Conheça o navio que salvou 23 mil vidas no Mediterrâneo
O navio que salvou 23 mil vidas no Mediterrâneo entrou em nossa pauta depois que assistimos ao filme 23.000 Vidas, da Netflix. A produção mostra algo raro nos dias atuais: o idealismo de jovens que recusaram a indiferença e decidiram agir.

A história do Iuventa começou em 2015. Naquele ano, quase 4 mil pessoas morreram afogadas ao tentar chegar à Europa pelo Mediterrâneo.
Jakob Schoen e Lena Waldhoff estudavam em Berlim e trabalhavam como voluntários em um centro de refugiados. Os dois se recusavam a aceitar que tanta gente fosse abandonada à própria sorte no mar.
Indignados com a inação dos governos europeus, resolveram arregaçar as mangas.
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Em 2016, a associação comprou o arrastão Central com recursos arrecadados por financiamento coletivo. Depois, muitos voluntários ajudaram a converter e reequipar a embarcação. Ao fim do trabalho, o velho pesqueiro recebeu o nome de Iuventa.
A Primavera Árabe muda a escala da tragédia
As travessias pelo Mediterrâneo não começaram com a Primavera Árabe. No entanto, as revoltas iniciadas em 2010 mudaram completamente a dimensão do problema.
Na Líbia, a queda de Muamar Kadafi, em 2011, destruiu o controle do Estado. Com isso, milícias e grupos armados passaram a disputar o país. Além disso, redes de traficantes tomaram conta de partes da costa.
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Os traficantes colocavam centenas de pessoas em barcos velhos e botes infláveis. Quase nunca havia coletes salva-vidas. Também faltavam combustível, água e comida. Em muitos casos, as embarcações sequer tinham condições de começar a viagem, que diria completá-la.
Como consequência, as mortes cresceram. Logo, as imagens de corpos no mar e de botes superlotados passaram a ocupar os noticiários europeus manchando a reputação do Mediterrâneo.
Foi essa mudança de escala que sensibilizou Jakob Schoen e os outros jovens da Jugend Rettet. Eles perceberam que não enfrentavam episódios isolados, mas uma tragédia humanitária contínua, um capítulo dramático da história marítima do século 21, um profundo fracasso moral e uma renúncia aos ideais humanitários do pós-guerra, algo que as futuras gerações talvez tenham dificuldade em entender.
A resposta fraca dos governos europeus
A tragédia crescia, mas os governos europeus priorizavam o controle das fronteiras. Foi nesse cenário que surgiu o navio que salvou 23 mil vidas.
A Itália criou a operação Mare Nostrum, em 2013, para resgatar pessoas perto da costa da Líbia. Porém, encerrou a iniciativa no fim de 2014.
Em seu lugar, a União Europeia lançou a operação Triton. Ela cobria uma área muito menor e priorizava a vigilância, não o salvamento em alto-mar.
Assim, os barcos de resgate ficaram mais distantes dos principais naufrágios, enquanto os traficantes continuavam lançando ao mar embarcações frágeis e superlotadas.
Foi diante dessa omissão que Jakob Schoen e seus amigos decidiram agir. Eles não tinham experiência, navio ou dinheiro. Porém, tinham algo que faltava aos governos europeus: disposição para salvar vidas.
O filme conta essa história por meio de Lukas Weiland, personagem fictício inspirado sobretudo em Jakob Schoen. Na vida real, Jakob tinha apenas 19 anos. Estudava em Berlim e trabalhava como voluntário em um centro de refugiados ao lado de Lena Waldhoff.
23 mil vidas salvas no Mediterrâneo
Entre 2016 e 2017, o Iuventa realizou 16 missões no Mediterrâneo central. Nesse período, sua tripulação socorreu 175 embarcações e participou do resgate de mais de 23 mil pessoas.
O pequeno navio não comportava todos os sobreviventes. Ainda assim, mais de 9 mil pessoas subiram a bordo. Nos demais casos, a equipe distribuía coletes, prestava os primeiros socorros e mantinha os botes estáveis até a chegada de navios maiores. Depois, as outras embarcações levavam os sobreviventes para portos italianos.
35 mil mortos ou desaparecidos nas travessias
Enquanto o navio que salvou 23 mil vidas atuava no Mediterrâneo, o mar continuava engolindo milhares de pessoas. Desde 2014, a Organização Internacional para as Migrações registrou cerca de 35 mil mortos ou desaparecidos nessas travessias. O número real, porém, deve ser muito maior, pois muitos barcos somem sem deixar sobreviventes ou qualquer registro.
No entanto, o reconhecimento logo deu lugar à hostilidade. Políticos e autoridades passaram a acusar as organizações humanitárias de incentivar as travessias e colaborar com traficantes.
Em 2 de agosto de 2017, a Justiça italiana apreendeu o Iuventa. Além disso, abriu uma investigação contra seus voluntários por suposto favorecimento à imigração ilegal. A medida interrompeu as operações do navio justamente quando ele mais salvava vidas.
O julgamento acaba, mas o Iuventa não volta ao mar
Enquanto o processo se arrastava, o Iuventa, o navio que salvou 23 mil vidas, apodrecia no porto de Trapani. As autoridades italianas apreenderam a embarcação em agosto de 2017 e a mantiveram parada durante quase sete anos. Sem manutenção adequada, sofreu corrosão, invasões e saques.
Ao mesmo tempo, dez integrantes das equipes humanitárias enfrentavam acusações de favorecimento à imigração ilegal. Alguns poderiam receber penas de até 20 anos de prisão. Porém, a acusação começou a desmoronar. Em fevereiro de 2024, os promotores pediram o encerramento do caso por falta de provas.
Finalmente, em abril de 2024, o Tribunal de Trapani encerrou o processo e absolveu todos os acusados. A decisão também liberou o Iuventa. A Justiça concluiu que não havia base para levar o caso adiante.
A equipe recebeu uma carcaça inutilizável. Segundo os responsáveis pelo Iuventa, o abandono causou prejuízos superiores a 200 mil euros. O navio já não valia sequer o preço da sucata.
A Justiça inocentou os jovens. Porém, durante os sete anos de perseguição, o Estado italiano conseguiu impedir que o navio voltasse ao Mediterrâneo. Enquanto o processo avançava lentamente nos tribunais, milhares de pessoas continuavam morrendo no mar.
O filme resgata a epopeia de um grupo de jovens idealistas. Eles deixaram um belo exemplo ao mostrar que cada pessoa pode fazer a diferença. Basta querer.
Assista ao vídeo que esta no site da Jugend rettet