Âmbar-cinzento: o que liga cachalotes a perfumes de luxo
O âmbar-cinzento surge numa das cenas mais curiosas de Moby Dick. Em meio ao fedor de uma carcaça de cachalote, o oficial Stubb percebe um fio de perfume. Ele procura nas entranhas do animal e retira punhados de uma substância cerosa. Para os marinheiros, aquilo representa dinheiro. Para Herman Melville, uma oportunidade de ironizar os hábitos da sociedade elegante.
No capítulo seguinte o escritor pergunta quem imaginaria que damas e cavalheiros se perfumariam com uma essência de origem tão improvável: as entranhas de um cachalote. A observação aparece em Moby Dick, publicado em 1851. Melville captou o fascínio por uma matéria-prima que atravessou oceanos, alimentou crenças e conquistou a perfumaria.
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Albatroz-errante: o monarca do azul que atravessa oceanosMarinha chinesa: a potência que avança pelos oceanosRiviera de São Lourenço: acordo ambiental de R$ 40 milhõesMais de um século e meio depois, pescadores do Iêmen viveram uma história que caberia no romance. Em fevereiro de 2021, encontraram uma carcaça de cachalote no golfo de Áden e retiraram 127 quilos de âmbar-cinzento. Segundo o The National, um participante relatou a venda por US$ 12 mil o quilo a um representante de um empresário do Golfo. O negócio teria rendido cerca de US$ 1,5 milhão. Com suas partes, pescadores compraram barcos e começaram a construir casas.
Um comércio de mais de mil anos
Mas essa história começou pelo menos mil anos antes. No século IX, viajantes e geógrafos árabes já registravam a coleta e o comércio de âmbar-cinzento no oceano Índico. Por volta de 875, Al-Yaqubi descreveu o produto que saía do litoral indiano para Basra, no atual Iraque. Esses registros aparecem no estudo Ambergris in Perfumery in the Past and Present.
Seu valor vinha do aroma, dos usos medicinais que lhe atribuíam e das qualidades que os perfumistas aprenderam a aproveitar. Em misturas, o âmbar ajudava a prolongar outras fragrâncias. Os achados, sempre imprevisíveis, limitavam a oferta. No século X, o cronista Abu Zaid relatava que o mar lançava a substância no litoral, mas reconhecia que ninguém sabia de onde ela vinha.
Curiosamente, como veremos adiante, a coleta nas praias ainda abastece quem trabalha com âmbar-cinzento. Coletores procuram os pedaços que o mar deposita na areia e os vendem a comerciantes especializados, que fornecem a matéria-prima à perfumaria.
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Imagine encontrar na praia uma massa de aparência estranha, capaz de exalar um aroma valorizado por comerciantes. Sem conhecer sua origem, como explicar aquele presente do oceano?
Segundo o Pitt Rivers Museum, da Universidade de Oxford, antigas interpretações atribuíram o âmbar a fungos, minerais, raízes, espuma marinha seca e até excrementos de aves. Na China, a substância ganhou associação com a “saliva de dragão”.
E a literatura aproveitou. Nas aventuras de Simbad, das Mil e Uma Noites, o navegante encontra uma fonte de âmbar que escorre para o mar. A versão oferece uma explicação fantástica para algo que chegava à costa sem revelar seu produtor.
Remédio, proteção e ingrediente de luxo
O âmbar-cinzento ocorre tanto em machos quanto em fêmeas, segundo o pesquisador Robert Clarke, autor de The origin of ambergris. Estimativas científicas apontam sua presença em aproximadamente um de cada cem cachalotes. Essa raridade ajuda a explicar a oferta imprevisível e o alto valor de determinados achados.
Uma reportagem histórica da Smithsonian Magazine descreve seu uso nos pomanders, pequenos recipientes aromáticos que pessoas abastadas carregavam junto ao corpo. Durante a Peste Negra, que devastou a Europa entre 1347 e 1351, seus usuários acreditavam que o âmbar e outras substâncias perfumadas os protegeriam do “ar corrompido”, ao qual atribuíam a doença.
A substância também entrou em receitas. Há relatos de que o rei inglês Carlos II apreciava ovos com âmbar. Essas histórias revelam o alcance do ingrediente, que transitava entre o cuidado com o corpo, a ostentação e a mesa.
O estudo Ambergris in Perfumery in the Past and Present, publicado no Indian Journal of History of Science, reúne parte dessa longa trajetória. Muito antes dos laboratórios modernos, o âmbar já conectava comércio, medicina e perfumaria.
A descoberta da origem do âmbar-cinzento
A ligação entre o âmbar e os cachalotes não surgiu de uma descoberta única. Relatos medievais, como os de Marco Polo, já associavam a substância às baleias. Porém, essas informações conviviam com explicações fantasiosas, sem encerrar a discussão.
No início da década de 1720, baleeiros de Nantucket, na costa dos atuais Estados Unidos, encontraram âmbar ao cortar um cachalote. Depois, passaram a procurar a substância em outros animais. Em 1724, o médico Zabdiel Boylston comunicou esses achados à Royal Society, em Londres. Seu relato descrevia o material recém-retirado como úmido e de cheiro extremamente desagradável.
No ano seguinte, Paul Dudley apresentou à instituição outro estudo sobre as baleias e o âmbar. A experiência dos baleeiros fornecia evidências concretas para esclarecer a origem da substância. Ainda assim, encontrar âmbar dentro do cachalote não explicava exatamente como ele se formava. Essa era outra pergunta — e algumas de suas respostas continuam em debate.
O que acontece dentro do cachalote
A explicação começa na alimentação. Cachalotes comem lulas, cujos bicos duros resistem à digestão. Em certas circunstâncias, restos dessas presas participam da formação de uma massa no intestino.
O Museu de História Natural de Londres explica que o âmbar pode crescer durante anos. Uma hipótese atribui à massa a função de envolver estruturas pontiagudas e reduzir seus danos internos.
A história também exige lembrar a proteção do animal que produz a substância. Em 1970, os Estados Unidos incluíram o cachalote em sua lista de espécies em perigo de extinção, conforme registra a NOAA. Hoje, o país proíbe inclusive recolher, manter ou vender âmbar-cinzento, mesmo quando alguém o encontra na praia.
O tempo transforma a substância
Ao longo do tempo, a luz solar e o oxigênio transformam a composição do âmbar-cinzento e desenvolvem o aroma que os perfumistas valorizam.
O artigo Ambergris: perfume e síntese, da revista Química Nova, explica que seu principal constituinte, a ambreína, sofre alterações sob a ação do oxigênio e da luz. Dessas reações surgem compostos aromáticos, entre eles o ambrox.
Essa química ajuda a entender por que os achados variam tanto. O âmbar-cinzento não constitui um produto uniforme, com aparência, composição e qualidade sempre iguais.
A perfumaria aprende a reproduzir o aroma
Hoje, a indústria produz moléculas que recriam características aromáticas do âmbar-cinzento. Assim, depende menos dessa matéria-prima rara, cuja oferta exige achados imprevisíveis. Porém, a substância dos cachalotes mantém admiradores: a perfumista Mandy Aftel declara seu uso no Parfum Privé, a lista inclui, entre outros, o Chanel Cristalle, Dior Sauvage ou Creed Aventus.
Por outro lado, a Givaudan anunciou em 2019 um processo de biotecnologia para fabricar Ambrofix a partir de matéria-prima derivada da cana-de-açúcar. A fermentação integra o caminho que permite obter esse ingrediente aromático.
Enquanto isso, na Nova Zelândia, coletores ainda procuram âmbar-cinzento nas praias para abastecer esse mercado. A Ambergris NZ Ltd declara comprar e vender material que eles recolhem manualmente no litoral. Já a Ambergris New Zealand, que afirma atuar há mais de 40 anos, recebe fotografias, verifica os achados e negocia sua compra. Esses comerciantes fazem a ponte entre os coletores e os compradores da matéria-prima.
Mas quanto vale um achado?
O preço depende da qualidade e da negociação. A empresa distingue variedades brancas, cinzentas, castanhas e pretas, com maior procura pelas brancas.
Segundo o site fivmagazine, ‘o âmbar-cinzento é um dos ingredientes mais caros da indústria de perfumes. Seu preço pode variar muito dependendo da qualidade e origem. Embora o âmbar-cinzento tenha um preço alto e seja controverso na perfumaria devido a regulamentações ambientais e considerações éticas, sua contribuição para a criação de fragrâncias distintas e duradouras permanece indiscutível’.
Dos relatos árabes aos baleeiros de Melville, das praias da Nova Zelândia aos laboratórios, o âmbar-cinzento atravessou séculos sem perder seu fascínio. A ciência aprendeu a reproduzir parte de seu aroma. Mas um pedaço que o mar deixa na areia ainda pode mudar a vida de quem o encontra. Tudo começa com um cachalote em busca de lulas nas profundezas do oceano.