolução nº 500 e tentou revogar essa proteção. A medida provocou forte reação de ambientalistas, cientistas e procuradores.
Primeiro, a ministra Rosa Weber suspendeu a revogação. Depois, em dezembro de 2021, o plenário do Supremo Tribunal Federal anulou definitivamente a Resolução nº 500 e restabeleceu as normas anteriores. Segundo o STF, a retirada dessas salvaguardas representava retrocesso na proteção ambiental. Portanto, a Resolução Conama nº 303/2002 continua em vigor.
A atividade turística nestas áreas
Leonor Assad também alerta para os riscos do turismo em áreas frágeis. Segundo a autora, a atividade só pode ser considerada sustentável quando respeita os limites econômicos, sociais e ambientais do lugar.
Para isso, planejamento e zoneamento são indispensáveis. Também é preciso definir a capacidade de carga de cada ecossistema, ou seja, o número máximo de visitantes e atividades que a área suporta sem perder biodiversidade, degradar a paisagem ou prejudicar a população local.
Na Praia da Pipa, esse cuidado faltou. O turismo cresceu mais rápido que a infraestrutura, ocupou áreas sensíveis e aumentou a pressão sobre falésias, praias e serviços públicos. Aliás, o problema segue se agravando e hoje ameaça 39 praias do Estado.
Turismo, desde que se respeite a legislação
Segundo Leonor Assad, o turismo pode ocorrer em áreas de falésias, desde que respeite a legislação e os limites ambientais. Na Praia da Pipa, porém, a ocupação avançou sem que o município definisse claramente a capacidade de carga das falésias.
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Hoje já não se pode afirmar que elas permanecem desocupadas. Um estudo publicado em 2023 na Revista Brasileira de Geomorfologia relacionou o risco local ao uso inadequado do solo e à instalação de estruturas em áreas vulneráveis. Além disso, o Mar Sem Fim mostrou o projeto de um condomínio com 11 blocos e 246 apartamentos junto ao Chapadão da Pipa.
Em 2025, o Ministério Público Federal voltou a cobrar de Tibau do Sul um diagnóstico da capacidade de carga das falésias, fiscalização e medidas para limitar a ocupação. Portanto, o problema não se resume ao comportamento dos visitantes. Ele também envolve especulação imobiliária, omissão pública e desrespeito aos limites de uma paisagem naturalmente instável.
Legislação ambiental frequentemente desrespeitada no litoral
Em minhas viagens pela costa brasileira, encontrei inúmeras construções, estradas e atividades turísticas avançando sobre áreas frágeis, inclusive falésias. Segundo Ronaldo Diniz, professor do IFRN, deve-se evitar nessas áreas edificações, tráfego de veículos, alterações na drenagem, lixo e turismo acima da capacidade de suporte.
José Maria Landim Dominguez, da UFBA, também defende faixas de recuo baseadas nas taxas locais de erosão. Além disso, alerta contra jardins, fossas e muros junto às falésias, pois essas intervenções aumentam a infiltração de água ou transferem a erosão para áreas vizinhas.
Apesar dos alertas e da proteção legal, o litoral brasileiro continua sofrendo com ocupações irregulares e omissão pública. A zona costeira não precisa de um ministro para ser maltratada. Nossa própria negligência já faz estragos suficientes.
Imagem de abertura: MSF
Fontes: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252010000200003#:~:text=As%20fal%C3%A9sias%20no%20Brasil%20ocorrem,conferem%20singularidade%20%C3%A0%20paisagem%20litor%C3%A2nea.
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