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Cruzeiro Hondius, o navio que Cabo Verde não quer receber

Cruzeiro Hondius, o navio que Cabo Verde não quer receber

Segundo a BBC, o navio de cruzeiro Hondius saiu de Ushuaia, no sul da Argentina, em 20 de março. A viagem deveria terminar em 4 de maio, em Cabo Verde. Operado pela empresa holandesa Oceanwide Expeditions, o navio  tem bandeira da Holanda e capacidade para cerca de 170 passageiros, além de tripulação, guias e médico a bordo. No caminho, cruzou o Atlântico Sul em direção ao arquipélago africano. A bordo estão cerca de 149 turistas, segundo o Departamento de Saúde da África do Sul. É difícil imaginar o clima dentro de um navio de expedição relativamente pequeno, lento e isolado no Atlântico, enquanto passageiros adoecem e morrem por suspeita de hantavírus.

Durante a viagem, três cidadãos holandeses perderam a vida. Um homem de 70 anos morreu ao chegar à ilha de Santa Helena. Sua mulher, de 69 anos, também deixou o navio e seguiu para a África do Sul. Ela desmaiou no aeroporto OR Tambo, em Joanesburgo, quando tentava pegar conexão para a Holanda. Levada a um hospital próximo, morreu pouco depois. A terceira vítima, também holandesa, permanecia a bordo, segundo a BBC.

Cabo Verde barra desembarque do Hondius

Notícia ruim se espalha rápido. Assim, quando o navio de cruzeiro Hondius se aproximou da cidade da Praia, capital de Cabo Verde, as autoridades locais já sabiam do problema. Desse modo, não autorizaram o desembarque.

A rota do Hondius.

Segundo a imprensa cabo-verdiana, a presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública, Maria da Luz, disse que a medida buscava proteger a população local. O navio deveria “continuar a sua rota”. Na prática, o Hondius ficou ao largo de Cabo Verde, com doentes a bordo e sem permissão para concluir a viagem como previa o roteiro original.

O temor se explica transmissão do hantavírus. Contudo, o vírus não costuma passar de uma pessoa para outra. O risco vem, sobretudo, do contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados. Em ambientes fechados, como porões, depósitos e áreas técnicas de um navio, partículas contaminadas podem se espalhar pelo ar. Por isso, Cabo Verde teme menos os passageiros e mais o navio de cruzeiro Hondius como possível ambiente contaminado.

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A origem da quarentena

A decisão remete à própria origem da quarentena. No século 14, Veneza e outras cidades portuárias do Mediterrâneo temiam a chegada da peste em navios vindos de áreas contaminadas. Para reduzir o risco, passaram a obrigar embarcações, tripulantes e mercadorias a esperar antes do desembarque. O período chegou a 40 dias, daí a palavra quarentena, derivada de quaranta giorni, ou quarenta dias em italiano. O medo era antigo, mas a lógica permanece atual: quando há suspeita de doença a bordo, o porto tenta impedir que o problema desembarque.

A pandemia de COVID-19 mostrou que a velha lógica da quarentena não ficou no passado. Em 2020, vários cruzeiros viveram drama parecido. O Westerdam teve a entrada recusada por diversos países até conseguir atracar no Camboja. O Diamond Princess ficou em quarentena no Japão e se tornou um dos primeiros grandes focos da doença fora da China. Na época da pandemia pelo menos 17 navios de cruzeiros tiveram passageiros com teste positivo para COVID-19.

Você sabe o que é o hantavírus?

O hantavírus aparece, em geral, associado a roedores silvestres ou urbanos infectados. Além disso, a transmissão ocorre quando pessoas respiram partículas contaminadas por urina, fezes ou saliva desses animais. Também pode ocorrer por contato direto com material contaminado. Por isso, depósitos, porões, áreas de carga e espaços pouco ventilados despertam preocupação em um navio.

O problema é que a doença pode ser grave. No início, os sintomas lembram uma gripe forte, com febre, dores musculares, dor de cabeça e mal-estar. Em alguns casos, porém, o quadro evolui para dificuldade respiratória, queda de pressão e falência de órgãos. Daí o medo das autoridades sanitárias. Portanto, não se trata apenas de saber quem está doente, mas de descobrir se o ambiente do navio ainda oferece risco.

O surto desencadeou uma resposta internacional de saúde pública

Segundo o site da ONU, ‘um surto de hantavírus mortal a bordo de um navio de cruzeiro no Atlântico desencadeou uma resposta internacional de saúde pública’.

A Organização Mundial da Saúde, um braço da ONU está coordenando evacuações e avaliações de risco após a morte de três pessoas e múltiplas infecções suspeitas. Um paciente permanece em terapia intensiva na África do Sul.

Até o momento, um caso foi confirmado após a verificação em um laboratório, mas há cinco casos suspeitos adicionais entre os que estão a bordo. Para Mohamed Yakub Janabi, diretor regional da OMS para a África, “este é um evento sério, mas contido, e não há necessidade de restrições de pânico ou de viagem nesta fase”.

Enquanto isso Bhanu Bhatnagar, da mesma agência declarou que ‘as infecções do vírus são incomuns e geralmente ligadas a roedores infectados. Eles podem ser graves em alguns casos, e não são facilmente transmitidos entre as pessoas.  O risco para o público em geral permanece baixo neste momento, e não há motivo para preocupações ou restrições de viagem’.

23 nacionalidades a bordo: um navio de Babel

A bordo havia 149 pessoas, de 23 nacionalidades, segundo a Oceanwide Expeditions. É difícil imaginar o clima dentro de um navio de expedição relativamente pequeno, lento e isolado no Atlântico, enquanto passageiros adoecem e morrem em circunstâncias ainda sob investigação.

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A empresa informa que apenas um caso de hantavírus foi confirmado até agora: o de um passageiro britânico evacuado para a África do Sul, onde seguia internado em UTI, em Joanesburgo. Portanto, ainda não se pode afirmar que o vírus tenha causado as três mortes.

Segundo a Associated Press, dois tripulantes do Hondius, um britânico e um holandês, apresentam sintomas respiratórios e precisam de atendimento médico urgente. Cabo Verde enviou ao navio uma equipe com dois médicos, uma enfermeira e um especialista de laboratório. A OMS informou à agência que as autoridades planejam evacuações médicas, com transporte dos pacientes por ambulância até o aeroporto, sem desembarque regular em Cabo Verde.

Para saber mais, assista ao vídeo

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