Erosão costeira e inteligência artificial: Maldivas recuperam praias
Erosão costeira e inteligência artificial começam a se encontrar diante de um problema global. A erosão avança sobre litorais, ameaça comunidades e força governos a gastar bilhões em obras de contenção.

Agora, a IA pode oferecer uma alternativa mais precisa. A ideia é entender como ondas, correntes e sedimentos se movimentam. Em vez de simplesmente conter o mar, a proposta busca trabalhar com sua dinâmica natural.
A engorda tradicional, tão querida em Santa Catarina, retira areia de outro ponto, transporta o material e o despeja na praia. O problema é que ondas e correntes continuam agindo. Se a dinâmica costeira não mudar, parte dessa areia voltar a desaparecer. Foi o que aconteceu em todas as engordas do Estado.
Já a nova tecnologia, escorada pela IA, procura fazer o oposto do que vemos por aqui: em vez de despejar enormes volumes de areia ou bloquear o mar com pedras e concreto, tenta entender ondas, correntes e transporte de sedimentos para fazer o oceano acumular areia.
Há espaço para uma nova perspectiva sobre a adaptação climática, que se constrói com a natureza e aproveita os dados para a tomada de decisões equitativas”, diz a co-fundadora e CEO da Invena, Sarah Dole.
A IA não combate o mar: aprende a trabalhar com ele
A Coastal Assembly é uma empresa criada a partir de cerca de dez anos de pesquisas do Self-Assembly Lab, do MIT. Seu foco é desenvolver novas formas de enfrentar a erosão costeira usando dados, modelagem computacional e a dinâmica do oceano.
Em vez de começar pela construção de barreiras ou pela dragagem de grandes volumes de areia, procura entender como ondas, correntes e sedimentos se comportam em cada trecho da costa.
Os pesquisadores estão melhorando a capacidade de prever e rastrear mudanças em ilhas baixas por meio da análise de imagens de satélite – uma técnica que promete facilitar o que agora é um processo intensivo em mão-de-obra envolvendo pesquisas terrestres e marítimas por drones e pesquisadores a pé e no mar.
A inteligência artificial ajuda a identificar padrões e prever para onde os sedimentos tendem a se deslocar. Com essas informações, a equipe define onde instalar estruturas submersas. Elas não bloqueiam totalmente a água. Apenas alteram sua velocidade e direção em pontos específicos.
Quando a corrente perde força, parte da areia que ela transporta se deposita. Assim, em vez de dragar e despejar areia na praia, o sistema tenta usar a dinâmica do oceano para reconstruí-la.
Empresa de tecnologia climática das Maldivas
A história começou antes da criação da Coastal Assembly. A Invena, empresa de tecnologia climática das Maldivas, uma cadeia de 900 quilômetros de comprimento de cerca de 1.200 ilhas no Oceano Índico, conheceu as pesquisas do Self-Assembly Lab, do MIT, e convidou a equipe a visitar o arquipélago.
Durante a viagem, os pesquisadores conheceram um enorme banco de areia que havia surgido naturalmente em poucos meses. Foi ali que apareceu a ideia central do projeto: em vez de tentar impedir o mar de mover a areia, por que não orientar esse movimento para fazê-la se acumular nos lugares certos?
Da experiência inicial ao uso da inteligência artificial
Nas Maldivas, o sistema analisou cerca de dez anos de imagens de satélite, dados de ondas, marés, correntes e batimetria. O software reconstrói como aquela praia mudou, identifica os setores que mais perdem areia e tenta prever sua evolução. A empresa afirma que cada local passa a integrar uma base de dados crescente sobre o comportamento das linhas de costa.
A intenção é reduzir a energia da água em determinados pontos sem bloquear completamente as correntes. Com a velocidade alterada, a água perde capacidade de transportar determinados grãos e a areia começa a se depositar.
A partir desses dados, os pesquisadores calculam a geometria, orientação e posição de estruturas submersas. Elas não funcionam exatamente como quebra-mares. Então, a equipe instalava estruturas submersas para observar como elas alteravam correntes e o transporte de sedimentos.
Cada praia recebe uma configuração diferente. A empresa afirma que calcula até o espaçamento das estruturas e seu ângulo em relação às ondas e correntes predominantes.
54 estruturas submersas e uma praia 27 metros maior
Um dos testes mais recentes aconteceu no JW Marriott Maldives. A Coastal Assembly instalou 54 estruturas submersas, feitas de um concreto marinho desenvolvido para permanecer no fundo e favorecer a colonização por organismos.
Distribuídas de acordo com a dinâmica local das correntes e ondas identificadas pela IA, elas alteram o movimento da água e ajudam a criar zonas onde a areia pode se acumular.
Com o tempo, peixes, corais e outros organismos começam a ocupar essas superfícies. As estruturas passam então a funcionar também como uma espécie de recife artificial.
A IA não combate o mar. Procura descobrir como fazê-lo transportar a areia para onde é necessária. Segundo a empresa, a resposta apareceu em poucos meses. Em um trecho de cerca de 90 metros, a praia avançou aproximadamente 27 metros em direção ao mar.
Como disse ao New York Times o ex-presidente das Maldivas, Mohamed Nasheed, ‘as soluções que trabalham com a natureza, em vez de contra ela, devem ser adotadas rapidamente para fazer face à ferocidade das ondas que se aproximam de nós’.
Singapura e Holanda seguem em paralelo
Outra ilha que conseguiu aumentar sua área, em vez de perdê-la, foi Singapura. O país combinou obras de drenagem, grandes investimentos, recuperação de manguezais e barreiras de pedra ou concreto.
O resultado foi um aumento de cerca de 25% em seu território. E Singapura ainda pretende avançar mais: o plano é ampliar a área em outros 4% até 2030.
Já a Holanda, em vez de depender apenas de concreto, diques e comportas, também passou a trabalhar com os processos naturais. Assim nasceu o Sand Motor, uma enorme concentração artificial de areia que ondas, ventos e correntes redistribuem naturalmente ao longo das praias e dunas.
Já nos rios, o programa Room for the River criou áreas para receber o excesso de água durante as cheias, recuando diques, abrindo canais e recuperando planícies de inundação. Assim, a Holanda combina grandes obras de engenharia com soluções baseadas na natureza para reduzir o risco de alagamentos.
E até mesmo em Pindorama temos um exemplo, Santos, na Baixada Santista, é um dos municípios que age com apoio da ciência e alcança bons resultados até agora.
Não é rápido, fácil, ou barato. Mas, com muita tecnologia a FAVOR da natureza, jamais contra, sim, é possível mitigar o problema.
A Coastal Assembly agora quer saber se o método funciona longe das Maldivas. Segundo o New York Times, a empresa prepara dez novas instalações no arquipélago e projetos nas Bahamas, em Boston Harbor e Miami.
Os testes nos Estados Unidos serão especialmente importantes. Ali, a tecnologia terá de lidar com costas, ondas, sedimentos e condições climáticas muito diferentes das águas tropicais rasas onde nasceu.
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