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Sem cabras, a vegetação da Ilha da Trindade volta a florescer

Sem cabras, a vegetação da Ilha da Trindade volta a florescer

A introdução de animais por exploradores nas ilhas durante as grandes navegações dos séculos 16 ao 19 causou algumas das catástrofes ecológicas mais dramáticas da história. Os ecossistemas insulares, que evoluíram em isolamento, careciam de predadores naturais e mecanismos de defesa, tornando-os excepcionalmente vulneráveis a espécies invasoras. Segundo a UNESCO, espécies introduzidas estão envolvidas em 86% das extinções registradas em ilhas. No Brasil não foi diferente. Navegadores introduziram porcos, cabras, galinhas e outros animais em Abrolhos e na Ilha da Trindade, uma de nossas mais importantes ilhas oceânicas. Hoje, quase trinta anos depois da eliminação das cabras, a vegetação floresce novamente.

Ilha de Trindade
A deslumbrante Ilha da Trindade em imagem da Marinha do Brasil.

Conheça a formação da ilha

A Ilha da Trindade  surgiu há cerca de 3 milhões de anos erguida da zona abissal do Atlântico por atividade vulcânica. O mar ao redor atinge profundidades de até 5.800 metros. Já a parte emersa alcança 620 metros de altitude e ocupa 9,28 km². Junto com o Arquipélago de Martin Vaz, forma um território federal sob administração da Marinha do Brasil desde 1957 e que, desde o Governo Michel Temer, tonou-se mais uma unidade de conservação do bioma marinho.

Imagem aérea da MB mostra a estação científica da ilha e alojamento dos marinheiros.

Trindade e seus muitos visitantes ilustres

Trindade foi descoberta por nautas portugueses. Algumas fontes dizem que João da Nova teria sido o descobridor. Outras, falam em Estevam da Gama, contudo, ambas no mesmo ano, 1501. 

A ilha tem um saboroso histórico de visitantes. Entre eles o astrônomo Edmond Halley, em 1700 que, encontrando-a deserta, ‘tomou posse’ em nome da Coroa britânica – teria sido esta expedição que deixou as cabras. E outros como  James Cook, em 1775; Dumont d’Urville, navegador francês, em 1826; James Ross (que desembarcou), em rumo para a Antártica, em 1839. A ilha  também foi ponto de parada de Robert Scott, a caminho do Polo Sul em 1911, quando morreu em sua disputa com o norueguês Roald Amundsen pela primazia de chegar ao polo. Os animais introduzidos são de algumas destas viagens.

Curiosamente, um dos tripulantes da expedição de Robert Scott, Apsley Cherry-Garrard, publicou o livro ‘A Pior Viagem do Mundo – última expedição de Scott à Antártica’ (Cia das Letras). Nele, Cherry-Garrard conta que o famoso corsário Capitão Kidd (1645-1701)… ‘ali enterrou um tesouro. Há uns cinco anos um camarada chamado Knight viveu na ilha durante seis meses com um grupo de mineiros de Newcastle- tentando pôr as mãos no butim…’

Ao pesquisar, encontramos referência à lenda em uma conferência sobre a Ilha da Trindade proferida pelo professor Bruno Lobo na Biblioteca Nacional, em 1918.

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Da perturbação à recuperação ambiental

Nem todos os animais deixados por navegadores na ilha da Trindade conseguiram sobreviver ao clima rude, exceção às cabras que passaram séculos pastando a vegetação, e milhares de ratos que viajavam nos porões dos navios. O Brasil demorou muito para exterminar os ruminantes mas, finalmente, a partir de 2005 a ilha ficou livre destes animais abatidos por atiradores da Marinha do Brasil.

O custo do tempo perdido não foi apenas da vegetação. Ainda em 2019 mostramos que restavam apenas 30 fragatas-de-trindade, uma ave endêmica. Motivo? A ave, em situação ‘criticamente ameaçada de extinção’, não encontrava mais árvores para fazer seus ninhos.

Fragata-da-trindade.

A importância das ilhas para a biodiversidade mundial  é amplamente reconhecida pela comunidade acadêmica. Basta saber que existem cerca de 465.000 ilhas no mundo que,  juntas, cobrem 5,3% da área do planeta. Contudo, as ilhas representam a maior concentração de biodiversidade e, ao mesmo tempo, extinções de espécies.

Florestas da ilha da Trindade

De acordo com o estudo Florestas da ilha da Trindade: conhecendo para recuperar, ‘até o Século XVII solos orgânicos profundos e exuberantes florestas cobriam uma grande parte da Ilha da Trindade. De certa forma era a mais “Atlântica” das matas. Seguiram-se três séculos de devastação, causada principalmente por grandes rebanhos de animais domésticos. Isso acarretou uma perda de biodiversidade e muitas espécies vegetais endêmicas tornaram-se ameaçadas ou mesmo desapareceram. Uma consequência menos conhecida dessa devastação foi a perda, por erosão, de boa parte dos solos férteis, que também mantinham uma reserva significativa de água doce’.

Imagem, Expedição Miramundos Ilha da Trindade.

Segundo a mesma fonte, ‘a partir de meados do século XX, a Marinha do Brasil iniciou um longo processo de redução dos rebanhos invasores, que culminou em 2005 com a erradicação dos últimos vertebrados de grande porte: as cabras’.

O estudo explica que a partir de 2011 foi firmado um acordo entre a MB, o Museu Nacional, e a Fundação SOS Mata Atlântica, para integrar os pesquisadores ao Programa de Pesquisas Científicas Na Ilha da Trindade, o PROTRINDADE.

A fantástica samambaia gigante (Cyathea copelandii). Imagem, Ramon Porto/TV Gazeta.

Os pesquisadores descobriram que apenas 10% do solo é orgânico e profundo o suficiente, o que ‘limitará a extensão do reflorestamento’. Contudo, eles revelaram uma boa notícia. A samambaia gigante (Cyathea copelandii), que ocupava o topo dos morros, e também endêmica, está se disseminando para muitas partes da Ilha, muito além das áreas onde ocorria até 2010.

A Rede Nacional de Pesquisa em Biodiversidade Marinha (SISBIOTA-Mar), com sede na UFSC, disponibilizou para download o livro PROTRINDADE: Programas de Pesquisas Científicas na Ilha da Trindade 10 anos de pesquisas.

Expansão de 1.468% da cobertura florestal em apenas 30 anos

Estudos conduzidos pelo Museu Nacional da UFRJ mostram que a vegetação nativa se recupera sem intervenção humana desde 2005, quando eliminaram os últimos animais invasores.

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O monitoramento sistemático, iniciado em 2014, documenta a transformação de áreas que haviam virado desertos de pedra. Assim, a cobertura florestal saltou de menos de 5% para cerca de 15% da área original. Isso significa 65 hectares recuperados. Entretanto, a vegetação rasteira avançou ainda mais. Expandiu-se por 325 hectares, um crescimento de 319%.

Nesta foto pode-se ver a incrível altura da floresta de samambaias no pico dos morros. Imagem, Expedição Miramundos Ilha da Trindade.

O impacto das cabras devastou a biodiversidade única da ilha da Trindade. Algumas espécies vegetais endêmicas, que só existem em Trindade, ficaram reduzidas a menos de dez indivíduos.

Hoje, segundo os pesquisadores, essas mesmas espécies já somam cerca de cem exemplares. Um salto que mostra a força da regeneração quando a pressão das invasoras desaparece.

Os resultados foram publicados em julho de 2025 no Journal of Vegetation Science. O estudo reúne Felipe Zuñe, Ruy José Válka Alves, Nílber Gonçalves da Silva e Márcia Gonçalves.

O próprio título resume o que ocorreu em Trindade: da perturbação à recuperação ambiental.

Que sirva de exemplo para que as cabras que restam no arquipélago de Abrolhos, o único banco de corais do Atlântico Sul, tenham o mesmo fim.

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