Recifes artificias com pneus na Flórida: fracasso total
Segundo o USA Today, a ideia começou nos anos 1970. Na época, lançaram entre 1 milhão e 2 milhões de pneus no mar, perto de Fort Lauderdale.
A área fica a cerca de uma milha da costa, diante de condomínios de alto padrão. O objetivo parecia simples. Primeiro, reduzir o volume de pneus acumulados em aterros. Ao mesmo tempo, os responsáveis esperavam criar um recife artificial.
O plano, porém, deu muito errado.
Os oceanos têm uma impressionante capacidade de recuperação, mesmo depois das agressões humanas. Um exemplo aparece quando estruturas duras chegam ao fundo do mar. Muitas delas acabam servindo de suporte para novas formas de vida.
Primeiro, algas e outros organismos colonizam a superfície. Depois, chegam moluscos e pequenos invertebrados. Em seguida, aparecem peixes menores. Por fim, esses animais atraem predadores maiores.
Assim, pouco a pouco, forma-se uma nova cadeia alimentar ao redor da estrutura.
Recifes artificiais no Brasil
No Brasil, algumas experiências usaram blocos de concreto. No litoral do Paraná, o professor Frederico Brandini, da USP, coordenou a instalação de recifes artificiais desse tipo. A iniciativa ajudou a criar o Parque dos Meros.
Também há projetos com embarcações fora de uso. Antes do afundamento, equipes retiram materiais contaminantes e preparam os cascos para reduzir riscos ambientais.
Em 2020, por exemplo, o ferry-boat Agenor Gordilho e o rebocador Vega foram afundados de forma controlada na Baía de Todos os Santos. A ideia era criar novos pontos de mergulho e estruturas capazes de atrair vida marinha.
Recifes artificias com pneus na Flórida: o erro
O principal erro esteve na forma de instalação. Os responsáveis amarraram os pneus com nylon e aço para mantê-los juntos e formar um grande recife artificial.
Mas as amarrações não resistiram. Muitos pneus se soltaram e chegaram às praias. Outros ficaram espalhados pelo fundo do mar numa área equivalente a dezenas de campos de futebol.
Pior ainda, milhares passaram a atingir recifes naturais próximos. Com o movimento das ondas e das tempestades, os pneus bateram contra corais e agravaram os danos.
Ray MacAllister, professor de engenharia oceânica da Florida Atlantic University e um dos idealizadores do projeto, acabou reconhecendo o fracasso:
“Não funciona. Foi uma má ideia.”
Outro especialista citado é William Nuckols, então coordenador da Coastal America. Ele passou a liderar um grupo de limpeza formado por mergulhadores e cientistas. Nuckols foi categórico:
“Os recifes com pneus tornaram-se uma máquina de matar corais mundo afora, em todos os lugares onde experiências semelhantes foram tentadas.”
No início do projeto, até a Goodyear ajudou com a doação de pneus. O problema apareceu depois. As amarrações não resistiram às correntes, às ondas e aos furacões frequentes na região.
Assim, muitos pneus se soltaram e passaram a circular pelo fundo do mar. Além do impacto físico sobre os recifes, a borracha também pode liberar compostos químicos e metais ao longo do tempo.
Por isso, o problema não ficou restrito ao fracasso do recife artificial. Ele criou um passivo ambiental que a Flórida ainda tenta remover décadas depois.
Até hoje isso é um problema na Flórida
Uma matéria do The Guardian, publicada em 2015, mostra que o problema continuava décadas depois.
Segundo o jornal, em 2007 as equipes retiraram cerca de 62 mil pneus do mar. Anos depois, a limpeza recomeçou no Osborne Reef, perto de Fort Lauderdale. Na época, ainda restavam centenas de milhares de pneus espalhados pelo fundo.
Ou seja, a tentativa de criar um recife artificial virou um passivo ambiental de longo prazo. E a retirada continua até hoje.
Assista ao vídeo que trata deste fiasco: