Ressacas no litoral brasileiro: o custo invisível que ninguém calcula
Uma ressaca dura poucas horas. Às vezes dois dias. Mas o prejuízo não recua com a maré. A água invade avenidas, destrói calçadões, corrói redes de drenagem, ameaça imóveis e paralisa o comércio. Depois que o mar volta ao seu lugar, fica a conta. Quem paga? Quanto custa, de fato, cada ressaca no litoral brasileiro? E por que quase nunca vemos esse número consolidado?

Quanto custa uma ressaca?
Com o aquecimento do planeta cada vez mais fora de controle, a potência e a frequência das ressacas também aumentam. Em julho de 2025, uma delas chamou atenção nacional. As ondas atravessaram avenidas, atingiram prédios e destruíram parte da infraestrutura urbana em municípios do Sul e do Sudeste. As imagens rodaram o país. Mas, depois que o mar recuou, ficou a pergunta que quase nunca é feita: quanto custou?
2026 mal começou e o litoral voltou a ser castigado. Uma nova e brutal ressaca atingiu Tramandaí e Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul, além de provocar danos em vários municípios de Santa Catarina. A cena se repete: calçadões destruídos, muros derrubados, ruas alagadas, comércio fechado.
Mas a conta não nasce apenas das ondas. Ela começa muito antes, na forma como ocupamos o litoral.
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Limpeza oceânica já retirou 50 milhões de toneladas de plásticoDonzela-real, mais um peixe invasor no litoral de São PauloNova estação científica no arquipélago de São Pedro e São PauloDurante décadas, avançamos sobre manguezais, destruímos restingas, aplainamos dunas e impermeabilizamos a orla em nome da valorização imobiliária. A cultura do “pé na areia” virou sinônimo de status. Na prática, significa construir onde o mar sempre teve espaço para avançar.
Mangues amortecem. Restingas estabilizam. Dunas absorvem energia. Mas fazem mais do que isso: esses ecossistemas sustentam as próprias praias. As dunas funcionam como reservatórios de areia. A restinga fixa o sedimento. O manguezal reduz a força das correntes e ajuda a manter o equilíbrio costeiro.
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Quando eliminamos essas defesas naturais, não apenas aumentamos o impacto das ondas. Interrompemos o sistema que recompõe a areia perdida nas ressacas. Depois, gastamos milhões tentando repor artificialmente, por meio das malfadadas engordas de praias, o que a natureza fazia de graça.
Assim, transformamos eventos intensos em desastres caros — e permanentes.
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Cada vez que uma ressaca destrói um trecho da orla, o poder público anuncia obras emergenciais. Reconstrução de calçadões. Reforço de enrocamentos. Nova drenagem. Reposição de areia. O problema é que esses valores aparecem de forma isolada. Não há um levantamento nacional que some os prejuízos das ressacas no litoral brasileiro.
Mesmo assim, números espalhados por relatórios municipais e pela imprensa mostram que estamos falando de milhões — e, somados ao longo dos anos, provavelmente de bilhões.
Um dos exemplos mais documentados é o de Mongaguá (SP), onde uma forte ressaca em junho de 2016 provocou prejuízos de R$ 5,2 milhões só na reconstrução de calçadões, muros de arrimo e galerias pluviais danificadas. Esse valor, divulgado na época pela prefeitura e pela imprensa local, não incluía perdas privadas de moradores nem interrupção de comércio.
Em Santos, após a forte ressaca de julho de 2025, a prefeitura anunciou a previsão de R$ 2,6 milhões em gastos emergenciais para reparar a orla entre o Posto 6 e a Rua Oswaldo Cochrane, incluindo reconstrução de calçadas, contenção e limpeza da faixa atingida pelas ondas.
Erosão no Nordeste: o problema é nacional
A erosão e os danos provocados por ressacas não se limitam ao Sul e ao Sudeste. No Nordeste, o avanço do mar já compromete infraestrutura urbana e ameaça comunidades em vários estados. Na Paraíba, estudos recentes apontam recuo da linha de costa e situações críticas em áreas como Baía da Traição. Em Sergipe, construções sobre dunas e restingas agravaram a vulnerabilidade costeira. No Ceará, quase metade do litoral apresenta trechos sob processo erosivo. O cenário se repete: ocupação mal planejada, perda das defesas naturais e aumento do custo público quando o mar reage.
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Segundo o relatório “Boas práticas socioambientais costeiras e marinhas”, da Agência Costeira, os prejuízos públicos e privados associados a erosão costeira e eventos extremos como ressacas somaram cerca de R$ 140 milhões no Brasil entre maio de 2010 e maio de 2022 (valor baseado na Classificação e Codificação Brasileira de Desastres).
A conta que ninguém quer fechar
O que esses números mostram é apenas a superfície do problema. Cada município divulga seus prejuízos isoladamente. Cada obra emergencial entra como despesa pontual. Mas ninguém soma a conta nacional das ressacas. Esta falta de informação em escala nacional dificulta a criação de políticas públicas para o litoral.
Enquanto isso, continuamos ocupando áreas frágeis, eliminando defesas naturais e investindo recursos públicos para manter estruturas que o próprio mar insiste em testar ano após ano.
A pergunta deixa de ser quanto custou a última ressaca. A pergunta passa a ser quanto o Brasil ainda está disposto a gastar para sustentar um modelo de ocupação que ignora os limites da costa.
Porque o mar sempre volta. A conta também.
Sem cabras a vegetação da Ilha da Trindade volta a florescer