Albatroz-errante: o monarca do azul que atravessa oceanos
O albatroz-errante fascina os navegadores desde tempos remotos. Os portugueses se assombravam com seu tamanho. Além disso, descreviam sua presença como um “sinal de terra firme” ou de “correntes fortes”. Assim, essas aves gigantes ajudavam os marinheiros a interpretar o oceano.

No folclore marítimo dos séculos 17 e 18, os albatrozes carregavam outro significado. Segundo essa crença, as aves abrigavam as almas dos marinheiros que haviam morrido afogados.
Em 1758, o naturalista sueco Carl Lineu buscou inspiração na mitologia grega para dar à espécie o nome Diomedea exulans. Diomedea remete a Diomedes, herói da Guerra de Troia. Segundo a lenda, seus companheiros choraram tanto sua morte que a deusa Vênus os transformou em grandes aves marinhas.
Já exulans vem do latim e significa “exilado” ou “errante”. O termo evoca uma ave que cruza imensas distâncias sobre o oceano.
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Pesca no Sudeste e no Sul: estudo aponta sobrepescaFandango caiçara: a cultura que ainda resiste no litoral brasileiroIlha dos Lençóis e o reino encantado de Dom SebastiãoO nome comum, albatroz, também guarda uma ligação com navegadores. Sua origem remete ao português “alcatraz”, termo que designava grandes aves marinhas.
Com o tempo, o albatroz roubou a cena na literatura e se tornou símbolo do viajante solitário, da liberdade. Uma criatura que pertence ao vento e aos oceanos. Seu galante voo solo, e presença majestosa, fascinaram poetas e escritores.
Baudelaire o chamou de “monarca do azul” no poema O Albatroz. Já Herman Melville em Moby Dick, de 1851, descreve a ave como um ser de “brancura angelical” e uma majestade quase divina.
Pablo Neruda as homenageou em Ode a um Albatroz-Errante, ‘mestres do vento e das tempestades’ cujas “grandes asas de música” transformam o voo em uma eterna poesia.
As maiores asas entre as aves vivas
Há cerca de 15 milhões de anos (no Mioceno), os albatrozes já haviam se diversificado nos quatro gêneros modernos que conhecemos hoje, provando que seu design anatômico focado em planar por milhares de quilômetros sobre os oceanos é um dos maiores sucessos de sobrevivência da história do planeta.
O albatroz-errante tem a maior envergadura entre as aves atuais. De uma ponta à outra ela alcança cerca de 3,5 metros, segundo a BirdLife Australia. É quase o dobro da altura de uma pessoa adulta.
Esta adaptação permite percorrer enormes distâncias com mínimo esforço porque o albatroz sabe aproveitar a energia do vento para planar.
Albatrozes: os monarcas do azul que circunavegam a Terra
Os albatrozes pertencem à família Diomedeidae, que reúne 22 espécies. A maioria percorre os oceanos do Hemisfério Sul. Algumas, porém, vivem no Pacífico Norte. Atualmente, 15 das 22 espécies estão sob risco de extinção em diferentes níveis.
Estima-se que existam entre 1,5 e 2 milhões de albatrozes em todo o mundo. Apesar de parecer um número grande, a população global enfrenta uma séria crise de conservação. E, enquanto o albatroz-de-laysan conta com cerca de 874.000 indivíduos, outras espécies são extremamente raras, como o albatroz-de-amsterdam, que tem pouquíssimos casais reprodutores restantes.
Na vida adulta, passam anos em mar aberto cobrindo milhares de quilômetros. Aproveitando os ventos, podem viajar quase 1.000 km por dia praticamente sem bater as asas. Além disso, suas jornadas em busca de alimento alcançam até inacreditáveis 16.000 km.
Outra característica notável é a capacidade de beber água do mar. Para isso, contam com glândulas próximas aos olhos que filtram e eliminam o excesso de cloreto de sódio da corrente sanguínea.
Uma volta ao mundo em 46 dias
Um albatroz-de-cabeça-cinza completou uma volta ao mundo pelo oceano Austral em apenas 46 dias. Pesquisadores do British Antarctic Survey divulgaram o feito na revista Science, em 2005.
Além disso, outro estudo estimou uma velocidade média de pelo menos 127 km/h durante mais de oito horas. O registro também pertence a um albatroz-de-cabeça-cinza. Nesse caso, os fortes ventos de uma tempestade antártica impulsionaram a viagem.
Como os albatrozes planam quase sem bater as asas
Os albatrozes aproveitam a energia do vento para sustentar o voo. Perto da superfície do oceano, o atrito com a água reduz a velocidade do ar. Mais acima, porém, o vento costuma soprar com maior intensidade.
Assim, as aves alternam entre essas camadas em uma sequência de subidas, curvas e descidas. Sobem contra o vento, fazem uma curva e descem a favor. Depois, perto da água, viram novamente e repetem o movimento.
Essa técnica permite extrair energia do vento e compensar as perdas causadas pela resistência do ar. Os cientistas a chamam de planeio dinâmico. Um estudo publicado na PLOS ONE investigou esse mecanismo com equipamentos de rastreamento em albatrozes-errantes.
Uma vida no oceano
O albatroz-errante percorre águas antárticas, subantárticas e subtropicais. Entretanto, depende de ilhas para se reproduzir. Entre seus locais escolhidos estão os arquipélagos da Geórgia do Sul, ilhas subantárticas do Índico como Príncipe Edward, Marion, Crozet, e Kerguelen, e ao sul da Nova Zelândia na Ilha Macquarie.
Segundo o Programa Antártico Australiano, os jovens passam anos no mar antes de retornar à ilha natal para reproduzir. Assim, o oceano constitui seu principal ambiente de vida.
Isso não significa que permaneçam sempre voando. Os albatrozes também pousam na água, onde repousam e apanham alimento.
No cardápio entram peixes, lulas, águas-vivas e, ocasionalmente, crustáceos. Além disso, ele aproveita carcaças de pinguins e focas. Suas viagens em busca de alimento podem durar até 50 dias. Durante a reprodução, porém, os adultos encurtam essas jornadas para atender às necessidades do ninho.