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Navios de guerra nucleares: plano de Trump gera polêmica

Navios de guerra nucleares: plano de Trump gera polêmica

Os navios de guerra nucleares de Donald Trump abriram uma nova polêmica nos Estados Unidos. O presidente quer construir até 25 gigantes para sua chamada “Frota Dourada”. Apenas os primeiros 15 podem custar US$ 275 bilhões, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso norte-americano, um órgão apartidário. Enquanto isso, os estaleiros do país já acumulam atrasos, falta de trabalhadores e dificuldades para entregar os programas atuais. Post de opinião.

Navios de guerra nucleares de Trump
Imagem do Comando de Sistemas Navais da Marinha dos Estados Unidos.

O primeiro navio receberia o nome Defiant. Ainda assim, Trump decidiu batizar o projeto de “classe Trump”, numa demonstração explícita da megalomania do Senhor da Guerra norte-americano. Ele sabe começar conflitos, mas não demonstra a mesma capacidade para terminá-los. A guerra do Irã sacode a economia mundial e ainda pode deixar consequências ambientais dramáticas, como o risco de bioinvasão global provocado por mais de 1.500 navios presos em Ormuz.

Agora, em vez de buscar uma saída para a guerra que ajudou a incendiar, Trump apresenta novos monstros de até 40 mil toneladas como símbolo do poder naval dos Estados Unidos.

O que Trump pretende construir

Os navios de guerra nucleares teriam entre 35 mil e 40 mil toneladas e receberiam mísseis de longo alcance. A Marinha planeja comprar de 15 a 25 unidades. O primeiro seria o Defiant, designado BBG-1, sigla para encouraçado de mísseis guiados.

O custo assusta ainda mais. Cada novo gigante deixaria muito para trás o USS Zumwalt, cujas três unidades custaram, em média, US$ 10,6 bilhões cada. O primeiro navio da classe Trump chegaria a US$ 23,4 bilhões; os seguintes custariam, em média, US$ 18 bilhões por unidade. Além disso, exigiriam muito mais aço, mão de obra e capacidade dos estaleiros.

O projeto também parece contrariar o rumo da guerra naval moderna. Enquanto Trump aposta em poucos navios enormes e caríssimos, marinhas avançam com embarcações autônomas capazes de operar sem tripulação e reduzir o risco de concentrar bilhões de dólares num único alvo.

Enquanto isso, um de seus rivais também age. Em 2025 a Rússia levou ao mar para testes o submarino nuclear Khabarovsk, projetado para lançar o Poseidon — um drone submarino autônomo, movido a energia nuclear, capaz de percorrer milhares de quilômetros e transportar uma ogiva nuclear.

Estaleiros podem não dar conta dos navios de guerra nucleares

Os navios de guerra nucleares exigiriam uma expansão brutal da capacidade industrial dos Estados Unidos. Segundo o CBO, até 2035 os estaleiros teriam de mais que dobrar a tonelagem anual de grandes navios de superfície. Ao longo de todo o plano, a produção desse tipo de belonave precisaria crescer 60%.

A classe Trump, ou navios de guerra nucleares.

O problema é que a indústria naval norte-americana já enfrenta escassez de trabalhadores qualificados, atrasos e aumento de custos. O CBO alerta que acomodar tamanha expansão será um desafio. Como observou o site especializado gCaptain, os gigantes de Trump podem agravar a pressão sobre estaleiros que já lutam para cumprir os contratos atuais.

Reportagem do The Hill também destacou a contradição: Trump promete uma ‘frota de ouro’ quando os Estados Unidos encontram dificuldades para construir e manter os navios que já encomendaram. Além disso, o aumento dos gastos anuais com grandes navios passaria de cerca de US$ 11 bilhões para US$ 19 bilhões.

Equipamento de um navio de guerra da classe Trump. Fonte: Mike Schuler.

Mark Cancian, especialista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, o CSIS,  foi direto: o primeiro navio levaria anos para ficar pronto, exigiria milhares de trabalhadores experientes e correria grande risco de cancelamento antes mesmo do início da construção. Para ele, a Marinha precisa construir agora modelos comprovados, não iniciar outro programa gigantesco, caro e arriscado.

Navios de guerra nucleares podem nascer ultrapassados

Especialistas militares ouvidos pela imprensa norte-americana também questionam a utilidade militar dos navios. Um gigante carregado de mísseis concentraria bilhões de dólares e boa parte do poder de fogo da frota num único alvo. Além disso, embarcações menores, submarinos e navios autônomos poderiam cumprir muitas dessas missões com menor custo e risco.

Especialistas citados pelo The Hill e pelo CSIS afirmam que o projeto segue na direção oposta à guerra naval moderna, que dispersa armas entre várias plataformas. Ao concentrar bilhões de dólares e grande poder de fogo num único casco, Trump criaria um alvo caro e vulnerável. Para Mark Cancian, do CSIS, a chamada classe Trump pode nunca chegar ao mar.

Trump apequena a maior democracia do mundo

Em resumo, impressiona a facilidade com que Donald Trump dá palpites sobre qualquer assunto, da geopolítica ao futebol, sem demonstrar o menor constrangimento. Quase diariamente, abre novas frentes de atrito dentro e fora dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, despreza ameaças reais à vida no planeta, como o aquecimento global que insiste em negar, e transforma a Presidência numa vitrine para os negócios da própria família.

Trump apequena a maior democracia do mundo, enfraquece a ciência, despreza acordos internacionais e trata a guerra como espetáculo. O aquecimento global ameaça a vida na Terra. Trump, porém, trabalha ativamente para agravar esse risco — e esta talvez seja sua marca mais perigosa.

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