Pesca do Atum no Brasil
A pesca do atum não tem tradição no Brasil. Essa pescaria ocorre em alto-mar e costuma empregar pequenos navios com alta tecnologia. Mas, antes de falar da pesca, que tal conhecer melhor esse peixe (Atualizado em 2026)?
Os tipos de Atum
O atum é um peixe singular. Existem oito espécies, mas o atum-azul é o mais procurado. Sua carne tem mais gordura e, por isso, atrai os apreciadores de sushi.
Esse gigante marinho pode atingir três metros de comprimento e pesar cerca de uma tonelada. Além disso, alcança até 70 km/h ao perseguir suas presas. Sua vida dura entre 20 e 30 anos.
Ao contrário dos outros peixes, o atum tem sangue quente
Outra peculiaridade desses incríveis predadores: os atuns conseguem manter o corpo mais quente que a água ao redor. Assim, caçam até em áreas subpolares, muitas vezes abaixo dos 200 metros. Além disso, podem mergulhar até 900 metros.
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Seus cardumes normalmente acompanham as correntes marinhas, sendo encontrados em todos os oceanos. O atum é mais que um peixe qualquer. É um símbolo vivo dos oceanos. Quando se pesquisa sobre ele, percebe-se a admiração que desperta em todo o mundo.
Não há nos mares deste planeta nenhum peixe mais magnífico que o atum-azul. Ele pode atingir 3,65 metros de comprimento, pesar até 680 quilos e viver por 30 anos. Apesar de todo esse tamanho, é um primor da hidrodinâmica, capaz de nadar a 40 quilômetros por hora e mergulhar a quase 1 quilômetro de profundidade.
Assim se referiu ao atum matéria da revista Pesca Esportiva, e ela não é exceção.
O ‘melhor’ sushi causa o desaparecimento da espécie
Grande problema: a gordura de sua barriga
Mas os atuns, especialmente o azul, enfrentam um grande problema: a gordura. Os apreciadores a consideram a melhor carne de peixe para preparar sushi e sashimi. Além disso, a tecnologia da pesca reduz as chances de fuga.
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Por isso, o atum-azul do Atlântico e o do Pacífico integram a lista vermelha de espécies ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Além disso, a maioria dos atuns capturados apresenta contaminação por mercúrio.
História do consumo no Japão
Historicamente, o Japão não tinha tradição no consumo de peixes e outros produtos marinhos. Esses alimentos só ganharam importância a partir dos anos 1930. Hoje, porém, o peixe fornece 40% da proteína que os japoneses consomem.
O Japão consome sushi há séculos, mas seu preparo era muito rudimentar. Depois da Segunda Guerra Mundial, a refrigeração moderna mudou esse cenário. Com ela, o sushi e o sashimi com peixe cru ganharam popularidade
O mercado japonês consome e importa mais atum-rabilho do que qualquer outro no mundo. Em 2005, o Japão importou 55% do total das importações mundiais. Atualmente, o Japão, Espanha, França, Estados Unidos e Itália, representam 95% do mercado global. Os peixes são vendidos a preços exorbitantes.
Tentativa de regular a pesca do atum no Brasil e no mundo
Para minimizar este problema foram criadas associações e cotas para cada país apto a pescar o atum. Uma delas, a mais ‘respeitada’ (entre aspas porque sabe-se que muitos países não respeitam suas cotas) é a ICCAT, The International Commission for the Conservation of Atlantic Tunas. Apesar de sua notoriedade, ecologistas marinhos como Enric Sala garantem que há mais corrupção no órgão que no futebol. Já na Europa surgiram as Organizações Regionais de Gestão da Pesca, as ORGP, com o mesmo objetivo.
A organização reúne seus membros todos os anos para definir cotas, áreas e períodos de pesca. Além disso, estabelece regras como a presença de um observador a bordo de cada barco. Ele fiscaliza se os pescadores cumprem as decisões da reunião.
Histórico da pesca do atum no Brasil: desde 1959
No Sudeste e no Sul, a pesca de atum começou em 1959, também com barcos japoneses arrendados. Essa primeira fase durou até 1964. Naquele ano, porém, a instabilidade política levou os estrangeiros a buscar outros portos. Depois disso, o Brasil deixou a pesca de alto-mar de lado por muito tempo.
A partir do governo de FHC a prática mudou
A prática só mudou no governo FHC. Entre 1998 e 2002, o empresário paraibano Gabriel Calzavara de Araújo dirigiu o Departamento de Pesca e Aquicultura do Ministério da Agricultura. Nesse período, criou regras mais flexíveis para o arrendamento de barcos de pesca, por meio do Decreto nº 2.840. Até então, uma norma rígida de 1950 regulava o procedimento.
O estudo PESCA COM EMBARCAÇÕES ARRENDADAS NO BRASIL: UMA ANÁLISE ECONÔMICA DESTA ATIVIDADE NO PERÍODO DE 1998 A 2002 informa que
De acordo com (MAPA, 1997 p.1), uma segunda etapa de arrendamento de embarcações pesqueiras teve início no final dos anos 70, quando barcos pesqueiros, na maioria Asiáticos, começaram a exercer a pesca de superfície com isca viva dirigida à captura de Bonito-barriga-listrada (espécie de atum), em conjunto com embarcações nacionais compostos de sardinheiras e arrasteiros adaptados.
Mais de 300 navios pescam em águas brasileiras
O arrendamento de embarcações pesqueiras ganhou destaque no Brasil no fim dos anos 1990, com o Decreto nº 2.840, de 10/11/1998. A norma revogou os decretos anteriores e regularizou a entrada desses barcos.
Segundo consta, as empresas arrendatárias poderiam permanecer com as embarcações por três anos. Além disso, poderiam prorrogar o prazo por igual período. Com essa medida, 332 navios estrangeiros de pesca entraram na costa brasileira entre 1998 e 2002.
Gabriel Calzavara de Araújo sai do governo e funda duas empresas para a pesca do atum no Brasil
Gabriel Calzavara de Araújo, ex-secretário da Pesca no governo FHC, foi o autor do controverso decreto. Após deixar o governo, fundou duas empresas: a Atlântico Tuna e a Norpeixe. Em seguida, arrendou navios japoneses e ficou milionário.
Em 2010 e 2011, Calzavara firmou acordos comerciais por meio de suas empresas, em parceria com a Japan Tuna. Assim, viabilizou o arrendamento de embarcações japonesas com tecnologia avançada para pescar no litoral do Rio Grande do Norte. Com isso, ampliou significativamente a captura de albacoras de águas profundas no país.
Ainda em 2010, o governo distribuiu 17 licenças para embarcações estrangeiras pescarem atum. Desse total, 16 foram para barcos japoneses que a empresa de Calzavara arrendava.
Em 2007 novo estudo sobre a pesca do atum no país foi publicado
Pesca de atum movimenta US$ 4 bilhões de dólares por ano só no Atlântico Sul
…o rendimento proporcionado por esta pesca no mundo gira em torno de US$ 4 bilhões/ ano…
Com o esgotamento dos recursos pesqueiros costeiros, a principal alternativa para o desenvolvimento do setor pesqueiro nacional, excetuando-se a aqüicultura, reside na pesca oceânica, voltada para a captura de atuns e peixes afins. Porém vários são os entraves para o desenvolvimento da pesca oceânica nacional, com destaque para a falta de mão-de-obra especializada, de tecnologia e de embarcações adequadas…
Mas nem tudo é desvantagem…
Enquanto embarcações operando a partir de portos brasileiros alcançam as áreas de ocorrência dos cardumes com poucas horas de navegação, as frotas de países com grande tradição pesqueira, como o Japão, Taiwan, Coréia, Espanha, Portugal, entre outros, são obrigados, em alguns casos, a viajar mais de 20.000 km para atingir as mesmas áreas de pesca
Hazin defende o arrendamento
A produção nacional de atuns e afins cresceu de pouco mais de 20.000 t, em 1995, para mais de 50.000 t, em 2000, em decorrência, principalmente, da ampliação dos arrendamentos promovidos pelo DPA/ MAPA (Departamento de Pesca e Aqüicultura do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)
Sobre as embarcações brasileiras, disse Hazin
Neste contexto, registre-se que as embarcações nacionais são obrigadas a competir pelos recursos pelágicos deste oceano, com as frotas estrangeiras, particularmente a espanhola e japonesa, pesadamente subsidiadas e que operam com um custo financeiro que representa uma pequena fração da realidade brasileira
Pesca do atum no Brasil, o que preferimos?
O que claramente se coloca, portanto, é qual futuro o Brasil prefere. Conceder às frotas internacionais o livre acesso aos portos brasileiros, e ficar literalmente a ver os navios estrangeiros pescando em seu quintal, ou enfrentar o desafio de desenvolver a sua pesca oceânica.
E ele mesmo conclui:
Cientistas contrários à pesca
Alguns cientistas criticam a pesca de atum mesmo com as cotas e outras medidas. Sylvia Earle é uma delas. Sylvia garante que 95% do atum azul dos oceanos já se tornou sushi.
ONGs protestam
O Greenpeace também protestou
O Greenpeace flagrou, em fevereiro de 2001, o navio pirata Wen Shun 606 descarregando atum no Porto de Cabedelo, Paraíba. O Wen Shun 606 é listado na ICCAT como sendo navio que “se acredita engajado na pesca não-relatada e não-regulada”. A embarcação pirata é registrada em São Vicente e Granadinas, foi construída na China e pertence à Continental Handlers Limited, empresa baseada em Trinidad & Tobago.
Outras ONGs dizem que o ICCAT ignorou o conselho de cientistas que queriam o fim da pesca do atum-azul, já em 2009, e criou cotas de pesca da espécie de 13.500 toneladas.
O preço: maior inimigo do Atum
Sendo o atum um produto bastante rentável, as políticas de regulamentação e conservação existentes podem não ser suficientes para a manutenção da sustentabilidade das espécies.
A pesca de atum em 2024 no Brasil
O volume de captura do Brasil depende das disputas globais na ICCAT. Nesse cenário, o setor lutou recentemente para manter as cotas nacionais de atum-amarelo (yellowfin) e bonito-listrado. Com isso, buscou evitar a paralisação de frotas industriais no Sul e no Nordeste.
Em 2024, o Brasil capturou 55,1 mil toneladas de atuns e afins, segundo o relatório brasileiro apresentado à ICCAT em 2025. Esse total inclui também espadartes, agulhões, tubarões e outros peixes. Em comparação com 2023, quando as capturas alcançaram 69,1 mil toneladas, houve queda de aproximadamente 20%.
A atividade mobilizou 331 embarcações em 2024, das quais cerca de 244 eram artesanais e de pequena escala.
Fonte: Relatório anual do Brasil à Comissão Internacional para a Conservação dos Atuns do Atlântico — ICCAT, apresentado em 2025, com dados de 2024.
Pesca ilegal em na ZEE brasileira
A situação brasileira está longe da pilhagem promovida por pesqueiros chineses em águas argentinas. Ainda assim, há registros de conflitos e pesca ilegal envolvendo embarcações estrangeiras.
Por exemplo, em 22 de novembro de 2018, o pesqueiro chinês Chang Rong 4 abalroou o atuneiro potiguar Oceano Pesca I. Segundo os tripulantes brasileiros, a colisão foi proposital. Além disso, o navio chinês tentou atacá-los novamente. Contudo, o episódio ocorreu em águas internacionais, fora da ZEE brasileira. É o que registra o processo nº 33.245/2019 do Tribunal Marítimo.
Já em 18 de março de 2021, o navio-patrulha Bocaina apreendeu um pesqueiro venezuelano no litoral do Amapá. A embarcação tentou fugir com mais de quatro toneladas de pargo capturado ilegalmente. A Marinha divulgou a ocorrência em 23 de março de 2021.
Menos de um mês depois, em 13 de abril, o navio-patrulha Guanabara interceptou outro pesqueiro venezuelano. Seus 14 tripulantes transportavam aproximadamente uma tonelada de pargo e mero, capturados sem licença. O mero é uma espécie ameaçada de extinção. A Marinha publicou a notícia em 16 de abril de 2021.
Portanto, as fontes confirmam os dois flagrantes em águas brasileiras. Entretanto, não informam as coordenadas das abordagens. Além disso, nenhuma das duas ocorrências menciona captura de atum.
A pesca do atum se assemelha a um massacre
A ONG espanhola ‘Igualdad Animal’ produziu um vídeo da matança de atuns que fez furor. A ONG assegura que os peixes sentem dor.
Já este vídeo, resume a pesca do atum no Brasil
Fontes: https://oatumjornalismomultimedia.wordpress.com/seccao-ciencia-2/; http://curiosidadesculinariasdadonasinha.blogspot.com.br/2014/02/atum.html; http://www.suapesquisa.com/geografia/clima_subpolar.htm; http://arkeotavira.com/Estudos/MOEDAS-BALSA-R.pdf; http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/9817/1/ulfc103169_tm_lese_costa.pdf; http://new.d24am.com/amazonia/animais/atum-azul-pacifico-esta-ameacado-extincao/124308; http://www.iucnredlist.org/details/21860/0; https://www.iccat.int/en/; http://ec.europa.eu/fisheries/cfp/international/rfmo/index_pt.htm; http://www.sober.org.br/palestra/12/05O298.pdf; http://blogdotarso.com/2012/08/19/decreto-de-fhc-enriqueceu-membro-do-governo-fhc-que-ajudou-a-elabora-lo/; http://dinheirorural.com.br/secao/agronegocios/o-sommelier-do-atum; http://www.igualdadanimal.org/; http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1138936-barco-japones-domina-pesca-de-atum-em-aguas-do-brasil.shtml.