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O papel fundamental dos habitats na proteção costeira

O papel fundamental dos habitats na proteção costeira

Um estudo da Universidade Federal Fluminense, publicado na ScienceDirect, destaca o papel fundamental dos habitats. O trabalho alerta que cerca de 60% da costa do Rio de Janeiro apresenta níveis intermediários ou altos de vulnerabilidade às mudanças climáticas.

erosão costeira
Imagem, www.jornalagito.com.

O risco cresce com a elevação do nível do mar, ressacas – a primeira de 2026 deixou reféns as praias da região Sul – e tempestades mais intensas. Segundo Igor Rodrigues Henud, principal autor, as zonas costeiras têm grande peso social e ambiental. Por isso, o poder público precisa adotar medidas preventivas e de mitigação. Essas ações reduzem danos causados pela erosão e pelas inundações costeiras.

O ameaçado litoral brasileiro

A erosão costeira ameaça 60% do litoral do País segundo o professor Dieter Muehe, em podcast gravado para este site. Isso se deve a fatores naturais aliado à ocupação irregular, desordenada, provocada sobretudo pela especulação imobiliária, e à infraestrutura pública colocada sobre os habitats de proteção da costa como restingas, dunas e manguezais. Este cenário se agrava com a elevação do nível do mar e com eventos extremos cada vez mais fortes e frequentes.

Já comentamos por aqui a ‘moda’ que tem seu epicentro no litoral de Santa Catarina, ou seja, as inúteis engordas de praias que não resolvem a questão, como alertaram especialistas da UFSC em Notas Técnicas ignoradas pelo poder público. O documento explica a formação, o funcionamento do sistema praial, e mostra de maneira didática como a ocupação humana mal feita, desordenada, é a responsável pelo fenômeno.

Resumindo bastante, eis o que dizem: Construções no supralitoral — casas, prédios, restaurantes, estradas — destroem e fragmentam habitats. Bem como poluem e alteram o sistema praial. A ocupação intensa bloqueia a circulação de sedimentos, causa déficit no entremarés e sublitoral e acelera a erosão, inclusive no próprio supralitoral’.

‘A soma de impactos locais, da redução de sedimentos, da elevação do mar e de eventos extremos reduz os benefícios que as praias oferecem. A prova está nos desabamentos de muros, estradas, casas, restaurantes e hotéis — e na faixa de areia cada vez mais estreita para o lazer’.

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Nota Técnica PES n°05/2025

Contudo, as autoridades não ouviram os alertas. As engordas, a preços altíssimos, continuaram. Por isso, especialistas da Universidade Federal de Santa Catarina voltaram a se manifestar. Eles publicaram a segunda Nota Técnica PES n°05/2025, intitulada Os Aterros de Praia e a Saúde da População e do Ambiente.

O primeiro parágrafo desta advertência resume: ‘A presente nota técnica trata de novas evidências indicando que os empreendimentos de aterro de praia realizados não cumprem com os seus objetivos e não cumprem os próprios projetos licenciados. Trazemos evidências inéditas de que após o aterro as praias apresentam piora na balneabilidade e aumento do risco de afogamentos’.

Mesmo assim, em Santa Catarina as engordas não param. Balneário Piçarras vai para a quarta intervenção. A Praia Central, em Balneário Camboriú, segue para a terceira, e assim por diante.

Mas pior. A ideia migrou para outros Estados. No Rio Grande do Norte e no Paraná, governos gastaram milhões. O dinheiro serviu para escangalhar Ponta Negra, em Natal, e a Praia Brava, em Matinhos. Em ambos os casos, os resultados foram desastrosos.

Quem sabe agora mudam? Igor Rodrigues Henud alerta que, ‘dada a importância socioeconômica e ambiental das zonas costeiras, medidas preventivas e atenuantes são imperativas para enfrentar os danos resultantes de processos erosivos e inundações costeiras’.

‘Nossos achados revelaram que o estado do Rio de Janeiro enfrenta riscos costeiros que variam de intermediários a altos em 66 %, e uma parcela substancial de áreas legalmente protegidas não abrange habitats próximos à costa’.

As soluções baseadas na natureza são as mais eficazes

Este site já publicou matérias reforçando que as soluções baseadas na natureza são as mais baratas e mais eficazes. O mesmo alerta fez o autor do estudo, Igor Rodrigues Henud: ‘Ilustramos o papel fundamental dos habitats na proteção costeira, enfatizando que sua remoção aumentaria significativamente a vulnerabilidade costeira. A fusão desses fatores permitiu propor estratégias de adaptação baseadas em soluções baseadas na natureza para enfrentar os desafios ambientais e socioeconômicos’.

‘Para enfrentar riscos atuais e futuros, é necessário elaborar estratégias de adaptação para proteger os ambientes costeiros. A inação diante dos problemas resultantes das mudanças climáticas incorre em altos custos econômicos e sociais quando comparada às estratégias de adaptação climática. Embora a infraestrutura convencional (conhecida como “infraestrutura cinza”) tenha sido amplamente implementada em todo o mundo, as soluções baseadas na natureza têm o maior potencial de proteção costeira’.

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‘A região onde a Mata Atlântica (em outras palavras, região costeira) brasileira está inserida tem uma densidade urbana notória. Ela abriga aproximadamente 70% da população nacional e 80% do produto interno bruto. Áreas urbanas, parques industriais e pastagens foram substituídos por este bioma natural, resultando em um habitat intenso, com mais de 80% das espécies endêmicas que enfrentam algum grau de ameaça de extinção’.

‘Nosso estudo teve como objetivo identificar e caracterizar os locais mais vulneráveis, elucidando como os habitats naturais atenuam a exposição aos riscos costeiros no Estado do Rio de Janeiro… Esta análise avaliou a vulnerabilidade costeira aos processos de inundação e erosão. Identificamos estrategicamente locais com potencial para integrar soluções baseadas na natureza, considerando fatores socioeconômicos e ambientais’.

O despreparo e o cinismo do poder municipal

Não são todos os prefeitos que preferem torrar milhões de impostos em obras de engordas de praias que não aguentam a pressão natural por mais que um par de meses antes de colapsarem. Mas trata-se de parte significativa deles.

Agora, fica claro que não é por falta de ciência que nossas praias desmoronam uma atrás da outra. É por falta de escrúpulos, falta de ética e cinismo, que prefeitos desqualificados insistem em engordas caríssimas em vez de replantar mangues e restingas, e acabar com a ocupação de dunas, refazendo-as.

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