Tráfico de barbatanas: 17 toneladas apreendidas em SC
O tráfico de barbatanas expõe mais uma vez a matança de tubarões no Brasil. Em 27 de outubro, a Receita Federal apreendeu mais de 17 toneladas no Porto de Itapoá, em Santa Catarina. A carga seguiria para a Malásia, disfarçada de “sardinhas congeladas”.

Segundo o Ibama, cerca de 5.700 tubarões morreram para abastecer o carregamento, incluindo exemplares de uma espécie ameaçada de extinção. O órgão multou a empresa responsável em R$ 50 milhões. Porém, não se sabe por que, o Ibama não divulgou seu nome. A sociedade conhece o tamanho da matança, mas segue sem saber quem está por trás do negócio.
Tubarão-azul e anequim na carga
Segundo o Ibama, a maior parte das nadadeiras apreendidas no caso de tráfico de barbatanas pertencia ao tubarão-azul (Prionace glauca). Uma parcela menor veio do anequim (Isurus oxyrinchus), espécie ameaçada de extinção. O tubarão-azul, porém, também está no centro da confusão que marca a política pesqueira brasileira.
Como mostramos em setembro de 2025, o governo liberou sua pesca no início daquele ano. Depois, diante das críticas de pesquisadores, ambientalistas e técnicos do próprio Ibama, anunciou a revogação da medida. O SINDIPI, sindicato dos armadores de Itajaí e região, reagiu. Entre liberações, recuos e pressão empresarial, a proteção dos tubarões segue em disputa.
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O dinheiro ajuda a explicar a dimensão da matança e do tráfico de barbatanas. Segundo o g1, as barbatanas podem alcançar R$ 16 mil por quilo no mercado asiático, onde entram no preparo de sopas consideradas iguarias.
Esse preço, porém, não representa necessariamente o valor recebido pelo exportador nem permite calcular quanto valeria toda a carga. Ainda assim, revela o incentivo econômico que alimenta o tráfico.
A apreensão de 2023 já expunha a dimensão do negócio
O tráfico de barbatanas em Itapoá tem um antecedente vergonhoso. Em junho de 2023, como mostramos neste post, o Ibama apreendeu 28,7 toneladas de barbatanas destinadas à Ásia. A estimativa apontava para cerca de 10 mil tubarões mortos, também das espécies azul e anequim. Uma única empresa de Itajaí, a Kowalski, concentrava 27,6 toneladas. O restante estava com outra empresa, no Aeroporto de Guarulhos.
Na ocasião, segundo a Sea Shepherd, a Kowalski alegou que mantinha os estoques desde 2021 e aguardava autorização do Ibama para exportá-los. Agora, três anos depois daquela operação, outra carga gigantesca aparece em Santa Catarina. Desta vez, escondida sob uma declaração de sardinhas congeladas. As apreensões revelam a escala desse comércio.
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A apreensão merece reconhecimento no combate ao tráfico de barbatanas. A Receita Federal identificou a fraude e impediu que a carga deixasse o país. Porém, anunciar uma multa de R$ 50 milhões é apenas uma etapa. Segundo levantamento divulgado pelo jornal O Globo em 2026, somente 3,6% do valor das multas aplicadas pelo Ibama desde 2008 constava como pago: R$ 2,4 bilhões de R$ 67,7 bilhões. É uma vergonha.
Além disso, o Ibama precisa explicar por que não divulgou o nome da empresa. Quem tenta despachar toneladas de barbatanas como sardinha deve prestar contas à sociedade. A fiscalização perde parte de seu efeito público quando anuncia a infração, mas deixa o infrator no anonimato.
Tráfico de barbatanas exige rastrear toda a cadeia
Antes de tudo, quais embarcações capturaram os tubarões? Para combater o tráfico de barbatanas, a investigação precisa, portanto, chegar à origem do crime.
Além disso, esse problema chega ao prato dos brasileiros. Como mostramos no post sobre o finning e o rótulo “cação”, o nome genérico esconde quais espécies de tubarões e raias o consumidor compra. Assim, dificulta tanto a escolha de quem consome quanto a fiscalização da origem do pescado.
Diante disso, o PL 3468/2023, do deputado Delegado Matheus Laiola (União-PR), busca criminalizar o finning e proibir o uso genérico de “cação” no comércio. No entanto, o lobby do SINDIPI impede esse avanço. No finning, pescadores cortam as barbatanas e descartam o corpo, muitas vezes com o animal ainda vivo.