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Crime organizado controla territórios caiçaras no sul fluminense

Crime organizado controla territórios caiçaras no sul fluminense

Em 10 de dezembro a Folha de S.Paulo, em raro momento de lucidez e coragem, colocou o dedo na ferida. O jornal publicou uma matéria sobre o domínio de facções no litoral sul fluminense, sobretudo em territórios caiçaras.

vista de Paraty
Vista de Paraty a partir do Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Nada surpreende. O crime organizado controla trechos do litoral há anos. No início de 2026, outro local emblemático entrou no noticiário. A imprensa chama de “paraíso”  Porto de Galinhas. Ali, segundo apurações, quem manda é a facção Trem Bala/CLS.

O poder público abandonou essas áreas ao deus-dará. Alertamos para isso há muito tempo. A novidade está no foco. Pela primeira vez, um grande jornal mostrou o que acontece dentro de comunidades hoje valorizadas, formadas por populações originárias já vulneráveis.

O problema atinge territórios caiçaras. Entre eles, a Praia de Cajaíba, terra de Dona Dica, ícone da região e pioneira em desmascarar a especulação imobiliária. A lista inclui ainda a Praia do Sono, Juatinga, Calhau, Trindade, e Paraty-Mirim. Ou bairros da periferia como Ilha das Cobras e Mangueira, que formaram-se ao redor do centro histórico após os caiçaras serem expulsos pela especulação.

Áreas dominadas pelo C.V. ficam dentro de UCs federais!

Desta vez, o quadro é ainda pior. As desculpas ficam intoleráveis. Muitas dessas áreas ficam dentro de Unidades de Conservação federais do bioma marinho. Como o diligente ICMBio não viu? E o Ibama, também não? O caso envolve a comunidade de Trindade. A vila está dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, sob gestão do ICMBio.

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Contudo, a Folha de S.Paulo não disse tudo. Nossas fontes confirmaram que a situação não é recente. O problema começou há cerca de dez anos, por volta de 2015. E se agravou nos últimos cinco anos.

Onde está a Prefeitura de Paraty? O governo municipal não respondeu aos questionamentos da Folha. O silêncio se repete no ICMBio. A Câmara de Vereadores também se cala, para a maioria dos vereadores só interessa a especulação imobiliária como já comentamos. Aproveitamos e pedimos entrevista ao Presidente da Câmara, o vereador Vaguinho.

Como aceitar o mutismo do poder legislativo municipal, eleito pelo povo, agora sob ameaça do Comando Vermelho?

Um retrospecto sobre alguns territórios caiçaras da região

Este escabroso caso do avanço do Comando Vermelho sobre redutos caiçaras apenas confirma o motivo da decadência da grande mídia. O exemplo mais contundente, mas não o único, foi a omissão sobre o assassinato em 2016 do caiçara  Jaison Caíque Sampaio, de 23 anos, por pistoleiros a serviço da empresa de Paraty, Trindade Desenvolvimento Territorial (TDT), que se diz dona da área.

Quando soube do crime, comecei a pesquisar. Encontrei apenas uma matéria. O texto saiu no jornal espanhol El País. Na imprensa de Pindorama, o silêncio foi total. Zero repercussão. Até hoje os policiais que cometeram o assassinato por questões de terra estão soltos.

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O descaso da mídia diante de um assassinato ocorrido dentro de uma comunidade que tornou-se paradigma da luta contra a especulação imobiliária revela o tamanho do buraco.

Muito bem. Segundo nossas fontes, muita gente passou a ver Trindade como um reduto hippie anos atrás. Ali, diziam, era possível fumar maconha sem ser incomodado. A ideia pegou entre os jovens.

Com o tempo, e como em qualquer lugar que tem demanda, turistas começaram a levar drogas para vender aos usuários como uma maneira de ficarem mais tempo. Segundo nossas fontes, essa prática nunca trouxe problemas à comunidade.

O C.V. chegou, chegando!

Caiçaras de toda a região ouvidos pelo Mar Sem Fim foram unânimes. Cerca de cinco anos atrás, integrantes do Comando Vermelho decidiram assumir o controle. A ordem foi direta: o negócio das drogas passou a ser deles.

Enquanto o PCC migrou para o tráfico internacional e abriu mão do varejo, o Comando Vermelho fez o oposto. Identificou a brecha e tomou os pontos de venda de maconha ao longo do litoral fluminense e do norte paulista.

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A gota d’água para a matéria da Folha

A gota d’água desse crime de omissão nas três esferas de poder foi a cobrança de uma taxa aos barqueiros da Praia do Sono. Ali vive, há gerações, uma comunidade caiçara.

Preocupados, os moradores reagiram. A mobilização se espalhou em cadeia. Ela alcançou todas as comunidades já citadas. Assim, o escândalo chegou à Folha de S.Paulo.

Para sair ou chegar à Praia do Sono, só existem duas opções. A primeira é percorrer uma trilha longa e exaustiva. A segunda é usar lanchas com motor de popa.

Essas lanchas partem do Condomínio Laranjeiras. O local é símbolo da privatização de praias no Brasil pelas elites financeiras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Sim, são elites apenas financeiras, nada mais. Somos partidários da tese do cientista político Bolívar Lamounier.

As elites apodrecidas de Pindorama

Para Bolívar, ‘nós não temos elites hoje, isso é uma ficção científica. Temos no sentido meramente de riqueza, aqueles 1% que detém 37% por cento da renda e da riqueza (do País). Nós não sabemos se estes 1% pensam alguma coisa, se têm alguma preocupação, o que é urgente para eles? Nós não sabemos’.

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É a mais pura verdade. A prova está em Paraty. A cidade virou refúgio de segunda residência para ricos e muito ricos. Artistas, empresários, músicos, ‘famosos’, e herdeiros de grandes empresas frequentam a região. Até sangue real aparece por ali, assim como navegadores de fama internacional. Além deles, há centenas de ricaços donos das muitas lanchas, iates e veleiros atracados em marinas de Paraty.

E, que se saiba, nenhum deles jamais denunciou os descalabros da região que frequentam. O silêncio impera. Vale para eles. Vale ainda mais para o poder público estadual e federal.

Por exemplo, já alertamos que conflitos entre traficantes não surgiram agora em Paraty. Há anos, guerras desse tipo provocam mortes de jovens. Mesmo assim, o silêncio persiste.

Nenhuma palavra sobre a disputa entre facções na Ilha das Cobras e na Mangueira. Cada área abriga uma facção rival. Elas matam, cobram propina e vendem “segurança”. Ainda assim, quase ninguém menciona esses crimes. Por quê? Ora, ‘atrapalha o turismo’ e a região vive do turismo. Ponto.

Vale lembrar, por exemplo, o caso do Mingau, baixista do Ultraje a Rigor que, em 2023 entrou na ilha das Cobras (ninguém sabe o motivo) e foi baleado na cabeça. Até hoje Reinaldo Oliveira Amaral, o Mingau, faz fisioterapia e tenta se recuperar. Mas ninguém nunca mais falou no crime que envolve traficantes de drogas. ‘A violência estrutural de Paraty é sempre abafada’, disseram as fontes.

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Polícia vende proteção

Em Paraty, segundo amigos, a polícia vende proteção aos comerciantes através de milícias, enquanto isso, traficantes se aproximam do povo para também vender proteção. ‘Ou você paga a polícia, ou paga bandidos’, disseram.

Quando houve a grita da praia do Sono, membros das facções através de um perfil falso nas redes antissociais colaram um comunicado no perfil de dezenas de caiçaras dizendo que ‘estavam ali para ajudar’, ‘dar segurança’.

Onde estão as denúncias?

Exceção à Folha de S. Paulo, dezenas de outros veículos, nanicos por sinal, copiaram e colaram a matéria. Não tentaram ouvir quem quer que seja, nenhum caiçara, nem o poder municipal de Paraty, muito menos o pessoal do inenarrável ICMBio a quem este site pediu entrevista. A ver se, e quando, falarão.

A maioria das imagens deste post mostram os aspectos icônicos Paraty e arredores. Mas só esta mostra como são os locais dominados sob domínio do Comando Vermelho.

Isso é um retrato do abandono do litoral, mantra que repetimos desde que abrimos este site em 2002.

Depois de enfrentarem multinacionais poderosas e jagunços armados que tentaram privatizar as praias de Paraty, e após anos de resistência em defesa de suas comunidades tradicionais, mesmo sob abandono total das autoridades municipal, estadual e federal, os caiçaras agora encaram um inimigo ainda mais perigoso.

Esse grito de socorro precisa ecoar. É imperativo que tenha efeito enquanto essas comunidades ainda conservam força e coragem para gritar!

Reaja, compartilhe este post e faça barulho, não se iguale aos omissos!!

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