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A conquista de Goa pelos lusitanos

A conquista de Goa pelos lusitanos

A conquista de Goa pelos lusitanos é mais um artigo especial para este site de *José Alfredo Vidigal Pontes.

Comércio e religião

Antes de mais nada, a célebre viagem de Vasco da Gama à índia em 1497 foi também o início da guerra santa portuguesa no Índico. Em todo esse oceano florescia um ativo comércio que entrelaçava portos da costa oriental da África, Mar Vermelho, Golfo Pérsico, Costa da Índia, Sudeste Asiático, China e Japão.

Mapa de Goa, em Histoire générale des Voyages, de la Harpe, 1750.

Porém, havia um amplo predomínio islâmico entre os mercadores árabes, turcos, persas e indianos islamizados. A maioria dos portos eram cidadelas fortificadas habitadas por comunidades de maometanos, muitas delas encravadas na costa da África e da Índia, notadamente a costa sudoeste indiana onde Vasco da Gama atracou.

A guerra santa

A vinculação da epopeia marítima comercial portuguesa com uma justificativa religiosa ocorre desde o seu princípio. A motivação econômica era lastreada por uma pretensa missão catequética cristã, legitimada pelo Papa. O Infante D. Henrique, Duque de Viseu, o grande artífice da exploração da costa atlântica africana, era também o mestre da Ordem de Cristo, desde 1319  sucessora da Ordem dos Templários em Portugal. Todas as conquistas de portos da costa marroquina e as feitorias subsequentes na costa africana mais ao sul foram incentivadas ambiguamente como religiosas e comerciais.

Vasco da Gama

E com Vasco da Gama não seria diferente. Antes de pisar na Índia, a esquadra aportou em Mombaça, praça comercial islâmica na costa de Moçambique, onde acabou por ser hostilizado e terminou por bombardear o porto ao se retirar. Seguindo em direção ao norte encontrou embarcações maometanas carregadas de mercadorias, as quais atacou e pilhou na altura da costa do Quênia.

Mapa da viagem de Gama.

Então, dirigiu-se ao sudoeste da Índia, orientado por informações que foi colhendo na viagem. Embora aportasse em Kapakadavu, seu objetivo era negociar com o Samorim, título do governante indiano da vizinha e ativa Calicute. Este considerou as mercadorias trazidas pelos europeus como de qualidade inferior àquelas transacionadas no Índico.

Os grandes comerciantes de Calicute eram muçulmanos de origem variada entre árabes, turcos e persas, que negociavam de tecidos a especiarias e cavalos. Assim, mesmo depreciados os produtos europeus, conseguiram-se embarques preciosos com especiarias que renderiam 800% de lucro à coroa na penosa viagem de volta em 1499.

Pedro Álvares Cabral

Sem demora, a coroa logo despachou outra esquadra à Índia, a cargo de Pedro Álvares Cabral, a mesma que desembarcou na Bahia em 22 de abril. Chegando a Calicute tomou conhecimento da animosidade ostensiva da comunidade islâmica da cidade aos portugueses.

Bombardeou a cidade e pilhou todos os navios dos comerciantes considerados como hereges, matando seus tripulantes. Sobretudo como retaliação e afirmação de sua autoridade de forma exemplar, executou centenas de pessoas, incluindo mulheres e crianças.

E essa seria a abordagem portuguesa nessa guerra contínua pelo domínio dos mares do Índico. Afinal, era de fato uma prática comercial pelas armas. Uma guerra mesmo! Desta forma, não é surpreendente que tanto Gama como Cabral carregassem ambos os princípios de honra peculiares aos fidalgos como o heroísmo associado à luta santa! E neste quesito foram exemplares, para o bem ou para o mal! Em suas batalhas foram bravíssimos e ao mesmo tempo implacáveis!

Afonso de Albuquerque

Portanto, esse seria também o comportamento de Afonso de Albuquerque, enviado em 1505 como Vice-rei da índia. Vinha com uma armada e a missão expressa de construir quatro fortes: em Cochim, onde Cabral já estabelecera uma feitoria, e os demais em Cananor, Coulão e na ilha de Angediva.

Frota de Afonso de Albuquerque em Goa. Ilustração, https://jornaldiabo.com.

Entretanto, ao se conectar em Cochim com um certo Timoja, corsário de origem indiana e desafeto dos islâmicos, recebeu preciosos conselhos do novo e decisivo aliado. Segundo o indiano, conhecedor da região, não valia a pena se desviar do principal objetivo considerado como ideal para o controle da região. Ou seja: a conquista de Goa!

Goa

Afinal, o dinâmico porto de Goa era para onde convergiam os cobiçados cavalos vindos de Ormuz e as especiarias de Malaca e Aden. Sobretudo por sua esplêndida localização, desfrutava de movimento intenso e diversificado. Tinha uma população indiana subjugada por uma tirânica guarda islâmica turca. Situada numa ilha do estuário do rio Mandovi, Goa possuía excelente defesa e um porto com águas profundas. Até mesmo um braço de rio com crocodilos enormes ajudava na proteção! E Timoja se propunha a ajudar na conquista com suas forças.

A primeira conquista de Goa

Sempre determinado, Albuquerque decidiu seguir o conselho de Timoja, ignorando as ordens de D. Manuel e a oposição de muitos capitães. Encorajado por uma esquadra com mais de 20 navios, 1200 soldados portugueses e auxiliado por 2.000 homens de Timoja, o Vice-Rei e sua armada entraram no rio Mandovi e conseguiram tomar a fortaleza de Pangim, nas proximidades. Em seguida entrou na cidade, já sem defesas: os islâmicos haviam se retirado. De imediato reformou muralhas e fossos, melhorando a proteção. Mas a paz seria passageira.

A reconquista muçulmana

Tão logo se reagruparam, os maometanos retornaram com vigor. Contudo, diante da superioridade dos atacantes, Afonso de Albuquerque resolveu deixar a cidade, dirigindo-se com os seus para os navios ancorados nas águas profundas do Mandovi. Já tinham se iniciado as chuvas das monções, o que impedia os barcos de zarparem.

Diante disso, esperaram por dois meses e meio, em grandes dificuldades de abastecimento, até conseguirem partir para a ilha de Angediva. Lá se encontraram com uma expedição lusa comandada por Diogo de Vasconcellos, a qual estava a caminho de Malaca para comerciar.

A segunda conquista de Goa

Assim, todos reunidos, se encaminharam para Cananor, onde afortunadamente encontraram mais duas frotas. Uma vinha de Socotra, nos mares arábicos, e a outra chegava do reino. Sob o comando de Albuquerque conseguiu-se agrupar mais de 30 navios, com 1600 tripulantes.

Timoja compareceu com 4.000 homens e o rei indiano de Onor, aliado do corsário, enviou 15.000 homens por terra. Foi um ataque devastador! Sobretudo devido à insurreição da população indiana e da ação rápida da infantaria portuguesa. Em poucas horas a guarnição de mercenários turcos foi subjugada. Se não fosse a determinação de Albuquerque, Goa jamais teria sido ocupada!  Enfrentou ordens reais, incompreensões, insubordinações e motins, mas atingiu seu objetivo!

“Goa dourada”

Daí em diante, o estuário do Mandovi passou a abrigar a “Lisboa da Índia”! Goa logo transformou-se no centro da presença portuguesa no Oriente. Além de reforçar as muralhas, Albuquerque organizou feitorias fortificadas e criou um senado e uma câmara municipal.

Construiu um hospital, uma igreja e a Casa da Moeda. Novos edifícios foram erguidos e o palácio do Samorim reformado. O Vice-rei estimulou abertamente a miscigenação de portugueses com mulheres locais, fossem indianas ou ex-escravas dos harens islâmicos.

Segregação

Essa população mestiça prosperou, mas nunca foi admitida nos cargos públicos ou no alto clero, dadas as exigências de “sangue puro” de portugueses natos, prática também adotada posteriormente no Brasil. Não se admitiam ascendentes mouros, judeus ou de qualquer indígena. Nem mesmo de artesãos urbanos, atividades consideradas pela nobreza como “ocupações vis”!

Até a Inquisição foi instalada décadas depois, para sofrimento dos locais! Esse ambiente segregacionista vai provocar uma conspiração contra o poder português no final do século 18, a Conjuração dos Pintos, contemporânea da Inconfidência Mineira no Brasil. Ambas foram severamente reprimidas.

Próspera Goa

Em 1961, após 450 anos de presença lusa, Goa foi ocupada por forças militares da Índia, passando a constituir o menor estado indiano em território, mas o quarto em população.

Basílica de Bom Jesus em Goa. Imagem, Wikimedia Commons.

Admiráveis construções portuguesas permanecem bem preservadas. Na região e por toda a Índia se encontram sobrenomes de origem portuguesa ainda hoje! Tem uma economia sólida baseada no turismo e plantações de especiarias, acompanhada por ótimos índices de qualidade de vida. Hoje Goa tem a maior renda per capita do país o que confirma sua prosperidade.

*José Alfredo Vidigal Pontes: historiador e jornalista. Graduado em História pela USP é autor de livros sobre a história do Brasil.

Leituras recomendadas:

Avelar, Pedro – História de Goa: de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, Alfradige, Texto, 2012.

Boxer, C. R. – O Império Marítimo Português 1415-1825, Lisboa, Edições 70, 2017.

Costa, João Paulo Oliveira e (coord.) – Rodrigues, João Damião – Oliveira, Pedro Aires _ História da Expansão e do Império Português, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2014.

Crowley, Roger – Conquistadores, São Paulo, Planeta, 2016.

Sanceau, Elaine – O Sonho da índia: Afonso de Albuquerque, Porto, Civilização, 1939.

Império Marítimo Português, venha conhecer 

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