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Prof. W. Besnard aderna em Santos e expõe velho abandono

Prof. W. Besnard aderna em Santos e expõe velho abandono

O navio oceanográfico Prof. W. Besnard adernou na noite de 13 de março, no cais do Parque Valongo, em Santos. Ficou assentado no leito, ainda amarrado ao cais, sem risco iminente à navegação. A Marinha informou que não houve vítimas nem poluição hídrica e instaurou Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação para apurar as causas e os possíveis responsáveis.

Professor W. Besnard aderna em Santos
Professor W. Besnard aderna em Santos.

Nada disso, porém, autoriza espanto. O que se viu em Santos não foi um acidente isolado. Foi o desfecho de uma degradação longa, pública e vergonhosa. O Professor W. Besnard está atracado em Santos desde 2008 e, apesar da importância que teve para a pesquisa oceanográfica brasileira, acabou lançado ao abandono.

O navio que levou a oceanografia brasileira ao mar

O navio oceanográfico  não foi uma embarcação qualquer. O Instituto Oceanográfico da USP informa que ele chegou a Santos em 9 de agosto de 1967, depois de quase dez anos de esforços para dar ao instituto um navio de pesquisa à altura de suas ambições. Desde o início, a USP o concebeu para duas funções: pesquisa oceanográfica e pesca experimental.

Seu valor histórico é ainda maior. Segundo o Jornal da Orla, o navio realizou centenas de viagens científicas e participou de seis expedições à Antártica. Não se trata, portanto, de um casco velho qualquer. Trata-se de uma peça importante da história da ciência do mar no Brasil.

Wladimir Besnard e a ambição científica que o país esqueceu

O nome do navio oceanográfico já bastaria para lhe garantir lugar especial na memória nacional. A embarcação homenageia Wladimir Besnard, pioneiro da oceanografia brasileira. O próprio histórico do IOUSP registra que ele trabalhou para que a universidade tivesse um navio próprio e com autonomia para navegar em mar aberto, mas morreu antes de ver esse projeto realizado.

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Foto de Fernando Liberalli, em maio de 2024, mostra que aos poucos o Besnard vai resgatando sua dignidade. Sem ajuda, até agora, de quem quer que seja, Libaralli está realizando seu sonho e nos dando este formidável presente: o primeiro navio-museu do País.

Como o Mar Sem Fim lembrou em seu perfil sobre o pesquisador, Wladimir Besnard ajudou a estruturar a oceanografia moderna no país. Instalou base em Cananeia, no Lagamar, dirigiu expedições a Trindade e Martim Vaz e esteve por trás dos primeiros passos da construção institucional do que depois se consolidaria como o Instituto Oceanográfico da USP.

Do abandono ao vexame

É isso que torna a cena de Santos ainda mais amarga. O navio que levava o nome de um dos pais da oceanografia nacional terminou reduzido a estorvo, ferrugem e embaraço. Em vez de receber o tratamento reservado a um patrimônio científico, o Professor W. Besnard ficou anos entregue à omissão, às promessas e ao improviso.

Imagem, Rafael Arbex/Estadão.

O caso expõe um defeito antigo do Brasil. O país gosta de exaltar a ciência em discursos e cerimônias. Mas trata mal seus símbolos concretos. Quando abandona um navio que ajudou a formar gerações de pesquisadores, não perde apenas um bem material. Rebaixa sua própria memória científica.

A história do Prof. W. Besnard ficou ainda mais amarga porque houve, sim, uma tentativa séria de lhe dar destino mais digno. Como o Mar Sem Fim mostrou em 2024, Fernando Liberalli, à frente do Instituto do Mar, lutou para restaurar a embarcação e transformá-la em navio-museu, com uso educativo e aberto ao público. A proposta mobilizou professores da USP, passou pelo Ministério Público, chegou ao Condephaat e acabou reforçada quando o navio recebeu o reconhecimento de Patrimônio Cultural do Estado de São Paulo. Mais tarde, a ideia ainda se ligou ao projeto do Parque Valongo. Nada disso bastou. A burocracia, a omissão e o velho descaso brasileiro com a memória científica falaram mais alto.

Quando o descaso afunda a memória

O Professor W. Besnard adernou em Santos no dia 13 de março de 2026. Mas seu verdadeiro naufrágio começou muito antes. Começou quando o poder público e os responsáveis aceitaram, quase sem constrangimento, que um dos símbolos da oceanografia brasileira definhasse diante de todos. Agora, já não adianta fingir surpresa.

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