Turismo náutico no Lagamar ameaça o berçário do Atlântico Sul
Faz muito tempo, mas muito tempo mesmo, que não surgia uma ideia tão estúpida e fora de hora. O governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Jr., decidiu estimular o turismo náutico no Lagamar. Quer abrir espaço para lanchas, iates e jet skis no complexo estuarino-lagunar entre Iguape, Cananéia e Paranaguá. Justamente ali está o mais importante berçário marinho do Atlântico Sul. O filho do apresentador da TV, que se consagrou explorando o sensacionalismo e expondo barracos familiares, batizou a ideia estafurdia como BR do Mar.

O que é o Lagamar Iguape-Cananéia-Paranaguá
Para entender o tamanho da imprudência, é preciso primeiro entender o que é o Lagamar. O complexo estuarino-lagunar de Iguape, Cananéia e Paranaguá forma um dos sistemas costeiros mais importantes do Brasil. Ele se estende por cerca de 140 quilômetros entre o litoral sul de São Paulo e o litoral do Paraná.
Ali se encontram águas doces que descem da Serra do Mar com as águas salgadas do Atlântico. Esse encontro cria um ambiente extremamente produtivo, repleto de manguezais, canais, ilhas, restingas e lagunas num imenso estuário.
É justamente essa combinação que transforma o Lagamar no mais importante berçário marinho do Atlântico Sul. Centenas de espécies de peixes, moluscos e crustáceos usam seus manguezais e canais rasos para se reproduzir e crescer antes de seguir para o mar aberto.
Além da importância ecológica, o Lagamar abriga comunidades caiçaras tradicionais que dependem da pesca artesanal e do equilíbrio desse ecossistema para sobreviver. Trata-se também de uma das maiores áreas contínuas de Mata Atlântica preservada do país.
O plano do governo do Paraná
A proposta do governo do Paraná pretende estimular o turismo náutico no Lagamar. A ideia inclui melhorar o Canal do Varadouro, passagem aberta nos anos 50 que liga o sistema lagunar de Cananéia ao estuário de Paranaguá.
Para isso, o projeto prevê dragagem do canal e outras intervenções para facilitar a passagem de embarcações maiores. O objetivo declarado é criar uma rota turística para lanchas, iates e outras embarcações de recreio que hoje enfrentam dificuldades para atravessar o trecho.
Segundo reportagem do Intercept Brasil, o próprio governador Ratinho Jr. admite que a ideia nasceu com ajuda de um empresário milionário do setor náutico. O plano já entrou na mira do Ministério Público Federal. O MPF abriu um inquérito para investigar o caso.
“BR do Mar”
De acordo com o Intercept, Ratinho Jr. mencionou a chamada “BR do Mar” em setembro de 2024 durante o 9º Congresso Internacional Náutica, realizado dentro da São Paulo Boat Show, considerada a maior feira náutica da América Latina.
O que o governador não contou no evento, ainda segundo o Intercept, é que o projeto já avançava havia meses. Em março de 2023, os governos do Paraná e de São Paulo assinaram um protocolo de intenções para “fomentar o turismo regional no Canal do Varadouro”. O documento previa investimentos milionários e ações para viabilizar a navegação turística no trecho.
Portanto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também embarcou nesta descabida empreitada. A adesão ao protocolo mostra um preocupante desconhecimento da própria geografia do Estado que governa e pouca sensibilidade para os problemas ambientais do litoral paulista.
Um exemplo eloquente é a situação do Canal do Valo Grande. Aberto há quase 300 anos, ele continua despejando enormes volumes de água doce no estuário de Iguape, alterando o equilíbrio do Lagamar. O resultado é a degradação do manguezal e a mortandade da vida marinha por excesso de água doce. Mesmo assim, o problema segue sem solução e raramente aparece nas prioridades da Fundação Florestal ou do governo estadual.
Assinatura do protocolo de intenções entre os governos de São Paulo e do Paraná
Segundo o Intercept Brasil, seis meses depois da assinatura do protocolo de intenções entre os governos de São Paulo e do Paraná, em setembro de 2023, o governo paranaense firmou, com dispensa de licitação, um contrato e um aditivo que somam mais de R$ 3,6 milhões para elaborar anteprojetos e o Relatório de Controle Ambiental (RCA) das obras de dragagem e de apoio ao turismo para a futura “BR do Mar”.
O acordo foi assinado entre a Paraná Projetos — empresa paraestatal criada em 1998 e financiada com recursos públicos — e a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre), que, apesar do nome, não é uma universidade, mas uma organização da sociedade civil voltada ao planejamento urbano e ambiental.
Segundo documentos obtidos pelo Intercept, estudos de solo no Canal do Varadouro começaram antes mesmo da assinatura do contrato e ocorreram sem qualquer comunicação ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelo Parque Nacional do Superagui, embora parte da intervenção prevista atravesse essa unidade de conservação.
Cabe a pergunta: é apenas esquecimento do filho do apresentador de TV, ou má fé?
A arrogância de mudar uma paisagem formada ao longo de eras
A proposta de estimular o turismo náutico no Lagamar revela uma velha arrogância da política brasileira: a ideia de que obras e máquinas podem redesenhar ambientes naturais que levaram milhares de anos para se formar. O governo do Paraná já demonstrou esse tipo de visão no litoral. Em Matinhos, realizou a chamada “engorda” da praia, a mais cara do Brasil, numa tentativa artificial de alargar a faixa de areia. A obra custou cerca de R$ 400 de milhões de reais e foi vendida como solução definitiva para a erosão. Mas, como já mostramos aqui no Mar Sem Fim, o mar ignorou a intervenção e voltou a avançar em trechos da costa. Ainda assim, o governo insiste em novas intervenções, agora no coração do maior berçário marinho do Atlântico Sul.
A própria execução da obra em Matinhos revela o nível de improviso. Em março de 2026, o Ibama multou o governo do Paraná em R$ 2,5 milhões por poluição causada durante a engorda da praia. Sacos plásticos usados para conter a areia espalharam-se pelo mar e pela faixa de areia, transformando uma intervenção que já era controversa em mais um episódio de degradação ambiental. Em outras palavras, além de caríssima, a obra foi conduzida de forma tão precária que acabou gerando exatamente o tipo de impacto ambiental que deveria evitar.
Dragagem no coração do Lagamar
É nesse contexto que surge agora a proposta de estimular o turismo náutico no Lagamar. O plano passa pela dragagem do Canal do Varadouro, uma passagem aberta nos anos 50 do século passado que liga o sistema lagunar de Cananéia ao estuário de Paranaguá.
Trata-se de um canal estreito, raso e extremamente sensível do ponto de vista ecológico. Ele atravessa manguezais, restingas e áreas protegidas que fazem parte de um dos ecossistemas mais preservados do litoral brasileiro.
Qualquer dragagem altera a circulação das águas, muda o transporte de sedimentos e pode provocar erosão nas margens dos canais. Em um ambiente estuarino como o Lagamar, essas alterações podem se espalhar por todo o sistema.
Além disso, a região está cercada por unidades de conservação e áreas de proteção ambiental que existem justamente para preservar esse equilíbrio. Intervenções desse tipo exigiriam estudos ambientais rigorosos e amplo debate público — algo que, até agora, parece não ter acontecido.
Controvérsias do governo Ratinho Jr.
Não é a primeira vez que decisões do governo Ratinho Jr. levantam controvérsias. Sua gestão já enfrentou críticas por obras no litoral com impacto ambiental, pela privatização da Copel e por denúncias envolvendo contratos públicos e o entorno político do governo. Em um caso recente, um contrato de mais de R$ 1 milhão da Polícia Militar foi investigado por suspeita de favorecimento e irregularidades. Esse histórico ajuda a explicar por que propostas de intervenção em áreas sensíveis, como o Lagamar, despertam tanta desconfiança.
No fim das contas, a questão é simples. O Lagamar não é um vazio no mapa esperando obras ou novos negócios. É um sistema natural raríssimo, formado ao longo de milhares de anos e responsável por sustentar parte da vida marinha do Atlântico Sul. Intervir ali para estimular lanchas, iates e jet skis revela uma visão antiquada de desenvolvimento, aquela que ignora a ciência e despreza os limites da natureza. Depois do fiasco caríssimo da engorda de Matinhos, seria prudente que o governo do Paraná aprendesse uma lição básica: a natureza não se dobra a decretos nem a projetos mal pensados.