A bioinvasão do mexilhão-dourado chega à Amazônia
A bioinvasão do mexilhão-dourado chegou nos anos 1990 na água de lastro de um navio asiático que aportou no rio da Prata, Argentina. Em 1998 já infestava a Lagoa dos Patos, e chegava ao Pantanal Mato-Grossense. O mesmo processo acaba de acontecer com outro tipo, o mexilhão-verde, que pode ter contaminado o manguezal da Baixada Santista.
Da Lagoa dos Patos, o mexilhão-dourado avançou pelas bacias da América do Sul. Subiu os rios Paraná e Paraguai, conforme já informamos. Em poucos anos formou colônias com mais de 150 mil indivíduos por metro quadrado. A invasão tomou rios do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Atingiu grandes bacias, usinas hidrelétricas e sistemas de captação de água.
Instalou-se em Itaipu, Porto Primavera e Sérgio Motta. Em 2015, cientistas confirmaram sua presença no rio São Francisco, na barragem de Sobradinho.
Agora, o invasor chegou onde todos temiam: a Amazônia.
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Em outubro de 2023, pesquisadores confirmaram pela primeira vez a presença do mexilhão-dourado no rio Tocantins, na Amazônia. A espécie chegou vários anos antes do que previam alguns modelos científicos.
Segundo o Correio de Carajás, pesquisadores do Instituto Evandro Chagas, de Belém, encontraram larvas do invasor asiático no rio Itacaiunas, no Lago Vermelho, no Lago de Tucuruí e no Pedral do Lourenção, no rio Tocantins.
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Saiba mais sobre o mexilhão-dourado
O mexilhão-dourado vive pouco, entre dois e três anos. Mesmo assim, amadurece cedo e cresce rápido. Fixa-se com força em superfícies naturais e artificiais e forma colônias densas.
Tolera diferentes condições ambientais. Dispersa-se com rapidez pelos rios. Estudos estimam avanço de até 240 quilômetros por ano em ecossistemas continentais.
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Hoje, não existe método eficaz para erradicar o mexilhão-dourado. Depois que se instala em uma grande bacia hidrográfica, ninguém consegue removê-lo por completo.
Os prejuízos da bioinvasão do mexilhão dourado na Amazônia ainda são desconhecidos
Os prejuízos da bioinvasão na Amazônia ainda permanecem incertos. Pesquisadores alertam, mas faltam estudos de longo prazo na região.
Segundo o Infoamazonia, o trabalho mais recente, publicado na revista Actapesca, propõe atualizar o mapa de distribuição da espécie na Amazônia brasileira. A equipe realizou uma revisão sistemática para reunir todos os registros confirmados.
Os resultados mostram que o mexilhão já ocupa todos os municípios banhados pelo rio Tocantins. Avançou também para sistemas conectados, como o rio Pará e áreas da ilha de Marajó. Ainda não há confirmação em Belém nem em alguns pontos próximos.
Pesquisadores alertam: o próximo passo pode ser a entrada plena do mexilhão-dourado no rio Amazonas. Ali, a bioinvasão pode ganhar velocidade.
A razão não é apenas biológica. É também social. Em muitas comunidades amazônicas, o transporte depende mais dos rios do que das estradas.
Embarcações, redes e estruturas flutuantes funcionam como vetores involuntários. Transportam larvas e colônias aderidas ao casco. Assim, a bioinvasão do mexilhão dourado pode alcançar novos trechos do Amazonas em pouco tempo.
“Dourado, mas não precioso: primeiros dados qualitativos e quantitativos sobre a bioinvasão do mexilhão dourado na Amazônia”
O estudo Golden but not precious: first quali-quantitative data on golden mussels bioinvasion in the Amazon, publicado em 2024, traz os primeiros dados detalhados sobre a bioinvasão do mexilhão dourado na região.
Os pesquisadores registraram densidades de até 15.849 indivíduos em Pedral do Lourenço. O número indica colonização rápida, severa e recente.
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O trabalho documenta a infestação no rio Tocantins, perto de Marabá e Tucuruí, no Pará. A expansão representa um avanço crítico da espécie no Brasil.
As conclusões soam como alerta. A bioinvasão do mexilhão dourado ameaça a biodiversidade amazônica, a pesca local e a infraestrutura hidrelétrica, como a usina de Tucuruí.
A Amazônia já enfrenta pressão demais. Agora soma mais um problema: a bioinvasão do mexilhão dourado. E combatê-la não será tarefa simples.
Desde que cientistas confirmaram a espécie na Bacia do São Francisco, muitos temiam sua chegada ao Norte. O receio se confirmou.
A região já convive com outras espécies exóticas, como o camarão gigante da malásia. A entrada de mais um invasor amplia o risco para ecossistemas frágeis e para a pesca artesanal.