Cidade de Iguape sofre há 300 anos com o Valo Grande
A cidade de Iguape paga há 300 anos o preço do Valo Grande. O canal, aberto com fins econômicos, desorganizou o estuário, arrasou o antigo porto, afetou os manguezais e bloqueou parte do desenvolvimento local. O resultado salta aos olhos até hoje: um impasse histórico, ambiental e econômico que se arrasta sem solução.

No século 18, o ouro de Iguape chegou ao fim. A cidade entrou em decadência, e muitos pioneiros a deixaram. Os que ficaram passaram a cultivar arroz nas várzeas do Ribeira de Iguape.
O Porto do Mar Pequeno virou o principal ponto de escoamento da produção. A cidade voltou a crescer. Surgiram novas construções, jornais, companhias de teatro e uma nova igreja Matriz.
O Porto do Mar Pequeno tornou-se o principal ponto de escoamento da produção. Iguape voltou a crescer. Surgiram novas construções, jornais, companhias de teatro e uma nova igreja Matriz.
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No século 19, Iguape viveu seu período mais próspero. A cidade ganhou casarões históricos, dois portos movimentados, teatros e quatro jornais diários. Também abrigou um vice-consulado português. Nesse tempo, tornou-se uma das principais cidades do sul do Brasil.
Porto do Mar Pequeno
Na época, o arroz seguia em burros ou carroças por três quilômetros até o Porto Grande, de onde era exportado. A riqueza local e o transporte difícil levaram à ideia de abrir um canal ligando o rio ao mar, encurtando o trajeto.
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Depois de anos de discussão, escolheram o trecho mais curto e arenoso. A obra transformou Iguape em uma ilha, cercada pelo rio Ribeira e pelo Mar Pequeno. Mas a decisão, que parecia lógica, logo se mostrou um erro.
Um dos maiores desastres ecológicos do século 19
O canal, aberto por escravizados e inaugurado em 1852, tinha apenas quatro metros de largura. Mas a força das águas logo ampliou a vala. O Valo Grande virou um canal largo, destruindo tudo ao redor.
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Chuvas em Ubatuba expõem falhas no planejamento urbanoRessacas no litoral brasileiro: o custo invisível que ninguém calculaGrilagem avança no entorno da APA Baleia-SahyA enxurrada de água e lama assoreou o Mar Pequeno e impediu a entrada de grandes navios. Além disso, a descarga de água doce afetou a vida marinha. O resultado foi um dos maiores desastres ecológicos do século 19.
Poucos anos depois, o porto tornou-se inútil para navios de grande calado. A exportação de arroz parou, a produção caiu. Hoje, com IDH abaixo da média nacional, Iguape sobrevive da pesca e do turismo.
Parte do mangue agoniza
Hoje, parte do mangue de Iguape agoniza. O excesso de água doce que desce pelo Valo Grande sufoca o ecossistema do Mar Pequeno. A cidade histórica, além disso, foi cortada ao meio e segue sendo erodida pela força do canal.
“É terrível”. Medimos, ano após ano, a morte do mangue de Iguape. E com ele, a perda de todos os serviços ambientais que os manguezais oferecem de graça.” O alerta é da professora Marília Cunha Lignon, da Unesp de Registro. Desde 2010, ela estuda o manguezal da região, no litoral sul de São Paulo.
Você conhece os serviços ambientais do manguezal?
O manguezal é o segundo maior berçário marinho do planeta, atrás apenas dos recifes de coral. Também abriga aves como os guarás e outras espécies costeiras.
Além disso, um hectare de mangue sequestra até quatro vezes mais CO₂ que o mesmo espaço de floresta tropical. É um aliado poderoso contra as mudanças climáticas.
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Agora veja, a cidade de Iguape tem um lindo casario antigo muito bem preservado.
Segundo o IPHAN, as casas e sobrados de pedra e cal refletem diferentes fases da história de Iguape. Parte vem do ciclo do ouro, iniciado no século XVI.
Cavernas no sul de São Paulo: um espetáculo da natureza
A região de Iguape guarda outro atrativo impressionante: suas cavernas. Formações naturais belíssimas, pouco conhecidas do grande público.
Segundo a Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), o estado de São Paulo abriga 12,5% das cavernas registradas no Brasil. São 718 sítios espeleológicos já cadastrados. Outros 40 aguardam inclusão oficial, com levantamento topográfico, dados sobre rochas, extensão e características geológicas.
A Casa da Pedra, no PETAR, tem o maior pórtico de caverna do mundo, com 215 metros de altura. A região também abriga cavernas profundas, como o Abismo do Juvenal, com 241 metros de desnível.
Vocação para o turismo
Para começo de conversa, Iguape está dentro da Área de Proteção Ambiental Federal (APA) Cananéia-Iguape-Peruíbe. A cidade também faz parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e do Sítio do Patrimônio Mundial Natural.
A região abriga milhares de rios e canais cercados pela Mata Atlântica. Neles vivem espécies endêmicas e ameaçadas, como o papagaio-de-cara-roxa, bugios, tartarugas-verdes, botos-cinza, águias-cinzentas e micos-leões-da-cara-preta.
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Gosta de praia? A mais próxima do centro de Iguape fica a cinco minutos, em Ilha Comprida. São 70 km ininterruptos de areia e mar. Se quiser explorar mais, vale conhecer a praia de Camboriú (ou Cambriú, como também é chamada), na Ilha do Cardoso, a 90 km de distância. Para mim, é uma das mais bonitas do Brasil.
Iguape está entre as cinco cidades mais antigas do Brasil
Iguape é uma das cidades mais antigas do País. Como vimos no início deste post, o primeiro núcleo europeu surgiu no Outeiro do Bacharel, um pequeno morro na barra de Icapara.
Mas de onde vem o nome “Morro do Bacharel”? Ele homenageia um personagem histórico encontrado por Martim Afonso de Souza em sua expedição de 1531, na região de Cananéia. O relato da viagem, feito por Pêro Lopes, irmão de Martim, menciona o encontro com o bacharel, “mais sete ou oito espanhóis” e diversos indígenas.
Segundo o historiador Ernesto Guilherme Young, no livro Esboço Histórico da Fundação de Iguape, há fortes indícios de que o bacharel e seus companheiros fundaram a cidade.
Mas Iguape tem outras características que a tornam única. Conhecida também como “Princesa do Litoral”, a cidade é um reduto da cultura caiçara. E, o melhor: essa cultura é valorizada pelos moradores e preservada no dia a dia.
Fandango, Marujada, Reiada ou Folia de Reis
Em Iguape, você pode se deparar com belas apresentações de Fandango, Marujada, Reiada ou Folia de Reis. No inverno, a cidade celebra a tradicional Festa da Tainha — um evento marcante da cultura local.
E tem mais. A devoção ao Senhor Bom Jesus de Iguape continua viva até hoje, com festas que atraem fiéis e visitantes. Sem falar na gastronomia caiçara, rica em sabores do mar e da terra.
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A culinária é variada e saborosa. Vai do pastel e da casquinha de siri à paçoca de carne-seca. Sem falar nos peixes frescos e outras iguarias típicas da região.
A cidade também valoriza sua história. Iguape cultiva o passado com orgulho. Um bom exemplo são seus museus. O Museu de Arte Sacra guarda peças religiosas raras. Já o Museu Histórico e Arqueológico funciona no prédio da primeira Casa de Fundição de Ouro do Brasil, inaugurada em 1635.
Turismo, a força central da economia
Iguape tem tudo para fazer do turismo sua principal fonte de emprego e renda. Belezas naturais, patrimônio histórico e cultura viva não faltam. Mas um problema antigo continua travando o desenvolvimento: o maldito Canal do Valo Grande.
O excesso de água doce prejudicou a pesca. Hoje, só resta a manjuba. O mangue também foi afetado, e com ele, o turismo.
O turismo poderia ser extremamente potencializado…”
Para o prefeito Wilson Lima (PSDB), a solução é clara: “O turismo de Iguape poderia ser extremamente potencializado com o fechamento da barragem do Valo Grande. Porque nós poderíamos recuperar uma área extraordinária que, importante criatório de vida marinha, está neste momento com a vida comprometida.”
“Temos 1.400 famílias vivendo da pesca artesanal”, diz o prefeito Wilson Lima. “Fora os informais, que são muitos. E também os pescadores esportivos, que formam uma atividade muito significativa. Mesmo com todos os problemas, temos marinas com alta ocupação. Gente de todo o Brasil vem pescar aqui.”
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Hoje já não há mais ostras na região. Peixes valorizados pela pesca esportiva, como o robalo, sumiram há tempos.
E o pior: o excesso de água doce continua ameaçando o lagamar Iguape-Cananéia-Paranaguá. Esse sistema é considerado o terceiro maior berçário de espécies marinhas do mundo.
Paulo Egydio Martins fechou o Valo Grande — mas só por pouco tempo
Tudo isso por causa de uma simples barragem aberta. Uma pena. E o mais frustrante: o Valo Grande já foi fechado, mesmo que por pouco tempo.
Nos anos 1970, o Jornal da Tarde fez uma grande campanha pelo fechamento do canal. O então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, comprou a briga. Uma barragem de pedras foi construída. Mas em 1983, uma grande cheia do Ribeira destruiu tudo. A água doce voltou a invadir o Lagamar — e nunca mais parou.
Em 1998, o governo estadual construiu uma nova barragem. Mas, por pura negligência, ela nunca foi fechada.
Ação civil pública contra o governo de São Paulo
Em 2017, o Ministério Público de São Paulo venceu a primeira batalha judicial contra o governo do Estado. A ação teve origem em um inquérito aberto em 2001.
A Justiça condenou o governo paulista e determinou o fechamento definitivo da barragem do Valo Grande.
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Em 2019, quando abordamos esse caso pela primeira vez, mostramos a resposta do governo após a decisão judicial.
Por meio da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, o governo recorreu da sentença. Disse apenas que “interpôs recurso e aguarda nova manifestação do Poder Judiciário”.
Falta apenas o sistema eletromecânico de comportas
Na época, já informávamos: só faltava o sistema eletromecânico de comportas, que nunca foi instalado na barragem.
Em 2018, durante a campanha ao governo de São Paulo, Márcio França chegou a anunciar o investimento para concluir a obra. Mas nada foi feito.
Hoje, o Estado apenas recorre da decisão judicial e continua empurrando o problema.
Governo Serra liberou R$ 9 milhões
O prefeito Wilson Lima (PSDB) relembra: “O governo do Estado estava trabalhando. Ainda no tempo do governador José Serra, foram liberados R$ 9 milhões para conter a erosão nas margens do Valo Grande e iniciar a instalação das comportas”.
Mas em 2009–2010, tudo parou. O Ministério Público entrou com uma ação civil pública, e a obra foi travada.
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MP é contra sistema de comportas
Segundo nossa fonte, o Ministério Público é contra a abertura e o fechamento das comportas. Defende o fechamento definitivo do canal. Essa divergência parou tudo. O caso ficou anos sub judice. E, em 2019, uma decisão do Tribunal de Justiça revogou toda a ação anterior.
Para o prefeito Wilson Lima, o governo do Estado apoia a proposta original do DAEE — a instalação das comportas com monitoramento constante. O objetivo seria fechar o canal apenas quando a situação ambiental justificasse.
Prefeito de Iguape: Veio a decisão judicial e parou tudo”
“O que estava sendo feito parou”, relembra o prefeito Wilson Lima. “O governo recolheu cerca de R$ 3,5 milhões dos R$ 9,5 milhões liberados por Serra. Esse valor era para concluir o Manual de Operação da barragem e construir a Casa de Máquinas. Era só isso que faltava. Mas veio a decisão judicial, e tudo travou. E pior: o assoreamento aumentou muito.”
Perguntamos por quê.
“Porque retiraram as ensecadeiras a montante”, explicou o prefeito. “E ainda removeram parte da barragem a jusante. Isso potencializou, enormemente, brutalmente, o assoreamento do estuário.”
A proposta do DAEE é a melhor saída
Para o prefeito Wilson Lima, a proposta técnica do DAEE é a mais sensata. “Colocadas as comportas e feito o monitoramento, a tendência é o desassoreamento do canal. O Ribeira voltaria a correr até a foz, limpando o leito do rio.”
Hoje há um consórcio entre a União, o Estado e o município de Iguape, onde está a barragem. Mas, segundo Lima, a responsabilidade direta é do governo estadual. “Num primeiro momento, o Estado aceitou. Mas não nas condições impostas pela Justiça.”
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Governo Márcio França pediu orçamento ao DAEE
Durante o governo Márcio França, o Estado chegou a pedir um orçamento ao DAEE. A ideia era calcular quanto custaria cumprir exatamente o que o Ministério Público exigia na Justiça.
“Era quase como voltar ao Éden”, diz o prefeito Wilson Lima. “A proposta levaria cerca de 20 anos para ser concluída e custaria algo em torno de R$ 5 bilhões. Eles exigiam máquinas chinesas usadas em Dubai. Não temos nem esse recurso, nem esse tempo.”
Felizmente, segundo ele, essa proposta caiu quando o mérito da ação foi finalmente julgado.
Governo Doria retomou o projeto
O governo João Doria retomou o projeto do Valo Grande. Segundo o prefeito Wilson Lima, Doria esteve em Iguape pelo menos quatro vezes. “Fizemos uma reunião com o secretário Marcos Penido, que se interessou muito. A tese de doutorado dele é justamente sobre o Valo Grande.”
Na equipe também estava Ricardo Borsari, ex-presidente do DAEE e da Sabesp, outro nome com profundo conhecimento da região. “Com pessoas assim, conseguimos convencer o governo Doria da importância da obra.”
A decisão foi seguir com as licitações. O processo avançou durante o governo Doria e continuou com Rodrigo Garcia. Mas, com a mudança de governo, veio a velha descontinuidade típica da política partidária.
Governo Tarcísio de Freitas para tudo outra vez
Com a entrada do governo Tarcísio, tudo parou de novo. Segundo o prefeito Wilson Lima, várias licitações estavam em andamento. O projeto técnico do DAEE havia sido atualizado, e já tinham sido feitos alguns trabalhos para mitigar o assoreamento do estuário.
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Mas ainda faltavam duas licitações essenciais: uma para o Manual de Operação da barragem, outra para a Casa de Máquinas e a instalação das comportas.
Nada disso andou. Tudo foi interrompido mais uma vez.
Novo governo, velhos obstáculos
Toda vez que muda o governo, muda também uma série enorme de funcionários. E com isso, temos que recomeçar do zero.
Mesmo assim, enviei um ofício à secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Clima, Natália Resende. Perguntei sobre o andamento do processo e se algo estava sendo feito.
Coordenadora estadual do DAEE esteve em Iguape
A secretária Natália Resende respondeu ao ofício, mas de forma evasiva. Parecia ainda não estar a par da gravidade da situação. Diante disso, a coordenadora estadual do DAEE foi até Iguape.
Ela é especialista em barragens, altamente capacitada. Mas a visita foi um balde de água fria. Voltou a velha discussão: o ovo ou a galinha. Disse que o problema não era do DAEE, mas da Secretaria do Meio Ambiente.
Ora, o DAEE sempre esteve envolvido. O projeto é deles. E seria esse órgão o responsável por operar a barragem. Transferir tudo para o Meio Ambiente só cria mais confusão. Afinal, quem vai assumir?
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O resultado é o impasse. E estamos paralisados. Enquanto isso, o assoreamento cresce sem controle. Quando chove forte, a situação piora. O Ribeira desbarranca, e uma quantidade inimaginável de sedimentos desce para o estuário. É um mundo de lama.
Governador Tarcísio de Freitas, não deixe essa oportunidade escapar
Governador, o destino do Valo Grande — e de todo o Vale do Ribeira — está em suas mãos. O problema não é só ambiental. É também social, histórico e humano.
O próprio site do governo reconhece: o Vale do Ribeira é a região mais pobre do Estado mais rico do Brasil. E há 300 anos discutimos o fechamento de uma barragem que segue destruindo o meio ambiente e afetando a vida de milhares de pessoas.
A hora de agir é agora. Não repita os erros do passado. O Vale não pode esperar mais.