Espécies aquáticas invasivas: prejuízos de bilhões de dólares
Já contamos neste espaço sobre as nefastas consequências de espécies invasivas de vegetais ou animais para a biodiversidade global. No Brasil há alguns casos emblemáticos. O mais conhecido e problemático até agora foi a chegada do mexilhão-dourado, provavelmente incrustado no casco de um navio vindo da Ásia, ou na água de lastro. Ele entrou no Brasil pelos portos do Sul, possivelmente Rio Grande, em 1988. Outros dizem que a entrada teria sido via o rio da Prata, na Argentina. O fato é que o animal contaminou toda a América do Sul. Primeiro ele se estabeleceu no Lago Guaíba. Hoje, o mexilhão já está espalhado por muitos rios do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O molusco já contaminou o São Francisco, e há riscos de chegar até à bacia Amazônica. Nosso assunto são as Espécies aquáticas invasivas.

Espécies aquáticas invasivas
O mexilhão-dourado se proliferou de tal forma que hoje frequentemente entope as turbinas da Itaipu Binacional. A usina precisa desligar as turbinas para realizar a limpeza. A própria Itaipu Binacional reconhece o problema.
A Itaipu empreende um programa que tem reduzido progressivamente a quantidade de larvas de mexilhão-dourado no reservatório da usina. O molusco é responsável pelo entupimento de encanamentos em equipamentos da hidrelétrica e também causa desequilíbrios ambientais.
Presente de grego nas viagens marítimas do passado
Tem sido assim desde priscas eras. O professor Frederico Brandini, ex-diretor do Instituto de Oceanografia da USP, conta que o problema começou com as viagens marítimas:
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Limpeza oceânica já retirou 50 milhões de toneladas de plásticoDonzela-real, mais um peixe invasor no litoral de São PauloNova estação científica no arquipélago de São Pedro e São PauloQuando os espanhóis e portugueses (ou os Vikings? Ou os Fenícios? Não importa nesse contexto) chegaram do lado de cá, há mais de 500 anos, trouxeram um presente de grego para o ecossistema costeiro do continente americano: espécies exóticas.
Novas espécies exóticas no Brasil
No Brasil a nova vítima das espécies invasivas é o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. Em 2021 pesquisadores registraram 11 ocorrências do Pterois volitans, o peixe-leão. A espécie veio do Indo-Pacífico. Ela dominou o Caribe, avançou para o sul, cruzou a linha do Equador e agora encontra abrigo não só nas águas do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, mas já foi vista em águas do Maranhão até as de Santa Catarina.
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Não é a única espécie exótica a nos trazer problemas. Há outras que também competem com a fauna marinha. As principais são o coral-sol, o mexilhão-verde, e agora outro peixe, a donzela-real, também oriundo do Indo-Pacífico.
Nossos rios também sofrem com o problema. A tilápia, originária da África e Oriente Médio, e peixe mais cultivado no País, estabeleceu-se e tornou-se invasora em diversas bacias hidrográficas, rios e reservatórios, com destaque para as regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Pior, o peixe conseguiu se estabelecer e procriar no mar brasileiro.
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A bioinvasão do Mexilhão dourado do Prata à AmazôniaPeixe-leão espécie invasora se alastra no mar brasileiroMexilhão-verde, mais uma espécie invasiva no litoralE até um peixe 100% nacional, o pirarucu, um dos maiores peixes do Brasil e um dos maiores maiores peixes de escamas de água doce do mundo, originário da bacia Amazônica, escapou de criações e invadiu vários rios paulistas devorando as espécies nativas.
Espécies aquáticas invasivas: prejuízos de bilhões de dólares
As espécies aquáticas invasoras causam graves danos ao destruir a biodiversidade, provocar o colapso de ecossistemas e incorrer em prejuízos econômicos na ordem dos milhares de milhões, devido ao entupimento de infraestruturas e à redução das capturas. Os principais impactos incluem o deslocamento de espécies nativas, a alteração permanente de habitats e a promoção da proliferação de algas tóxicas. Estas espécies custam mais de 100 bilhões de dólares por ano em nível global.
De acordo com matéria do site EurekAlert, ‘Milhares de espécies exóticas estão atualmente documentadas em todo o mundo. Um quarto delas está em habitats aquáticos altamente vulneráveis.’
A matéria comenta o primeiro estudo global que levantou os custos econômicos das espécies aquáticas invasivas. O estudo foi liderado pelo GEOMAR Helmholtz Center for Ocean Research Kiel. e contou com a participação de 20 cientistas de 13 países.
“Chegamos à conclusão de que as espécies aquáticas invasoras que se estabeleceram em seus novos habitats custaram pelo menos 345 bilhões de dólares desde os anos 1970”, disse o Dr. Ross Cuthbert do GEOMAR. Ele é o autor principal do estudo que a Science of the Total Environment publicou.
De onde vêm os custos?
Segundo o estudo, custos econômicos ocorrem, por exemplo, quando espécies invasoras dizimam estoques de peixes explorados comercialmente, espalham doenças mortais ou danificam infraestruturas.
“Bons exemplos incluem mexilhões invasores que obstruem os tubos de entrada de fábricas, usinas de energia ou estações de tratamento de água. Ou parasitas que causam declínios catastróficos na pesca comercial”, explica o Dr. Cuthbert.
Para o estudo, a equipe utilizou casos registrados na literatura existente e os padronizou em um banco de dados abrangente.
Os invertebrados (62%) responderam pela maior proporção dos custos identificados, seguidos pelos vertebrados (28%) e pelas plantas (6%).
A América do Norte concentrou os maiores custos (48%), seguida pela Ásia (13%). Esses prejuízos atingiram principalmente infraestruturas físicas, sistemas de saúde e pescas.
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“No entanto, nossos números subestimam muito a realidade por causa das lacunas de conhecimento. Muitos países nunca relataram custos nem identificaram suas espécies invasoras, especialmente na África e na Ásia. Portanto, podemos presumir que os danos são realmente muito maiores”, afirma o Ross Cuthbert.
E nós incluímos a América do Sul que também deveria estar na lista dos países que sequer têm estatísticas a respeito. Portanto, o custo deve ser mesmo muito superior ao apontado pela pesquisa.
Imagem de abertura: GEOMAR
Fontes: https://www.eurekalert.org/news-releases/541136; https://www.geomar.de/en/news/article/invasive-aquatische-arten-verursachen-schaeden-in-milliardenhoehe.