Trump contra a ciência, o meio ambiente, e o futuro
Trump contra a ciência ganhou agora um capítulo ainda mais grave. Seu governo decidiu que destruir o habitat de uma espécie ameaçada não significa causar-lhe dano, uma medida tão estúpida quanto fora de hora. Segundo o New York Times, a nova regra abre caminho para a destruição de habitats essenciais. Mineradoras, petroleiras, madeireiras e incorporadoras poderão avançar sobre essas áreas. Para isso, bastará não matar ou ferir diretamente os animais protegidos.

O ataque vai muito além das espécies ameaçadas. Trump nomeou um crítico da ciência climática, Matthew M. Wielicki, ex-geoquímico da Universidade do Alabama, para comandar o programa que produz o principal relatório climático dos Estados Unidos. Segundo o Washington Post, a edição mais recente, de 2023, detalhou o agravamento dos impactos climáticos em todas as regiões do país. A ver a que ponto será deturpado o próximo relatório.
Além disso, segundo o Guardian, seu governo lançou 145 ações para revogar ou enfraquecer regras ambientais nos primeiros 100 dias. Foi uma taxa vertiginosa. E muitas dessas medidas, revela o jornal, favoreceram diretamente a indústria dos combustíveis fósseis, que financiou generosamente sua campanha presidencial.
Enquanto destrói o aparato ambiental e científico dos Estados Unidos, Donald Trump e família não têm pudor em ganharem pelo menos US$ 2,2 bilhões em receitas e investimentos privados durante o primeiro ano de volta à Casa Branca, segundo declarações financeiras oficiais divulgadas pelo New York Times.
Trump desmonta a ciência e entrega o patrimônio ambiental aos aliados
Ao mesmo tempo, Trump arrasa o arcabouço ambiental construído pelos Estados Unidos ao longo de décadas, justamente quando o aquecimento global cobra seu preço com secas, incêndios, furacões, enchentes e ondas de calor que matam milhares no hemisfério Norte. Como os Estados Unidos têm peso decisivo na economia, na ciência e nas emissões mundiais, o ataque não atinge apenas os norte-americanos. Portanto, o mimado presidente agride amigos e inimigos de uma só vez.
Hiperativo, joga no lixo ativos importantes dos Estados Unidos. Entre eles, estão agências respeitadas mundialmente pela excelência de seu trabalho, como a NOAA, alvo de demissões em massa. E também ameaça estrangular a Ocean Observatories Initiative, rede com cerca de 900 sensores instalados em boias ancoradas nos oceanos Pacífico e Atlântico.
A nova manobra parece técnica, mas seu alcance é brutal, sugere o New York Times. Desde 1975, o governo norte-americano entendia que destruir um habitat também significava causar dano à espécie. Em 1995, a Suprema Corte confirmou a interpretação.
Agora, a nova regra restringe o conceito de “dano” à morte ou ao ferimento direto. Assim, abre caminho para mineração, petróleo, extração de madeira e obras em áreas essenciais à fauna ameaçada.
A mesma lógica chegou aos oceanos. Como mostrou o Mar Sem Fim, Trump abriu quase 1,3 milhão de km² de monumentos marinhos do Pacífico à pesca comercial. Em terra e no mar, ele remove barreiras e entrega o patrimônio natural aos grupos interessados em explorá-lo.
A conta da destruição que Trump não quer ver
Destruir regras ambientais também custa caro. Segundo o Institute for Policy Integrity, da Universidade de Nova York, os retrocessos de Trump colocam em risco US$ 156,6 bilhões por ano em benefícios à sociedade. O cálculo inclui economia de energia, gastos médicos evitados, menos dias de trabalho perdidos e redução dos danos provocados pela poluição.
Desse total, US$ 122,3 bilhões correspondem a benefícios climáticos. São prejuízos evitados quando as regras reduzem as emissões de gases de efeito estufa. Outros US$ 22,3 bilhões vêm da proteção à saúde, sobretudo pela melhora da qualidade do ar. As normas também poupariam US$ 17,1 bilhões anuais aos consumidores, com veículos, eletrodomésticos e edifícios mais eficientes.
Entre os principais alvos estão os limites de emissões para carros, caminhões e usinas. Ao desmontá-los, Trump aumenta a poluição, o consumo de combustíveis e as despesas das famílias. As empresas economizam no curto prazo. Já a população paga com doenças, energia mais cara e um clima ainda mais hostil.
Essa dívida não admite calote. Cedo ou tarde, os Estados Unidos terão de pagá-la com hospitais lotados, desastres mais caros, perda de produtividade e obras de adaptação. Além disso, o país poderá perder mercados, influência e aliados. Enquanto outras economias avançam na transição energética, Trump empurra os Estados Unidos para o atraso. Ou o país volta a cooperar com o mundo, ou acabará isolado por insistir em negar uma realidade que todos já enfrentam. Mas, estas questões, aparentemente, não interessam ao mimado inquilino da Casa Branca.