Dragagem e engorda: solução ou deslocamento do problema?
Eventos extremos ficam mais fortes e mais frequentes. Estudos indicam que quase metade das praias arenosas do planeta pode desaparecer até o fim do século. No Brasil, o problema ganha outra escala. O país tem cerca de 8 mil quilômetros de litoral, espalhados por 17 Estados, e abriga 54,8% da população segundo o Censo 2022. Mesmo assim, não existe um plano nacional para enfrentar a erosão costeira. O tema só aparece quando a imprensa noticia engordas de praias, quase sempre em Santa Catarina, e ainda assim de forma superficial. Ou quando surgem notícias sobre dragagens em portos, como ocorre agora na Baía da Babitonga, onde o Ibama autorizou a maior obra de dragagem portuária do país e o projeto destina parte da areia retirada do fundo da baía para a engorda da praia de Itapoá. Fica, então, a pergunta: dragagem e engorda resolvem o problema ou apenas o deslocam?

Para entender a engorda de praias
A erosão não surge por acaso. Ela resulta, na maioria das vezes, de um déficit de areia criado pela ocupação desordenada e excessivamente próxima do mar. Nosso modelo de ocupação elimina restingas, dunas e manguezais, que antes protegiam a costa. Com essas barreiras naturais destruídas, as ressacas entram de porta aberta ameaçando não só praias, mas toda a infraestrutura colocada rente à costa, além dos novos imóveis.
É por estes motivos que os professores da UFSC criticaram as engordas em Santa Catarina, assim como especialistas da UFPR o fizeram no caso da Praia Brava, em Matinhos, uma obra que custou R$ 314,9 milhões de reais aos cofres do Paraná e não aguentou sequer uma ressaca. Em ambos os casos os professores sugeriram soluções baseadas na natureza, mais baratas e mais eficazes.
A engorda pode funcionar como solução?
Em alguns casos especiais a engorda até pode funcionar, mas uma condição é decisiva: a areia reposta precisa ter a mesma granulometria possível daquela que a praia perdeu. Um projeto de engorda exige análise granulométrica detalhada. O motivo é simples. Grãos mais finos se dispersam rápido. Grãos mais grossos alteram a dinâmica da praia. Diferenças de tamanho mudam a inclinação, a compactação e a resposta às ondas, como alertam especialistas há décadas.
Ao conversar com o oceanógrafo Paulo Horta, da UFSC, ele lembrou que, mesmo quando parecem semelhantes, grãos de areia nunca são idênticos. Não se trata apenas de uma diferença física, mas também biológica. O local de onde a areia sai e o local onde ela chega formam sistemas vivos distintos. Eles podem estar próximos, mas funcionam de maneira diferente.
É nesse ponto que entra a maior dragagem portuária já autorizada no país, ao custo de R$ 333 milhões, em curso desde outubro de 2025 na Baía da Babitonga, um hot spot da costa brasileira. O projeto amplia o canal de acesso de 14 para 16 metros e permite a operação de navios com até 366 metros de comprimento. Para se ter uma ideia do que isso representa, basta saber que a Babitonga se tornará o primeiro complexo portuário do Brasil com capacidade para receber navios desse porte, com carga máxima.
Para a economia regional, a obra traz ganhos claros. Já para o meio ambiente marinho, pressionado pelo aquecimento global, os riscos aumentam. E, no caso da praia de Itapoá, prevista para receber cerca de 8 quilômetros de engorda, ou 6,5 milhões de metros cúbicos de areia, o projeto envolve uma aposta técnica delicada já que intervenções desse tipo ainda não mostraram resultados duradouros no Brasil.
Problemas ambientais oriundos de dragagens
Dragagens alteram o fundo marinho e aumentam a turbidez da água. A suspensão de sedimentos reduz a penetração de luz e afeta algas, corais e organismos filtradores. O material removido pode soterrar áreas sensíveis, como bancos de moluscos e habitats de reprodução. O ruído e a movimentação de dragas interferem na fauna marinha. Em estuários e baías, a retirada contínua de sedimentos altera a dinâmica das correntes e o equilíbrio do sistema costeiro.
Em 2018, durante o avanço do licenciamento de um novo porto na Baía da Babitonga, o Projeto Toninhas reagiu à escolha do canal de Laranjeiras como área para a obra, por se tratar, segundo a entidade, da região mais produtiva da baía. O projeto também criticou os estudos ambientais que embasaram a decisão, afirmando que o Estudo de Impacto Ambiental e os documentos elaborados pela consultoria Acquaplan não apresentaram dados consistentes sobre os impactos na produção pesqueira nem sobre espécies ameaçadas de extinção, o que, segundo a organização, comprometeu a avaliação da viabilidade ambiental do empreendimento.
Se os estudos não trouxeram dados consistentes sobre os impactos na produção pesqueira nem sobre espécies ameaçadas de extinção, fica a pergunta inevitável: onde estão as informações detalhadas sobre a granulometria da areia que o projeto pretende depositar na praia de Itapoá?
‘Maior obra de engordamento de praia da história do país’
Para o site do Governo de Santa Catarina, “uma característica inovadora da obra é a destinação dos sedimentos retirados do mar, já que 6,5 milhões de metros cúbicos de areia serão usados no engordamento da orla de Itapoá, mais da metade do material dragado, que soma 12,5 milhões de metros cúbicos”.
Segundo o governo, o objetivo é alargar 8 quilômetros da faixa de areia da cidade em até 200 metros. Trata-se da maior obra de engordamento de praia do país em extensão e da primeira vez, no Brasil, em que sedimentos de uma dragagem portuária recebem esse destino.
As empresas Geplan e Prosul venceram a licitação pública para fiscalizar a obra, ao custo de R$ 9 milhões. Elas devem acompanhar todas as etapas do projeto, incluindo a análise da compatibilidade dos sedimentos depositados na praia e a fiscalização da modelagem topográfica da área a ser alargada.
Se a compatibilidade dos sedimentos depositados na praia e a fiscalização da modelagem topográfica de fato ocorrerem, o Estado de Santa Catarina viverá uma experiência inédita. Nas engordas anteriores, esse cuidado não existiu. Ainda assim, o teste final virá do mar. No meio deste ano, quando a obra terminar, as ressacas mostrarão quantas delas a nova praia de Itapoá suportará.
Algas escuras aceleram derretimento da calota da Groenlândia