❯❯ Acessar versão original

Estação Ecológica de Tamoios e seus problemas

Estação Ecológica de Tamoios e seus muitos problemas

A Estação Ecológica tem como principais objetivos preservar a natureza e apoiar pesquisas científicas. Por isso, permite apenas o uso indireto dos recursos naturais, sem consumo, coleta, dano ou destruição.

A visitação pública também é proibida. A exceção ocorre em atividades com objetivo educacional, conforme as regras do Plano de Manejo ou de regulamentos específicos da unidade.

Estação Ecológica de Tamoios e seus muitos problemas.

Bioma: marinho costeiro.

Município: Angra dos Reis e Paraty, Rio de Janeiro.

DIPLOMA LEGAL DE CRIAÇÃO: Dec nº 98.864 de 23 de janeiro de 1990

Área: 9.361,27 hectares

A ESEC de Tamoios tem Plano de Manejo.

Mapa da ESEC de Tamoios.

Estação Ecológica de Tamoios e seus muitos problemas: caderno de anotações

A  Estação Ecológica de Tamoios começa onde acaba a APA do Cairuçu, ou quase. A APA cobre a área da divisa com São Paulo, avança por toda a península de Paraty, e ainda engloba 63 ilhas da baía de Paraty.

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. Régis, chefe da UC, mostra no mapa a área protegida.

A partir daí, um pouco mais à direita, começa a área protegida pela Estação Ecológica de Tamoios  que segue espalhando-se pela baía de Ilha Grande incluindo em seus domínios 29 ilhas, lajes e rochedos, e o entorno marinho com raio de um quilômetro ao redor delas, representando 4% da baía da Ilha Grande.

Esta UC foi criada com o TAC (Termo de Ajuste de Conduta) da Usina Nuclear Angra 2. Ou seja, a contrapartida da construção de Angra 2 foi o dinheiro necessário para a implantação desta UC. Em termos de equipamentos ela está melhor que a anteriormente visitada, APA de Cairuçu.

A Estação Ecológica de Tamoios  tem dois barcos

Ao menos a Estação Ecológica de Tamoios  tem dois barcos, o que é o mínimo necessário para uma UC marinha funcionar. Mas falta pessoal. A UC tem apenas quatro analistas ambientais. O plano de Manejo prevê 55 funcionários. Quando isto vai acontecer, ninguém sabe.

Foi também nesta UC federal marinha, ele proteção integral, que o então deputado Jair Bolsonaro foi pego em flagrante pescando. Desde então o presidente promete ‘acabar com as multas do Ibama’, e iniciou sua jihad contra a conservação.

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. As Usinas Nucleares brasileiras foram erguidas na praia de Itaorna que, em Tupi Gurani significa “Pedra Podre”.

Os problemas da baía de Ilha Grande não são diferentes dos de Paraty. O que acontece de um lado, acontece também do outro. O maior inimigo de ambas é a  especulação imobiliária.

Atraída pela beleza das baías de Paraty e Angra, com suas várias praias, enseadas e ilhas, e da proximidade entre Rio e São Paulo, a especulação desabou sobre a região como as chuvas de verão no sudeste desde a abertura da BR 101, nos anos 70.

A especulação imobiliária provoca o super adensamento em topos de morros destruindo uma paisagem que levou eras para ser desenhada pela natureza.

A  BR 101 e a especulação

A estrada litorânea, que começa no Sul e termina no Nordeste, foi a porta de entrada para os aventureiros que compraram posses de caiçaras, ou se apoderaram de áreas públicas esquentadas posteriormente com documentos fajutos.

Em seguida começou a transformação. Condomínios, marinas, hotéis e casas de segunda residência avançaram sobre áreas de mangue. O processo foi rápido e continua até hoje.

Acompanhei essa mudança de perto nas viagens que fazia todos os verões com o barco de meu pai. A cada temporada, a paisagem parecia um pouco mais degradada.

A cada ano mais casas. Umas grudadas nas outras. Resultado triste da especulação imobiliária.

Século XXI

Neste nosso século as coisas não mudaram muito. A cada vez que visito as baías de Angra e Paraty, mais me convenço que tem gente demais no planeta. A pergunta que ainda não vi respondida por cientistas é: “a Terra é um planeta capaz de alimentar sete bilhões de pessoas, seus enormes rebanhos, e seus hábitos de consumo?”

Litoral entre São Paulo e Rio de Janeiro

É dos mais bonitos da costa brasileira. Mata atlântica por todos os lados. Manguezal como primeira barreira de proteção ao interior. Costões rochosos descendo verticalmente para o mar. Água do mar limpa e quente. Ao fundo, como moldura, a Serra do Mar coberta de verde oliva. Um cenário ideal, paradisíaco, para o veraneio.

Tanta beleza atraiu aventureiros e investidores tão logo a estrada foi aberta. Depois vieram os turistas. Em seguida começaram as mudanças.

Nas ilhas que fazem parte da ESEC de Tamoios é proibido o fundeio, desembarque, ou a pesca.

Os atrativos e a proximidade com dois grandes centros provocaram a vinda de hotéis, desde pequenas e inofensivas pousadas, até imensos resorts modificando para sempre o cenário. A paisagem única, maior atrativo e motivo de sua fama, foi aos poucos banalizada, mutilada pela especulação imobiliária.

Esta praia, no passado linda, tinha apenas a sede de uma fazenda construída no século XIX. Beleza destruída para dar lugar a resorts como este. Pode?

Portos, a baía de Ilha Grande e a Estação Ecológica de Tamoios 

Outro problema foi causado pelos portos. A baía de Ilha Grande, em Angra dos Reis, é um porto natural utilizado desde que os portugueses aqui chegaram, no século XVI. Com o tempo sua estrutura, antes pequena e discreta, passou a ocupar espaços cada vez maiores. Na cola vieram os grandes estaleiros.

Hoje uma parte da baía, o lado norte, mais parece um grande parque industrial. Depois da descoberta do pré-sal a estrutura portuária cresceu ainda mais e nada indica que vai diminuir, ao contrário.

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. Régis, chefe da UC, mostra um dos muitos peixes mortos que encontramos boiando nas águas da baía. Será contaminação por cloro?

A bioinvasão 

A consequência, além da descaracterização da paisagem, foi a bioinvasão através do coral-sol, um tipo exótico que chegou provavelmente incrustrado nas plataformas de petróleo. Há ilhas inteiras, como a Queimada Pequena, com sua porção submersa coberta por estes invasores.

Hoje, no verão, cerca de 46 mil embarcações, cálculo da Marinha do Brasil, disputam os espaços nas baías e enseadas de Angra e Ilha Grande, sem falar nos turistas que se contentam em ficar em terra firme. É gente demais para pouca infraestrutura. Mais uma vez, a rapidez da ocupação não foi acompanhada pelos serviços públicos.

O colapso: 15 anos para implantar a Estação Ecológica de Tamoios!

O saneamento básico é quase inexistente, enquanto a paisagem sofreu uma transformação profunda. Construções avançaram sobre topos de morros e costões rochosos. Em muitos trechos, moradores cimentaram ou muraram essas áreas para sustentar casas erguidas sobre elas, apesar das restrições previstas na Constituição estadual do Rio de Janeiro.

Os costões têm grande importância ecológica e funcionam como berçários para várias espécies marinhas. Além disso, dezenas de ilhas da região também receberam construções, muitas delas de forma irregular.

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. Costões murados são uma constante na baía.

Histórico da Estação Ecológica de Tamoios e seus muitos problemas

A história da ESEC não difere muito da APA de Cairuçu. Ela também teve que esperar 15 anos desde sua criação, até receber os primeiros recursos, e pessoal, para iniciar os trabalhos de preservação. Durante este período, diz o chefe Régis Pinto de Lima, ” seis ilhas foram ocupadas, hoje todas embargadas”.

De tempos em tempos a ESEC de Tamoios promove um mutirão para a retirada do coral sol. No último foram recolhidos 500 quilos do coral.

Régis mostra parte do coral sol, seco, recolhido das ilhas de Angra.

Usinas Nucleares e a ESEC de Tamoios

Para completar, as usinas nucleares Angra 1 e 2 ficam justamente nessa área. Angra 3 também integra o complexo.

Originalmente, o governo pretendia instalar essas usinas na região da Juréia, no litoral sul de São Paulo. Ambientalistas travaram uma longa batalha até conseguirem mudar o local do projeto.

Resfriando reatores nucleares com água da baía

As usinas nucleares criaram outro tipo de problema. Elas resfriam seus reatores usando a água da baía. Por dia são 11 bilhões de litros que entram por um lado da usina, passam por caminhos internos, e saem, adicionadas com cloro para evitar incrustação, por outro lado. Até agora não há estudos para saber as consequências de tanta água clorada, e mais quente, jogada na baía…

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. O tom de azul forte é em razão do cloro usado para evitar incrustações dentro das Usinas Nucleares.

Caiçaras são os primeiros a perder depois da implantação da ESEC de Tamoios

Outra consequência da criação das Usinas foi a remoção de todos os caiçaras da Praia Brava, que passou a ser a moradia de parte dos três mil funcionários que trabalham em Angra 1,2 e 3.

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. Praia Brava, antes reduto de pescadores artesanais, hoje moradia para funcionários das Usinas.

Como sempre, os caiçaras saem perdendo. E não foi só em Praia Brava. As  ilhas mais próximas da pequena vila de Tarituba, cujos moradores são pescadores artesanais, ou seja, caiçaras, ficaram dentro da ESEC. Como resultado os pescadores foram proibidos de exercerem sua profissão.

Conversei com alguns deles. A situação é desanimadora. Eles pescavam próximo à vila, em pequenas canoas. Agora não têm o que fazer, ou como alimentar suas famílias. Sobre este assunto, Régis, o chefe da UC, garantiu que vai providenciar licenças especiais para que os moradores de Tarituba possam voltar à sua antiga profissão.

Seu Ismael, pescador, morador de Tarituba, reclama de proibição da pesca. Como viver sem ela?

Usinas Nucleares tragam tartarugas

Em 2011, por sugestão da ESEC as Usinas começaram a fazer relatórios sobre o uso da água e suas consequências.

Uma das denúncias afirmava que, todos os meses, entre 20 e 30 tartarugas-verdes morriam ao entrar no sistema de captação de água das usinas. A instalação de redes e telas antes da entrada de água resolveu o problema.

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. Repare a rede colocada pouco depois da entrada do molhe das Usinas Nucleares. Elas impedem que tartarugas sejam sugadas para dentro dos equipamentos.

O pré-sal e a baía de Ilha Grande 

Para além dos problemas causados pelo super-adensamento, a baía de Angra sofre outras ameaças devido ao crescimento dos serviços nos portos.

Eles estão constantemente congestionados o que implica numa operação quase diária e bastante arriscada conhecida como “ship to ship”. O termo significa a transferência de petróleo vindo do pré-sal de um navio para outro, ao invés de descarregar no porto.

ESEC de Tamoios e seus muitos problemas. A perigosa operação de transferência de óleo, ship-to-ship, em plena baía.

Dois navios param no meio da baía, a contrabordo um do outro, para a transferência de óleo. Um descuido e toda a baía pode ser contaminada. Num dos passeios que fizemos, a bordo da lancha da ESEC, assistimos, com frio na barriga, mais uma operação deste tipo.

Apesar da ESEC de Tamoios sofrer os mesmos problemas das outras UCs federais marinhas quanto à falta de verba, ainda assim, graças a compensação ambiental, ela está em situação menos ruim que sua vizinha APA de Cairuçu.

Além disso, o chefe da UC, o oceanógrafo Régis Pinto de Lima, deixou uma excelente impressão. Muito bem preparado e engajado na causa ambiental, ele também conhece os caminhos da burocracia estatal. Com isso, consegue reunir os meios necessários para que a ESEC cumpra, ainda que minimamente, seus objetivos.

Em tempo:

Dia 31 de Março recebi o seguinte correio de Glória Alvarez, Coordenadora de Relacionamento com a Mídia, da Eletronuclear:

Prezado João Lara Mesquita,

A respeito da postagem ESEC de Tamoios, publicada na seção Blog do Mar, do site Mar Sem Fim, no dia 30 de janeiro de 2015, e da postagem da página do Facebook Mar Sem Fim, do dia 22 de março, que está em anexo, venho prestar alguns esclarecimentos.

As usinas Angra 1 e Angra 2 da Central Nuclear Almirante Alvaro Alberto utilizam água do mar para condensar o vapor gerado no circuito secundário e, de modo a evitar que ocorram incrustações de animais marinhos (cracas) nas tubulações, utiliza-se hipoclorito de sódio (cloro).

O cloro é uma substância volátil e se dissipa rapidamente no meio ambiente. A Eletronuclear o obtém da própria água do mar por meio de eletrólise.

Além disso, segundo a empresa, as concentrações utilizadas são muito baixas e seguem os limites previstos na legislação.

A Eletronuclear afirma que, desde 1981, mantém um programa de medição de cloro residual para cumprir a legislação ambiental. A empresa envia os resultados aos órgãos responsáveis pelo licenciamento e pela fiscalização.

Além dos relatórios mensais, a Eletronuclear diz que contratou estudos independentes. Segundo a empresa, esses estudos concluíram que as concentrações de cloro lançadas no meio ambiente não causam danos.

Por isso, solicita que o Mar Sem Fim publique essas informações para esclarecer seus leitores.

att

Gloria Alvarez

Coordenadora de Relacionamento com a Mídia

Eis o trecho do Facebook ao qual Glória Alvares se refere.

SERVIÇOS

Não é permitido o desembarque, ou fundeio, nas ilhas que fazem parte da ESEC. No entanto elas ficam no meio da baía de Ilha Grande cujo acesso é livre para quem tiver, ou alugar, um barco. Em Angra dos Reis há grande facilidade no aluguel de barcos de recreio, ou mesmo em barcos de pesca. Basta uma boa conversa com os pescadores.

Para maiores informações consulte: ENDEREÇO / CIDADE / UF / CEP: Rodovia BR 101 KM 531,5, Mambucaba – Paraty/RJ – CEP: 23.970-000

TELEFONE: (24) 3362-9885/ 3365-4148/VOIP (61) 3103-9908

Assista à primeira parte do documentário que produzimos durante visita à ESEC de Tamoios

Assista à segunda parte do documentário que produzimos durante visita à ESEC de Tamoios

Conheça a RESEX Corumbau

Sair da versão mobile