❯❯ Acessar versão original

Porto Brasil Sul ameaça hotspot da Baía da Babitonga

Porto Brasil Sul ameaça hotspot da Baía da Babitonga

O Porto Brasil Sul ameaça a Baía da Babitonga num momento em que a biodiversidade mundial sofre perdas aceleradas e o estuário catarinense já suporta dois grandes portos, além de crescente pressão urbana, viária e ambiental. Agora que o Albardão foi protegido, a Babitonga se firma como o derradeiro hotspot da costa sul e sudeste ainda sem proteção federal e sob ameaça. Em São Francisco do Sul, a proposta de instalar um terceiro terminal reacendeu a revolta de moradores, ambientalistas e entidades como a AMECA, que denunciam o risco de novos danos a um dos ecossistemas mais ricos e sensíveis da costa brasileira.

Baía da Babitonga que abrigará o Porto Brasil Sul.
A Baía da Babitonga abrigará o Porto Brasil Sul? Imagem, jornalistaandrade.blogspot.com.

Uma baía já pressionada

Portos são importantes. Geram empregos, movimentam a economia e integram o país ao comércio internacional. Não se discute. O problema começa quando tentam enfiar mais um grande complexo portuário num ambiente que já não suporta pressão.

É o que acontece na Baía da Babitonga, norte de Santa Catarina. Ali já operam dois grandes portos. Ainda assim, setores empresariais insistem em ampliar a pressão sobre uma baía que dá sinais de saturação.

Não se trata de uma área qualquer. A Babitonga é um estuário de enorme relevância ecológica, paisagística e social. Sua riqueza ambiental é excepcional. A baía abriga manguezais, ilhas, canais, aves costeiras e marinhas, além de espécies ameaçadas, o que faz dela um espaço singular do litoral sul.

Este espetáculo natural, um hotspot de biodiversidade da costa brasileira, está ameaçado por um terceiro porto.

PUBLICIDADE

Um hotspot da costa brasileira

Entre as espécies presentes estão a toninha, o boto-cinza, o mero e a tartaruga-verde, todos sob algum grau de ameaça. No caso da toninha, a situação é mais delicada. A Babitonga abriga uma população rara desse pequeno cetáceo, o mais ameaçado do Brasil, numa condição singular para a espécie.

Em outras palavras, não estamos falando de um vazio ecológico à espera de progresso. Estamos diante de um espaço que carrega evidente valor natural e que, por isso mesmo, deveria inspirar prudência extrema.

São Francisco do Sul.

Babitonga, um patrimônio ambiental e arqueológico

A Baía da Babitonga, surpreendentemente, também guarda uma das histórias antropológicas mais ricas do litoral. A região concentra mais de 170 sambaquis, vestígios de ocupação humana que remontam a pelo menos 6 mil anos e revelam uma relação intensa, contínua e sofisticada entre as antigas populações costeiras e os recursos do estuário. Estudos citados pelo Mar Sem Fim mostram que esses grupos extraíam, em média, 32 toneladas de peixes por ano e consumiram, ao longo de milênios, cerca de 185 mil toneladas de pescado na baía.

Mais que isso, os sambaquis da Babitonga revelaram uma descoberta que repercutiu no mundo inteiro. Estudo publicado na Nature Communications mostrou que indígenas do sul do Brasil já caçavam baleias há cerca de 5 mil anos. Ossos, artefatos e grandes arpões encontrados indicam uma cultura marítima complexa, dotada de tecnologia especializada, cooperação coletiva e profundo conhecimento do mar por parte dos antepassados dos caiçaras. Em outras palavras, muito antes dos portos e terminais, a Babitonga abrigava uma ocupação humana singular, cuja importância histórica e arqueológica segue amplamente subestimada.

São Francisco do Sul – um conflito antigo, agora agravado

A polêmica não começou agora. O Porto Brasil Sul é promovido há anos. Em 2017 o vídeo promocional apresentou o projeto ao público com as marcas da Ciser, da Macrologística e da Coimport. Desde então, o empreendimento passou a frequentar o debate local e regional. Porém, sempre cercado de controvérsia.

Mar Sem Fim atracado no Museu Nacional do Mar, São Francisco do Sul em janeiro de 2007. Estava no fim a primeira descida da costa brasileira, desde o Oiapoque em abril de 2005, até o Chuí onde chegamos em abril de 2007. Eu, Paulina Chamorro, o cinegrafista Cardoso, e o saudoso Mestre do Mar, Alonso Goes com quem tive o privilégio de navegar por mais de 20 anos.

Hoje, o rosto mais visível do projeto é Paulo Bauer, ex-senador por Santa Catarina e CEO do Porto Brasil Sul. Seu nome dá a medida do calibre político do empreendimento e deixa claro por que a disputa transbordou, faz tempo, os limites de São Francisco do Sul.

O papel central da AMECA

É nesse cenário que a AMECA, Associação Movimento Ecológico Carijós, ganha papel central. A entidade trata o caso como um embate jurídico, ambiental e político. Em publicações recentes, a AMECA informou que, em 20 de fevereiro de 2026, protocolou uma Ação Civil Pública contra a emissão da Licença Ambiental Prévia concedida ao Porto Brasil Sul. Segundo a entidade, a medida judicial questiona a legalidade da licença e reafirma seu compromisso com o meio ambiente, com a Baía da Babitonga e com o interesse coletivo da população.

PUBLICIDADE

O Ministério Público de Santa Catarina reforçou a gravidade do caso ao informar, em nota oficial, que a licença foi emitida apesar de parecer técnico contrário do IMA. O órgão também apontou preocupações com interferência em área de mangue e APP, riscos aos recursos hídricos, prejuízos à pesca tradicional, dependência de obras viárias ainda incertas e fragilidades técnicas nos estudos do empreendimento. O MPSC informou ainda a instauração de inquérito civil para apurar possíveis ilegalidades no licenciamento.

Mas a reação ao porto não partiu apenas da AMECA. Ela se espalhou por várias instâncias do município e da região. O Conselho Municipal de Meio Ambiente, órgão deliberativo, votou contra o Porto Brasil Sul. O Grupo Pró-Babitonga, colegiado formado por representantes governamentais e não governamentais de seis municípios do entorno da baía, também votou contra o projeto. Várias entidades locais enviaram ofício ao prefeito pedindo o decreto do Parque Sumidouro. Em 2025, os vereadores de São Francisco do Sul, por maioria, também se manifestaram contra o Porto Brasil Sul. Ou seja, não se trata de protesto isolado. A resistência vem de vários setores da sociedade e de diferentes instâncias institucionais, algo de uma dignidade e raridade incomuns.

A área sempre foi vista como de preservação

Esse ponto é decisivo. Não é verdade que a unidade de conservação tenha sido inventada apenas para barrar o porto. A área proposta para o Parque Natural Municipal Sumidouro aparecia no zoneamento municipal, definido pela Lei 763, como área de preservação. O artigo 2º trata os mangues de forma ainda mais rigorosa, classificando-os como non aedificandi – expressão em latim que significa “não edificável”, referindo-se a áreas de terreno, públicas ou privadas, onde é proibido construir. Em outras palavras, muito antes da atual disputa, esse trecho entre Forte, Sumidouro e Capri era visto como área de proteção.

As pessoas que frequentam e conhecem essas praias sabiam que se tratava de uma faixa costeira singular, sensível e incompatível com ocupações agressivas.

O Parque Sumidouro veio antes da licença

Em 2025, o poder executivo de São Francisco do Sul criou a unidade de conservação Parque Natural Municipal Sumidouro. O decreto veio antes de o IMA conceder a Licença Ambiental Prévia ao Porto Brasil Sul. Depois disso, a World Port conseguiu, por liminar no Tribunal de Justiça de Santa Catarina, suspender o parque.

PUBLICIDADE

Esse detalhe importa muito. Ele mostra que a criação da unidade de conservação não nasceu como improviso. Ela se apoia numa visão antiga de que aquela área precisava ser protegida, percepção refletida no zoneamento municipal.

A paisagem também está em jogo

Mas a disputa em torno da Baía da Babitonga não diz respeito apenas à fauna ameaçada, aos manguezais ou ao risco de novos impactos urbanos. Há outro bem em jogo: a paisagem.

Como já mostrei aqui no Mar Sem Fim, todas as Constituições brasileiras, desde 1934 até a atual de 1988, adotaram a proteção da paisagem como princípio. A paisagem de um país é um bem que pertence a todos. Ninguém tem o direito de se apropriar de uma parcela e apequená-la segundo interesses particulares. Não é um detalhe. A paisagem integra o patrimônio natural e cultural brasileiro e cabe ao poder público defendê-la.

A diferença entre Babitonga e o resto da costa catarinense

Esse ponto ajuda a entender o contraste entre a reação da Babitonga e o que se vê em boa parte do litoral de Santa Catarina. Ali, na baía, parte da sociedade teve a altivez para reagir antes que o dano se tornasse irreversível. Em grande parte dos municípios costeiros, porém, o padrão é outro: prefeitos e câmaras municipais toleram, quando não estimulam, a ocupação predatória de dunas, restingas, manguezais e faixas de praia, enquanto a indiferença domina os frequentadores.

Depois se gabam da valorização recorde do metro quadrado, como se isso fosse prova de êxito e não sintoma de destruição, franqueando sua miopia e boçalidade.

Um dos portos localizados na Baía da Babitonga.

O mecanismo é conhecido

Constroem-se prédios, resorts, e condomínios perto demais do mar. Aplainam-se dunas, ocupam-se restingas, cortam-se manguezais, eliminam-se os ecossistemas que sustentam o equilíbrio das praias. Ao destruir essas defesas naturais, a costa perde resiliência diante das ressacas, da erosão e da elevação do nível do mar.

PUBLICIDADE

Surge o déficit de areia, o avanço do mar e a deterioração da paisagem. Em vez de rever o modelo de ocupação, muitos prefeitos recorrem às engordas de praia, obras tão caras quanto inúteis, vendidas como solução definitiva.

Os botos cinza na baía da Babitonga.

As engordas também já mostram seus limites

Mas essa promessa começa a ruir. Como mostrei em outro texto do site, pesquisadores da UFSC publicaram as Notas Técnicas nº 06/PES/202305/PES/2025 afirmando que as obras de engorda em Santa Catarina não vêm cumprindo os objetivos anunciados nem respeitando os próprios projetos licenciados. Segundo os especialistas, as praias artificialmente alimentadas passaram a registrar processos erosivos mais intensos após os aterros.

Para os autores, esses projetos resultam de decisões isoladas de municípios interessados em aquecer a economia local e valorizar o mercado imobiliário, e não de políticas públicas sérias de mitigação e adaptação à elevação do nível do mar e ao aumento dos eventos extremos.

Família caiçara.

Apatia na maior parte da costa catarinense

Em boa parte do restante da costa catarinense, ao contrário, prevalece a aceitação quase resignada, por vezes apática, de um modelo predatório de ocupação.

Em vez de conter a destruição de ecossistemas essenciais, muitos administradores públicos celebram cada novo prédio erguido em local inadequado, mesmo quando isso arruína a paisagem, compromete os ambientes costeiros e empurra para o futuro uma conta ambiental e financeira cada vez mais alta.

Ilustração Porto Brasil Sul, EIARIMA.

O que está em disputa não é apenas o Porto Brasil Sul

A beleza cênica do litoral catarinense não é luxo nem capricho. A paisagem é patrimônio coletivo. Câmbio final. E sua degradação não ocorre apenas por ignorância, mas por conveniência política e econômica.

A Babitonga, neste momento, representa o oposto: uma rara reação organizada antes da consumação do dano. Talvez seja isso que torne a polêmica tão importante, saborosa e instigante. Ela vai além da discussão sobre mais um porto. Ela revela a disputa entre dois projetos de costa: um que transforma a natureza em mercadoria, e outro que entende que certos espaços, simplesmente, não podem ser sacrificados.

PUBLICIDADE

Revoada de Biguás.

Se prevalecer a lógica da pressa, a Babitonga corre o risco de repetir o roteiro já conhecido em tantos outros trechos do litoral catarinense: destruição dos ecossistemas, banalização da paisagem, piora da qualidade de vida, saturação urbana e remendos caríssimos vendidos depois como solução.

Se houver lucidez, ao contrário, a baía será reconhecida pelo que de fato é: um patrimônio natural excepcional, que já suporta pressão demais e precisa de proteção, não de mais um empreendimento de grande impacto.

E então ficará claro o essencial. A resistência da Babitonga não é atraso, muito menos radicalismo. É exemplo de um brio que, surpreendentemente, ainda subsiste numa costa sob pesado ataque da barbárie.

De seu desfecho pode resultar o modelo de ocupação do que resta de digno na costa brasileira.

Imagem de abertura: botos-cinza na baía da Babitonga, www.portoitapoa.com.

Elevação do nível do mar pode explicar crise no litoral brasileiro

Sair da versão mobile