Cláudio Castro destrói APAs do Rio na saída do governo
A política do Rio de Janeiro virou uma enfermidade crônica da República. Dos últimos 10 governadores, a polícia prendeu cinco: Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão. Cláudio Castro escapou da prisão, mas o TSE o tornou inelegível por oito anos. Na saída, fez questão de deixar seu tradicional rastro de sujeira: Cláudio Castro destrói APAs do Rio ao revogar os planos de manejo de cinco áreas de proteção ambiental.

Por trás do ataque, a velha especulação imobiliária
Não se trata apenas de afrouxar regras. Toda unidade de conservação precisa de um Plano de Manejo. É esse documento técnico que orienta a gestão da área. Ele define o zoneamento e estabelece as normas de uso, de acordo com os objetivos que justificaram a criação da unidade.
Ao revogar esses planos no apagar das luzes, o governo não bagunçou só a administração ambiental. Atingiu o instrumento que dá base técnica e legal à proteção das APAs. Numa costa tão pressionada por empreendimentos, condomínios, resorts e loteamentos, é difícil não desconfiar do velho flagelo do litoral brasileiro: a especulação imobiliária.
Você sabe onde ficam as APAs atingidas?
Se você pensou em alguns dos trechos mais cobiçados do litoral fluminense, acertou. Não por acaso, o decreto alvejou áreas sob forte pressão imobiliária. Em primeiro lugar, a APA de Tamoios, criada em 1982, fica em Angra dos Reis, um dos pedaços mais valorizados da costa brasileira.
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Por sua vez, a APA da Serra de Sapiatiba surgiu em 1990, em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos. Por fim, a APA do Pau-Brasil, de 2002, alcança Cabo Frio e Armação dos Búzios, dois dos endereços mais visados do litoral do Rio.
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Axel Grael e a denúncia de mais um retrocesso
A crítica também partiu de uma voz experiente da área ambiental fluminense. Afinal, Axel Grael atua há décadas em temas ligados à conservação, à Baía de Guanabara e ao ordenamento costeiro. Engenheiro florestal, ambientalista e ex-presidente da Feema, ele também ajudou a fundar o Projeto Grael, criado em Niterói em 1998, com forte atuação social, náutica e ambiental. Além disso, ao longo da trajetória, fundou e presidiu organizações como o Movimento de Resistência Ecológica, o Movimento Cidadania Ecológica e o Instituto Baía de Guanabara.
Por isso, sua reação merece atenção. Em texto publicado em 5 de abril, Axel Grael classificou como grave o último ato de Cláudio Castro e lembrou que o Diário Oficial de 20 de março trouxe a revogação dos planos de manejo de cinco APAs estaduais. Além disso, chamou atenção para o alcance da medida: o decreto atinge áreas protegidas que influenciam nove municípios fluminenses. Para alguém que presidiu a Feema em duas ocasiões, também comandou o IEF e há décadas milita na agenda ambiental, não se trata de exagero retórico, mas de um alerta sério sobre mais um retrocesso no litoral do Rio.
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A reação não parou nos ambientalistas. Além disso, o Instituto dos Advogados Brasileiros repudiou o decreto de Cláudio Castro. Em nota de 30 de março, a entidade afirmou que a medida criou “incerteza jurídica e vulnerabilidade ecológica” para cinco APAs estratégicas do Rio. Segundo o IAB, o governo alegou adequação metodológica. Ainda assim, o ato sinaliza retrocesso nas salvaguardas ambientais. Portanto, não se trata só de disputa política. Há, também, um problema jurídico evidente.
Nem a sucessão no Rio escapou ao pântano político que há anos humilha o estado. Como observou a Folha de S. Paulo, o julgamento no STF abriu mais um capítulo do “fator STF” na vida fluminense. Já o Estadão mostrou que, na véspera da sessão, a eleição indireta aparecia como saída mais provável no Supremo, embora a PGR defendesse o voto direto. Enquanto isso, Ricardo Couto de Castro seguia no comando interino. Cláudio Castro saiu, mas deixou o de sempre: desordem política, tutela judicial e, agora, devastação ambiental.
Um ‘agrado’ aos setores que mais pressionam o litoral
No fim, o gesto de Cláudio Castro fala por si. Apeado do cargo de forma vexaminosa, ele ainda fez questão de deixar um presente aos velhos interessados de sempre: especuladores, construtoras e empreendimentos turísticos que veem a costa como mercadoria.
Sem prova, não cabe afirmar quem inspirou ou patrocinou a canetada. Ainda assim, o efeito do decreto é cristalino. Ele enfraquece a proteção ambiental justamente onde o mercado mais cobiça avançar. E isso reafirma o que o Mar Sem Fim denuncia há anos: no Brasil, o litoral segue ao deus-dará. Tão ao deus-dará que até um governador enxotado do poder consegue, na saída, oferecer mais um brinde à especulação imobiliária.
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