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Navios autônomos: a nova guerra naval já começou

Navios autônomos: a nova guerra naval já começou

As últimas guerras demonstraram que navios autônomos e drones navais já mudam a estratégia das marinhas mais avançadas. A Ucrânia, sem uma esquadra capaz de enfrentar a Rússia em combate convencional, mostrou que pequenas embarcações não tripuladas podem ameaçar navios muito maiores, mais caros e mais lentos para reagir. O recado chegou aos centros de decisão naval dos Estados Unidos, da Europa e da OTAN.

Navio autônomo da classe Liberty.
Navio autônomo da classe Liberty. A embarcação pode navegar 10.000 milhas transportando 150 toneladas métricas de carga útil. Foi construída para lidar com uma variedade de missões, desde operações de mísseis e sensores até logística, enquanto escolta navios tradicionalmente tripulados.

As últimas guerras demonstraram que os drones mudaram a lógica militar. Na Ucrânia, pequenos aparelhos baratos destruíram tanques, artilharia, radares, depósitos e navios. No Golfo e no Mar Vermelho, drones e mísseis lançados por grupos irregulares obrigaram marinhas poderosas a gastar munições caras para defender navios mercantes e militares. Os estrategistas entenderam o recado: quantidade, baixo custo, autonomia e saturação agora pesam tanto quanto grandes plataformas de guerra.

Navio autônomo holandês de patrulha Damen Stan 6009, um navio projetado para missões prolongadas com intervenção humana mínima. Ele tem o casco Axe Bow para melhor estabilidade em mares bravios. Imagem, Estaleiros Damen.

O nexo chegou ao mar. Navios autônomos e drones navais vigiam, atacam, lançam outros drones, confundem defesas e protegem cabos, gasodutos e rotas comerciais. A guerra naval começa a sair do modelo baseado apenas em grandes navios tripulados. Entra em cena uma frota híbrida, formada por fragatas, contratorpedeiros, submarinos e uma nova geração de engenhocas flutuantes, baratas, numerosas e difíceis de deter.

navio autônomo norte-americano USX-1-Defiant.

O Mar Sem Fim fez uma curadoria dos sites especializados para mostrar as últimas novidades.

O USX-1 Defiant e o navio sem marinheiros

O USX-1 Defiant, da DARPA, simboliza outro lado dessa ruptura. Ele não segue a lógica dos pequenos drones navais usados pela Ucrânia, baratos, numerosos e muitas vezes descartáveis. Ao contrário: é grande, sofisticado e  caro. Mede cerca de 55 metros e desloca 240 toneladas. O Defiant não é um “barco-bomba” barato, como muitos drones usados na Ucrânia. É um laboratório flutuante. Sua função é testar uma mudança radical: construir um navio de guerra sem ponte de comando, camarotes, cozinha, corredores ou qualquer estrutura pensada para marinheiros.

O USX-1-Defiant. Imagem, DARPA.

Segundo a DARPA – Defense Advanced Research Projects Agency – , o programa NOMARS, sigla para No Manning Required Ship, quer testar um navio capaz de operar por longos períodos no mar sem tripulação.

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Imagem, www.darpa.mil.

Os ingleses apostam na frota híbrida

A Royal Navy decidiu comprar 20 embarcações não tripuladas Kraken K3 Scout para acelerar sua frota híbrida. A expressão resume a nova doutrina: navios tradicionais continuam no centro da força, mas passam a operar ao lado de drones navais, sensores autônomos e pequenas plataformas sem tripulação.

Drone naval K3 SCOUT. Imagem, Royal Navy.

O Kraken K3 Scout foi desenvolvido pela empresa britânica Kraken Technology Group. Mede 8,4 metros, chega a 55 nós, alcança 650 milhas náuticas a 25 nós e pode levar até 600 quilos de carga útil. A Royal Navy comprou os barcos dentro do Project Beehive, justamente para testar operações, treinamento e novas táticas com meios autônomos.

Royal Navy.

O K3 Scout não pretende reinventar o navio de guerra inteiro. Ele funciona como uma plataforma modular. Pode levar sensores, fazer vigilância, apoiar forças especiais, proteger áreas costeiras e, no futuro, receber cargas diferentes conforme a missão.

O USS Gerald R. Ford. Imagem, Mass Communication Specialist 3rd Class Hannah Donahue.

Enquanto um porta-aviões como o USS Gerald R. Ford, o maior navio de guerra do mundo, custa cerca de US$ 13 bilhões, a Royal Navy comprou 20 Kraken K3 Scout por 12,3 milhões de libras. Mesmo com a ressalva de que o contrato britânico inclui apoio, treinamento e sistemas de controle, a diferença de escala explica por que as marinhas estudam frotas híbridas

No caso do Defiant, a DARPA não divulga um preço unitário oficial. O que há em fontes abertas é referência a um contrato da Serco de 68,5 milhões de dólares para o programa NOMARS.

Defiant: desenhado para nunca receber seres humanos

O mais interessante, entretanto, é o que torna o USX-1 Defiant tão diferente. A ruptura está no desenho. Durante séculos, todo navio de guerra nasceu em torno de pessoas: ponte de comando, camarotes, cozinha, banheiros, corredores, enfermaria, ventilação e sistemas de segurança para manter marinheiros vivos. O Defiant elimina essa lógica. Ele foi desenhado desde o início para nunca receber humanos a bordo.

Com isso, o navio deixa de ser uma casa de guerra flutuante. Tonra-se uma máquina naval pura. O espaço interno é inteiramente ocupado por combustível, sensores, sistemas de comunicação, baterias, redundância mecânica ou carga militar. O casco fica mais simples, eficiente e mais fácil de produzir. É essa a ruptura. O Defiant não representa o drone barato da Ucrânia, mas a tentativa norte-americana de redesenhar o navio de guerra a partir da ausência de marinheiros.

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Drones submarinos em teste

A DARPA também testa o mesmo processo no mundo submarino. Em 2024, o protótipo Manta Ray, desenvolvido pela Northrop Grumman, completou testes no mar ao largo da Califórnia. Trata-se de um veículo submarino não tripulado, modular, de grande porte, feito para missões longas. Ele usa flutuabilidade, hélices e superfícies de controle para manobrar, e pode receber diferentes cargas em compartimentos internos.

Drone submarino Manta Ray. Imagem, DARPA.

Outro detalhe chama atenção: a Northrop Grumman enviou o Manta Ray em partes, de Maryland à Califórnia, e montou o veículo no local dos testes. Para a DARPA, isso abre caminho para deslocar rapidamente grandes drones submarinos pelo mundo, sem ocupar espaço precioso em bases navais.

A Northrop Grumman recebeu um contrato de cerca de US$ 41 milhões para desenvolver, fabricar e testar o protótipo em escala real. O valor não representa o preço unitário de um futuro drone submarino operacional. Mesmo assim, mostra que a corrida pelos veículos autônomos já chegou ao fundo do mar.

A França quer drones navais armados até 2027

A Marinha francesa trabalha no projeto DANAE, sigla para Drone Autonome Naval avec de l’Armement Embarqué. O objetivo é criar embarcações de superfície não tripuladas e armadas. Segundo o Naval News, os primeiros sistemas devem chegar até o fim de 2027. A missão inicial será proteger bases, portos e navios de alto valor. Depois, os drones poderão escoltar navios de guerra no mar.

A França também avança na guerra de minas. O programa SLAMF substitui parte do risco humano por sistemas não tripulados. Em vez de enviar navios caça-minas para áreas perigosas, a marinha usa drones de superfície, sonares rebocados e veículos submarinos. Também há uma frente submarina: a Naval Group recebeu contrato para produzir um demonstrador de drone submarino autônomo de combate para a defesa francesa.

O modelo de navio autônomo francês.

A Armadilha de Tulcídides

O Xi Jinping foi claro em seu encontro com Donald Trump: “Deveríamos ser parceiros, não rivais. Devemos alcançar o sucesso mútuo e a prosperidade comum, encontrando uma forma correta para as grandes potências se relacionarem nesta nova era. O mundo chegou a uma nova encruzilhada. China e EUA podem superar a chamada Armadilha de Tucídides e criar um novo paradigma nas relações de grandes potências?”

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‘O mundo chegou a uma nova encruzilhada’. E o que a china está fazendo nesta área?

A China também acelera, mas sempre com menos transparência. Pequim trabalha em várias frentes ao mesmo tempo: drones de superfície, drones submarinos, navios-mãe de drones e grandes plataformas capazes de operar aeronaves não tripuladas. O objetivo parece claro: cercar áreas disputadas com sensores, enxames e sistemas autônomos.

O navio autônomo chinês Zhu Hai Yun considerado o primeiro porta-drones não tripulado do mundo. Ilustração, CSIS.

Um exemplo é o Zhu Hai Yun. Oficialmente,  um navio de pesquisa. Mas ele pode operar dezenas de drones aéreos, de superfície e submarinos. Mede cerca de 88 metros e foi construído pela China State Shipbuilding Corporation. Em 2023, contornou Taiwan, movimento visto por analistas como tentativa de sondar o ambiente marítimo e pressionar a ilha.

Imagem do navio autônomo chinês Zhu Hai Yun navegando, na TV estatal.

Segundo o csis.org, o navio autônomo é projetado para servir como uma mothership “nave-mãe” para mais de 50 veículos não tripulados de ar, superfície e submarinos que podem ser implantados a partir de seu convés enquanto estiver em andamento.

A disputa também vai para o fundo do mar

A nova guerra naval não ficará restrita à superfície. Cabos submarinos, gasodutos, sensores, minas e drones submersos também entraram no cálculo das marinhas. Por isso, os Estados Unidos testam o Manta Ray, grande drone submarino da DARPA para missões longas. A França avança em veículos submarinos e sistemas não tripulados para guerra de minas. E a OTAN usa o Báltico como laboratório para proteger infraestrutura crítica.

O submarino autônomo francês.

A lógica é simples. A guerra naval deixou de ser apenas confronto entre navios. Agora envolve presença permanente acima e abaixo da superfície. Grandes navios continuam importantes. Mas terão de operar ao lado de drones aéreos, embarcações autônomas e veículos submarinos sem tripulação.

Para saber mais, assista ao vídeo

O vídeo mostra como a HII, uma das maiores empresas de construção naval dos Estados Unidos, desenvolve uma frota de última geração na qual plataformas tripuladas, sistemas autônomos e tecnologias avançadas operam em conjunto e em tempo real em todos os domínios. Desde ferramentas de tomada de decisão baseadas em IA, também usada na exploração submarina, até sistemas não tripulados operando na linha de frente tática, cada recurso contribui para um quadro operacional único.

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