Proteção marinha no Chile: país protege mais de 50% do mar
A proteção marinha no Chile voltou a se destacar no cenário internacional. Em 10 de março, o governo aprovou dois novos parques marinhos no Pacífico Sul e elevou para 54% a parcela de sua zona econômica exclusiva sob proteção ambiental. Desse modo, o país entrou no grupo dos líderes mundiais da conservação marinha. Como o Mar Sem Fim já mostrou em post anterior, essa decisão não surgiu de repente. Ela dá continuidade a uma política pública que o Chile vem fortalecendo há anos.

A decisão criou os parques Mar de Juan Fernández II e Nazca Desventuradas II. Juntos, eles somam mais de 337 mil km². Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o avanço colocou o Chile entre os países com maior proporção de mar protegido no mundo. Além disso, o próprio governo chileno destacou que essa política atravessou os mandatos de Michelle Bachelet, Sebastián Piñera e Gabriel Boric. Ou seja, o país tratou a proteção do mar como política de Estado.
As novas áreas protegem uma região remota e muito rica em biodiversidade. Ali, 87% dos peixes de Juan Fernández e 72% dos peixes de Nazca Desventuradas só existem naquela parte do oceano. A área também abriga corredores ecológicos e rotas migratórias de espécies como atuns, tubarões, tartarugas, aves marinhas e o lobo-fino de Juan Fernández. Além disso, a comunidade local teve papel importante no processo. Os moradores do arquipélago, que manejam de forma sustentável a pesca da lagosta desde 1890, apresentaram ao governo a proposta de ampliar a proteção.
Proteção marinha no Chile avança enquanto o Brasil patina
Embora o Brasil tenha criado o Parque Nacional Marinho do Albardão após quase 20 anos de cobrança, o contraste com o Chile continua constrangedor. Aqui, uma conquista histórica ainda depende de demora, pressão e resistência política para sair do papel. Lá, a proteção do mar virou política de Estado. Em 10 de março, os chilenos aprovaram dois novos parques marinhos e elevaram para 54% a parcela de sua zona econômica exclusiva sob proteção ambiental. Ou seja, enquanto o Brasil ainda comemora um avanço tardio, o Chile segue ampliando com método, continuidade e ambição a defesa de seu oceano.
Mais lidos
Porto Brasil Sul ameaça hotspot da Baía da BabitongaElevação do nível do mar pode explicar crise no litoral brasileiroParque Nacional Marinho do Albardão é criado no litoral do Rio Grande do SulEsse avanço chileno não nasceu apenas de decretos. Ele resulta de uma visão estratégica mais ampla e contínua. O governo destacou que essa política atravessou administrações de orientações distintas, de Michelle Bachelet a Sebastián Piñera e Gabriel Boric. Além disso, a Blue Marine Foundation lembra que, quando a proteção integral entrar em vigor, a área formará a terceira maior zona de exclusão de pesca do mundo, atrás apenas do Mar de Ross e de Papahānaumokuākea. Portanto, o Chile não só ampliou áreas protegidas. Mais que isso, consolidou uma política duradoura e ambiciosa para o Pacífico Sul.
Por que essas áreas são tão valiosas
Os novos parques ficam numa das regiões mais singulares do Pacífico Sul. Ali, o isolamento geográfico favoreceu o surgimento de espécies únicas. Segundo o governo chileno, 87% dos peixes do arquipélago de Juan Fernández e 72% dos peixes da região de Nazca Desventuradas só existem ali. Além disso, a área funciona como corredor ecológico para atuns, tubarões, tartarugas, aves marinhas e mamíferos marinhos. Em outras palavras, o Chile não protegeu um vazio no mapa. Protegeu um dos trechos mais valiosos de seu oceano.
PUBLICIDADE
Há ainda outro aspecto importante. A proposta não nasceu apenas nos gabinetes de Santiago. Segundo a Blue Marine Foundation, a comunidade de Juan Fernández teve papel decisivo no avanço da proteção. Os moradores do arquipélago manejam de forma sustentável a pesca da lagosta desde 1890. Por isso, o caso chileno mostra que conservação marinha não precisa andar contra as populações locais. Ao contrário, pode nascer delas.
Mesmo com contradições, a proteção marinha no Chile cresce
Nada disso significa que o Chile seja exemplo em tudo o que faz no mar. O país também comete erros graves. Como o Mar Sem Fim mostrou em outro post, a criação de salmão no sul chileno provoca poluição, precarização do trabalho e forte impacto ambiental. Ainda assim, há uma diferença decisiva: mesmo com contradições e setores econômicos agressivos, o Chile reage. Em vez de abandonar a proteção marinha, o país amplia parques, cria novas áreas protegidas e mantém o oceano no centro de sua agenda pública.
Leia também
Estudo sugere proteção integral no mar do SudesteGrilagem avança no entorno da APA Baleia-SahyMP breca ação da Prefeitura de Florianópolis em áreas protegidasPara o Brasil, a lição continua clara. Não basta celebrar avanços isolados, ainda que importantes, como o Parque Nacional Marinho do Albardão. É preciso transformar a defesa do mar em política de Estado. O Chile mostra que isso é possível. Mostra também que proteger o oceano não exige perfeição, mas exige rumo, constância e vontade política. Isso, infelizmente, ainda nos falta.
Para saber mais assista ao vídeo
Litoral Norte gaúcho: governo Leite abranda diretrizes ambientais