Canoa de tolda Luzitânia: naufrágio, abandono e resgate
O Brasil tem um dos mais ricos acervos de embarcações típicas ainda em atividade. A canoa de tolda Luzitânia não é apenas uma embarcação antiga. Ela representa a história viva da navegação no baixo São Francisco. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a tombou no projeto Barcos do Brasil, criado para preservar e valorizar embarcações tradicionais brasileiras. A Luzitânia tornou-se símbolo da cultura fluvial nordestina.

Em 2022, após um acidente, a embarcação alagou. O que veio depois expôs descaso, omissão e uma batalha judicial que durou quatro anos.
Conheça esta joia naval única
A canoa de tolda Luzitânia é o último exemplar das antigas canoas de tolda do baixo São Francisco.
Durante décadas, esse tipo de embarcação transportou passageiros e cargas entre Alagoas e Sergipe. Sustentou comunidades ribeirinhas e integrou o comércio regional.
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Elevação do nível do mar será maior que o previstoRessacas no litoral brasileiro: o custo invisível que ninguém calculaSem cabras a vegetação da Ilha da Trindade volta a florescerConstruída em madeira, com casco alongado e tolda central, a canoa de tolda Luzitânia preserva técnicas tradicionais da carpintaria naval brasileira. Reúne influências indígenas, africanas, europeias e até orientais. A bolina lateral, por exemplo, é uma solução holandesa.
Uma descendente das antigas canoas de pau
Como outras canoas típicas do País, a canoa de tolda Luzitânia descende das antigas canoas de pau, um tesouro secular do Brasil.
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Esse acervo começou com os povos dos sambaquis. Pesquisas recentes indicam que eles já caçavam baleias há cerca de cinco mil anos, usando canoas.
Depois vieram seus descendestes, os indígenas que surpreenderam os europeus com suas ubás e pirogas. Essas embarcações nasciam de um único tronco, talhado e moldado pelo fogo.
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As embarcações típicas da costa brasileira vão muito além das jangadas, dos saveiros ou das embarcações do Maranhão. Nosso acervo naval é vasto, diverso e sofisticado — resultado de séculos de adaptação ao mar e aos rios do País.
Mesmo assim, o público em geral ainda conhece pouco essa riqueza da cultura marítima e fluvial brasileira.
Carlos Eduardo Ribeiro encontrou a embarcação abandonada em 1999 e fundou a ONG Sociedade Canoa de Tolda para comprá-la, restaurá-la, e mantê-la em atividade. Em seguida, a Luzitânia foi restaurada por mestre Nivaldo o último especialista neste tipo de embarcação do São Francisco. Foram quase 10 anos de trabalho até ela estar em condições perfeitas de navegação.
Para Carlos Eduardo, ‘a construção dela segue o princípio da embarcação de um pau só, como as ubás. O tronco foi seccionado na linha central para alargar o casco e ampliar a capacidade de carga’.
De acordo com o site Sociedade Canoa de Tolda ela é uma canoa de carga tradicional do São Francisco, com capacidade de 200 sacos (cada saco corresponde ao padrão de peso de 60 kg). Os registros orais de sua construção remontam aos anos 20’.
O acidente em 2022
A canoa de tolda Luzitânia foi alagada em janeiro de 2022.
A Companhia Hidrelétrica do São Francisco aumentou a vazão do rio São Francisco naquele mês. A embarcação estava aberta para reparos. Não resistiu. Tombou e ficou encostada sobre um dos costados na margem do rio.
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Desde o alagamento, Carlos Eduardo Ribeiro lutou para retirá-la da água e iniciar os reparos. Não encontrou respaldo na gestão atual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Após insistentes pedidos sem resposta, a Sociedade Socioambiental do Baixo São Francisco – Canoa de Tolda ajuizou Ação Civil Pública.
Em 31 de janeiro, o juiz Edmilson da Silva Pimenta determinou, em liminar, que o IPHAN removesse a canoa de tolda Luzitânia com urgência, garantindo sua retirada da água e a secagem adequada para conservação.
O IPHAN recorreu da decisão.
Em 16 de fevereiro, a canoa de tolda Luzitânia voltou a flutuar no Mato da Onça, no alto sertão alagoano. Rebocaram a embarcação até Traipu, cerca de 90 km a jusante, onde a retiraram da água e a armazenaram.
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Mesmo assim, o órgão que a tombou não assegurou o restauro imediato. A disputa continuou.
Para Dalmo Vieira Filho, “a Luzitânia é um dicionário de soluções técnicas, de maneiras de construir barcos, e de navegar sobre um rio como o São Francisco. É de um valor inestimável.” E concluiu o especialista: ‘A perda de um bem cultural deste valor não pode se dar por mero capricho burocrático’. E concluiu: ‘Seria demais’.
O desfecho ainda incerto: Luzitânia segue para Penedo
Depois de quatro anos de impasse, a canoa de tolda Luzitânia iniciou nova etapa em janeiro de 2025. A Universidade Federal de Alagoas assinou um TED — Termo de Execução Descentralizada — com o IPHAN e assumiu a responsabilidade pelo restauro.
Ainda assim, ninguém informou quando o trabalho começa. Tampouco divulgaram prazo para concluir a obra. Hoje já não existem mestres especializados em canoa de tolda. Carlos Eduardo aguarda o chamado para orientar os carpinteiros que atuarão na recuperação.
A situação revela, mais uma vez, a fragilidade da política de proteção do patrimônio naval brasileiro — mesmo quando se trata de um bem oficialmente tombado.
Para mais informações: Embarcações Típicas da Costa Brasileira.
Assista ao vídeo e saiba da importância desta joia naval
Imagem de abertura: Nilton Souza