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Construções pé na areia: o erro que o Brasil ainda aplaude

Construções pé na areia: o erro que o Brasil ainda aplaude

Em 2020, chamei de equívoco dos Tristes Trópicos a mania brasileira das casas, ou construções em geral, ‘pé na areia’. O argumento continua de pé. Experimente buscar a expressão no Google. Aparecem mais de dez páginas seguidas de anúncios de imóveis no litoral. Isso mostra como o erro segue vivo no imaginário nacional. Ao reler a história do Hotel Tambaú, em João Pessoa, percebi que o problema era ainda maior. Não se trata só do apetite do mercado imobiliário.

Hotel Tambaú na praia de João Pessoa
A admirada obra de Sérgio Bernardes, ícone da arquitetura moderna brasileira, em plena faixa de areia, atrapalhando a passagem das pessoas e ‘impondo’ uma estrutura dura sobre outra dinâmica por natureza.

O Tambaú foi assinado por Sérgio Bernardes. O hotel tornou-se marco urbano. Símbolo de modernidade. Porém, errado do começo ao fim. E é justamente por isso que seu caso impressiona. Ele mostra como a ocupação da praia por uma estrutura permanente pôde ser admirada, entre nós, como sinal de prestígio e sofisticação.

Símbolo arquitetônico errado do começo ao fim

Na mesma época em que o Tambaú surgia como símbolo de modernidade, Wallace Kaufman, ativista ambiental, e o geólogo costeiro, Orrin H. Pilkey Jr., provocaram a sociedade e causaram ‘barulho’ ao lançar, em 1979, um livro pioneiro e visionário.

Vista aérea do local de construção do hotel Tambaú. Imagem, SUPLAN Superintendência de obras do plano de desenvolvimento da Paraíba.

The Beaches Are Moving desmontava a crença, então dominante, de que o litoral era fixo, estável e sempre pronto para receber empreendimentos sem limite. Os autores mostraram, antes que isso se tornasse assunto corrente, que praias são sistemas vivos, móveis, sujeitos ao vaivém das ondas e à elevação do nível do mar.

Também advertiram contra o erro de fincar casas, hotéis, muros e outras estruturas rígidas em áreas assim. Era um alerta precoce. Quase uma profecia. Que o digam as praias de Santa Catarina, Atafona, a Baía da Traição e o litoral norte do Rio Grande do Sul, entre tantas outras.

A obra de Sérgio Bernardes, quase uma hagiografia

Apesar de tudo, esta obra de Sérgio Bernardes continua cercada de elogios, quase como numa hagiografia. Entretanto, o talento do arquiteto e a eventual força plástica do hotel não estão em discussão. O que está em discussão é o erro grosseiro do local da construção e a pervertida mania das casas pé na areia que segue seduzindo ignorantes.

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Uma das poucas exceções é o artigo Hotel Tambaú, um cancro de concreto armado. Nele, Clênio Sierra  aponta a localização inadequada do edifício, “ocupando uma grande extensão da faixa de areia, área pública da União” . O autor sugere ainda que a obra diz muito sobre os atropelos às leis que marcavam o período da ditadura militar mas que seguem sendo atropeladas até hoje.

Particularmente, não o considero bonito como arquitetura, mas diferente. Independente de meu gosto, tratou-se de erro grosseiro de localização e ‘privatização’ oficial da praia de Tambaú, um espaço que é de todos.

Sua crítica pode ser dura, mas tem o mérito da lucidez: por mais celebrada que tenha sido, o Tambaú fincou concreto armado sobre um corpo móvel por natureza e ainda barrou o caminho de quem anda pela praia.

O erro está na implantação na areia da praia

O erro está na implantação. Mesmo depois de tantos exemplos recentes de praias brasileiras desfeitas pela erosão, agravada por construções pé na areia e também por erros do próprio Estado, que finca estradas, avenidas, praças e calçadões sobre a areia ou sobre restingas, dunas e manguezais, o Hotel Tambaú ainda costuma ser celebrado quase sem ressalvas.

As construções pé na areia são erro antigo e que persiste. Imagem, SUPLAN.

Há, contudo, salutares exceções. Em Santa Catarina, ‘paraíso da especulação imobiliária’, professores da UFSC publicaram duas notas técnicas, a Nota Técnica nº 06, e Nota Técnica PES n°05/2025, que vão ao âmago do problema. Elas mostram que o litoral foi ocupado de forma errada, com avanço sobre áreas que deveriam permanecer livres.

Explicam também que praias são dinâmicas, mudam de forma, recuam e avançam. Por isso, insistem que não haverá solução real enquanto o Estado não enfrentar o essencial: desocupar a faixa de areia e retirar as construções erguidas onde nunca deveriam ter sido permitidas.

Ícone errado, pé na areia, vai prosseguir

Hoje, o antigo Hotel Tambaú está sob controle do Grupo Occean, do empresário potiguar Ruy Gaspar, após vitória judicial no STJ em 2025. O plano prevê investimento de mais de R$ 100 milhões, preservação da arquitetura externa, modernização interna e reabertura no fim de 2026, possivelmente na virada para 2027.

Hotel pé na areia entregue em 1971. Imagem, SUPLAN.

Críticas seletivas ao período militar e o respeito às leis

É curioso, mas ao pesquisar sobre a construção do hotel encontrei críticas seletivas ao desrespeito às leis no período militar, como se isso não acontecesse até hoje e quase sempre impunemente.

Germana Rocha, Nelci Tinem e Marcio Cotrim publicaram um deles no site Vitruvius: o artigo Hotel Tambaú, de Sérgio Bernardes.

O texto que começa com a frase, ‘Inserido em um banco de areia à beira mar…’, ou autores lembram que o hotel ‘festejado como um símbolo de modernidade e progresso’…’se afirmou como uma das mais representativas obras modernas do país‘, (e) ‘foi também objeto de polêmica, tanto na época de sua construção, quanto em momentos posteriores’.

‘A audácia da construção ia além das soluções técnicas não usuais, a obra ocupou uma área de proteção da Marinha do Brasil, sem respeitar as normas legais, fato possível somente em um contexto autoritário como o do final dos anos 1960′.

Em outras palavras, o artigo deixa escapar a cegueira ideológica de tratar como exceção da ditadura uma prática que o Brasil repete até hoje no litoral: o avanço sobre praias, dunas, restingas e outras áreas frágeis, quase sempre com a bênção do poder público.

Ainda assim, o texto ajuda a situar o ambiente em que a obra nasceu e a registrar que houve, sim, alguma contestação. Os autores lembram que, apesar das suposições, das críticas e dos argumentos a favor ou contra, o Hotel Tambaú seguiu adiante.

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Como aceitar uma obra deste porte pé na areia?

Os autores, Germana Rocha, Nelci Tinem e Marcio Cotrim, afirmam, porém, que o entendimento sobre ‘casas pé na areia’ está mudando. ‘Nas últimas décadas, porém, o debate reapareceu’. O olhar contemporâneo, mais sensível às questões ecológicas, trouxe de volta a pergunta inevitável: ‘como aceitar uma obra desse porte junto ao mar, em desacordo com a lei? Por isso, a implantação do hotel voltou a receber críticas’.

Hoje, estudos e opiniões de especialistas sugerem que a estrutura do hotel pode ter alterado o fluxo de sedimentos na enseada, contribuindo para o processo de erosão na Barreira do Cabo Branco, que já comentamos por merecer o mais porco enroncamento da costa brasileira, obra do prefeito Luciano Cartaxo.

Hoje, estudos e opiniões de especialistas sugerem que a estrutura do hotel pode ter alterado o fluxo de sedimentos na enseada, contribuindo para o processo de erosão na Barreira do Cabo Branco, que já comentamos por merecer o mais porco enroncamento da costa brasileira, obra do prefeito Luciano Cartaxo.

Atualmente, com o hotel fechado e em processo de revitalização, vozes da comunidade local e defensores do meio ambiente levantam debates sobre se o prédio deveria ser demolido para devolver a praia à natureza ou se sua importância histórica justifica a permanência.

E, você, o que pensa a respeito?

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